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Traslado em 1973 dos Aviões Piper Cherokee e Arrow dos EUA para o Aeroclube de São Paulo / Aviador José Morelli

Cuidado com o Avião ao Lado.

Em 1973, o Aeroclube de São Paulo ACSP adquiriu da Piper americana dezoito aeronaves Cherokee. A essas dezoito se somaram mais duas adquiridas pelo Aeroclube de Bragança Paulista ACBP do estado de São Paulo.

Formou-se então uma bela esquadrilha de vinte aeronaves novas, reluzentes, zero km; quatorze Cherokees 140 e seis Arrows 200.

Na bela manhã de 11 de outubro de 1973 quinta feira, estavam no pátio geral de aviação do aeroporto de Fort Lauderdale na Florida essas vinte aeronaves preparadas para decolagem. Que visual Todas com seus “beacons” vermelhos piscando, aguardando para iniciar o taxi para a cabeceira da pista.

Decolei com o PT ITA e na sequencia todos decolaram para a primeira navegação da viagem que seria:

Decolar de Ft. Lauderdale, tomar o rumo magnético de 116, bloquear o NDB de Bimini, uma base aérea americana. Após o bloqueio tomar o rumo mg. 114 até sobrevoar a ilha de Nassau e em seguida,  umo 138 para aproar Georgetown, uma das ilhas da Great Exuma. Pousar no aeroporto de Georgetown para reabastecimento.

Nessa primeira etapa, quinhentos e quarenta  kilometros deveriam ser vencidos. Para os “140”, um voo de três horas e quinze minutos. Para os Arrows, duas horas e quinze minutos.

As  condições  meteorologias estavam razoáveis; nuvens esparsas, visibilidade maior que cinco mil metros, e permitia voar num nível de nove mil e quinhentos pés (2.900 metros).

A viagem seguia normalmente. Pousamos em Georgetown.

Como eu vinha liderando a esquadrilha, era sempre o primeiro a pousar. Aí, com uma lista do prefixo das aeronaves e pilotos, ia assinalando os que estavam pousando. Os  Arrows, devido sua maior velocidade de cruzeiro, pousavam antes. Após a verificação dos Arrows, eu tinha tempo de ir à torre de controle para ajudar, se necessário, o pouso dos “140”. Foi realmente uma emoção.

Dezenove aeronaves pousadas. Faltava uma; Justamente um Arrow, o PT ISW pilotado pelo Dr. Piero Manginelli, que deveria ter pousado com o grupo dos seis Arrows.

Não havia, nesse aeródromo, uma torre de controle para nos ajudar num possível contato com o PT ISW.  

Para uma transmissão mais eficiente, decolei novamente e subi até dez mil pés e comecei chamar o PT ISW. Vários minutos chamando e nada de resposta.

Sem sucesso na comunicação com o ISW, resolvemos seguir  para a próxima etapa da viagem, pois  sabíamos que em South Caicos havia uma torre de controle a qual poderia nos trazer informações sobre o paradeiro do PT ISW.

Decolamos para essa etapa.

Pousamos em South Caicos. Outra surpresa!!! Além do sumido ISW, mais três Arrows não pousaram. Coisa estranha, pois me acompanharam até a área de aproximação do aeroporto.

Logo ao livrar a pista, qual não foi meu espanto ao ver que só mais um Arrow havia pousado atrás.       

Cadê os outros!!??

Eram eles: PT ISU pilotado pelo Rilejo, o PT ISZ pilotado pelo Salerno e o PT ISV  pilotado pelo Declerc.

Estacionei e fui para a torre de controle para ajudar o controle no pouso da esquadrilha e tentar descobrir o que havia acontecido com esses novos sumidos.

O controlador era o Eben; super atencioso e super eficiente.

Os “140” começaram a chegar. Pousaram todos. Só faltavam mesmo os quatro Arrows.

O controlador chamava as aeronaves faltantes e...  nada  de resposta.

Muito apreensivos, fomos para o hotel que era bem próximo do aeroporto. Juntei-me ao grupo e informei que não havia conseguido contato. Estávamos todos preocupados e tensos.

No “front desk” do hotel, eu trocando ideias com os pilotos e tomando um drink para relaxar. De repente vejo o Eben, controlador da torre, que entrou apressadamente, me encontrou  e disse:

Mr Morelli, I found  yours  friends”. Estava emocionado e informou:

O primeiro deles; o PT ISW com o Dr. Piero teve uma pane de motor e estava pousado numa ilha da cadeia de ilhas denominada Exumas. Era ilha Normans Cay. Pouso normal. Piloto e avião OK. Que alívio.

Localizei no mapa. Essa ilha fica entre Nassau e a Great Exuma; a do aeroporto que havíamos pousado para reabastecer. 

Os outros três estavam pousados, sem problemas, na ilha de Stela Maris. Já haviam informado que viriam para South Caicos, onde estávamos, logo pela manhã no dia seguinte.

