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O que está acontecendo? / Piloto Ruy Flemming

Foi a primeira vez que senti uma desorientação espacial


O que está acontecendo?!?


Nós fizemos o pouso técnico previsto para abastecer em Santarém na rota entre Manaus e Belém.

Só que o tempo previsto para completar os tanques dos oito Tucano foi muito maior que o previsto. A vazão daquela bomba de combustível parecia que o querosene entrava a conta-gotas.

A gente tinha saído cedo de Manaus justamente pra evitar as tempestades do final do dia que acontecem na Amazônia naquela época do ano.

Em rota, entre Santarém e Belém, o tempo fechou. O pouso já seria seria noturno.

Foi a primeira vez eu senti o que é uma desorientação espacial.

Tive ótimos instrutores. Às vezes a gente nem lembra quem falou o que pra gente, mas guarda a dica.

Se eu lembrasse quem deu a dica, certamente teria ligado pra contar o que aconteceu e agradeceria.

A Fumaça se separou em duas esquadrilhas voando em altitudes diferentes na mesma rota. Eu estava na ala do líder.

A gente não tinha radar meteorológico, mas uns poucos aviões tinham um storm scope que mostravam numa telinha alguns sinais de “+”, onde tinha maior concentração de atividade elétrica na atmosfera, o que permitia ao líder fazer seus desvios para evitar uma turbulência mais severa.

Voar em ala em condições totalmente visuais é consideravelmente diferente de fazer o mesmo voo dentro de nuvem.

Todos desligamos nossas strobo lights, porque a cada flash da lâmpada todas aquelas partículas de água da nuvem são iluminadas formando um grande clarão e quando os olhos começam a se acostumar, viria outro flash.

As luzes de navegação do avião do líder são uma ótima referência. Estão sempre lá e servem bem pra balizar o voo em ala dentro de nuvens.

A questão é que, dependendo da concentração das partículas de água, em vez do ala enxergar o avião do líder inteiro, a gente só vê a luzinha de navegação.

Lembra de situações onde alguém diz que a neblina estava tão forte que daria pra cortar com faca?

Pois é.

À medida que a gente voava, a densidade daquelas nuvens ia mudando de forma que alternava em ver o avião inteiro ou ver só a luz de navegação.

Quando a gente soma essa situação a alguma turbulência o ambiente da cabine fica tenso. Pode existir, mas não conheço piloto que tenha voado ala dentro de nuvens e tenha relatado essa experiência como algo tranquilo. O corpo começa a suar, a começar pelas mãos. Os músculos enrijecem. A adrenalina sobe. O estado de atenção e alerta vai aos mais elevados níveis. Os protocolos para a perda de vista do líder vêm à mente: desço 1.000 pés abrindo 45° pra esquerda. Mas vou “morder” essa luz de navegação e vou ficar nessa ala até que os limites de segurança e bom senso permitam.

Num dado momento eu estava voando um looping na ala. Sem qualquer dúvida. Era um looping.

Todas as sensações eram de looping. Inclusive trabalhava o motor do Tucano como se estivesse num looping.

Eu sei o que é fazer um looping na ala. Fiz vários.

- Looping? Nessa situação?!? Como assim?!?!?

Daí veio a dica do instrutor:

- Talvez por que o piloto de Tucano voe num ambiente de cabine onde a visão do mundo exterior não tenha obstáculos, porque você está embaixo de um plaxiglass que envolve toda a cabine, quando vc estiver voando em ala dentro de nuvens vc poderá sentir a sensação, falsa, de que está fazendo alguma acrobacia na ala.

Esse arquivo mental que alguém me passou alguns anos antes, veio à tona.

É incrível como a nossa mente quer nos enganar em determinadas situações. A ponto de a gente achar que uma situação impossível é verdadeira.

Qual é o ponto que a gente tem que se amarrar pra ressetar nosso sistema mental?

- Olhe pro horizonte artificial e coloque o céu onde o céu deve estar e o chão onde o chão deve estar.

De rabo de olho chequei o horizonte artificial e ele estava lá, arrumadinho, parado num voo nivelado.

Nesse exato momento sumiu o looping que eu jurava que estava fazendo.

Minha mente ainda tentou me enganar umas duas ou três vezes naquele voo.

Ver as luzes do aeroporto de Val de Cães, em Belém, foi um alívio tremendo.

Enfim chegamos!

Bota no seu arquivo mental dicas valiosas de quem passou por algum sufoco. Um dia vc pode precisar delas.

Esquece o voo de ala. Quando vc estiver voando dentro de nuvens e sua mente estiver dizendo pra vc que tudo está bem, dá uma olhada no horizonte artificial. Quando sua mente disser que vc está voando de forma estranha, tbm olha pro horizonte artificial.

Acredite no seu horizonte artificial.

Passei por outras situações “estranhas” na aviação civil. Um dia eu conto.

Abraço

Flemming

Coletivo prá cima. Cíclico á frente!

Piloto de Helicóptero Ruy Flemming, Coronel Aviador da Reserva da Força Aérea Brasileira.

Formou-se na Academia da Força Aérea Brasileira - AFA
Piloto do 1º Esquadrão de Instrução Aérea da AFA - 1º EIA, das Aeronaves T-25 e T-27 Tucano, formando centenas de Pilotos Militares na Academia
Piloto de Helicóptero Bell UH-1H do 2º/10º Gav - Busca e Salvamento - SAR -
Piloto da Esquadrilha da Fumaça entre os anos de 1992 e 1995 como #3 Ala Esquerda e #7 Isolado
Piloto de Helicótpero Agusta 109
Ex-Diretor da ABRAPHE - Associação de Brasileira de Pilotos de Helicópteros -

Autorizou transcrever seus artigos, causos, dicas e curiosidades aeronáutica de asa fixa ou rotativa. Para acompanhar o Aviador Ruy Flemming nas redes sociais, acesse o link a seguir RUY FLEMMING NO AR


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