No dia seguinte, pela manhã, chegaram os desgarrados e explicaram o que aconteceu. Estavam bem e já integrados à esquadrilha novamente. Esse fato será descrito num outro capítulo da historia do Translado.

Agora era se concentrar no único faltante que estava em Normans Cay.

Pernoitamos em South Caicos. No dia seguinte, dei dia livre para a esquadrilha e resolvi voar até Normans Cay para verificar a situação com o PT ISW.  

O Declerc se ofereceu para me acompanhar. Decolamos quase na hora do almoço com destino ao aeroporto de Georgetown, que foi onde havíamos passado no dia anterior para reabastecimento. A ideia era encher os tanques para, depois de achar o PT-ISW, dividir a gasolina com ele e voltar para esse mesmo aeroporto.

Decolamos com a proa da cadeia das ilhas Exumas para localizar Normans Cay .

Achamos as primeiras da cadeia. Fomos sobrevoando as ilhas até que numa delas avistamos uma bela pista de pouso asfaltada e bem cuidada. No pátio lá estava nosso PT ISW, isolado, ou seja, o único estacionado. Foi fácil reconhecer.  Fizemos a aproximação e o PT ITA pousou tranquilamente.

Encontramos o Dr. Piero que começou nos contar o acontecido com ele e o PT ISW.

Durante o voo da esquadrilha em sua primeira etapa, de Fort Lauderdale para Georgetown,o  PT ISW  vinha voando normalmente na formação dos Arrows quando, após uns 30 minutos de voo, depois do sobrevoo em Nassau, o motor começou falhar. O Dr. Piero, como não podia deixar de ser, ficou preocupado, alerta e manteve a calma necessária. Resolveu voltar e tentar alcançar Nassau, que havia ficado meia hora para trás. A atenção estava totalmente voltada para localizar um local seguro para pousar. Não teve tempo nem de transmitir uma mensagem  para a esquadrilha sobre o que estava acontecendo.

Na tentativa de alcançar Nassau com o motor mal conseguindo um voo horizontal ou perdendo levemente a altura acabou avistando a Ilha de Normans Cay. Sobrevou a ilha e viu que tinha uma pista de pouso. Não hesitou... fez  a aproximação e pousou.

Depois nos disse que essa ilha, de possessão americana, estava sendo preparada para turismo. Porém havia também uns comentários que havia ou houve atividades suspeitas. Mas, o que parecia mesmo é que era própria para turismo com aeroporto, porto para iates, hotel  etc.

Não havia ou não estava acessível o sistema de telefone. 

O planejado durante a preparação do translado era que, num eventual caso desse, o piloto deveria achar um jeito de se comunicar e informar o Centro de Controle de Miami.

E o Dr. Piero conseguiu isso de maneira inédita. Ele viu que estava passando, lá no alto, um avião comercial; um Boeing ou coisa parecida. Entrou no PT ISW ligou o rádio e conseguiu contato com essa aeronave.

Deu informação de sua localização, e pediu ao comandante para informar ao Centro de Controle de Miami que precisava informar a Piper da necessidade de ajuda. Teve sucesso. A Piper enviou para o local uma aeronave equipada para assistência técnica. Em pouco tempo, chegou a ajuda. O problema estava no sistema de ignição: magnetos, cabos de velas e velas.     Fizeram o reparo e o PT ISW já estava pronto para continuar sua viagem.

Nesse ponto chegamos nós. Já podíamos pensar em voltar para South Caicos, porém só no dia seguinte. Não havia mais tempo nesse dia para chegarmos no destino antes do por do sol.

Pernoitamos, nós três, eu, o Declerc e o Dr. Piero num hotel muito confortável.

No dia seguinte dividimos o combustível nos tanques e partimos para, novamente, o aeroporto de Georgetown para novo reabastecimento e seguir para South Caicos, para nos juntar a esquadrilha e seguir viagem.

Antes de decolar, eu sugeri ao Declerc fazer companhia para o Dr. Piero. Achava que, depois do acontecido, a companhia do Declerc, um piloto a mais, seria um apoio psicológico para o Dr. Piero e tornaria o voo mais seguro.

Reabastecemos em  Georgetown, pela terceira vez em dois dias. Decolamos eu com o PT ITA e o Dr. Piero e Declerc  com o PT ISW com destino a South Caicos onde a esquadrilha nos esperava.

O dia estava lindo. Cavok. Nivelamos a nove mil  e quinhentos pés. O  voo seguia numa normalidade absoluta.

O PT ISX voando ao meu lado direito a uns trinta ou quarenta metros.

Ainda bem que eu estava bem atento.

De repente o ISW veio de encontro a mim. Parecia que ia bater. Aliás, iria mesmo. Dei uma forte puxada no manche, o que provocou um pulo para cima.

O ISX passou, nessa rota cruzada, muito perto. Talvez uns dez metros ou menos. 

Foi o suficiente para eu ver os dois pilotos abaixados, inclinados em direção ao painel de instrumentos.

Caramba! Quase um “crash in mid air”. 

Fiquei muito curioso! O que teria acontecido? Logo em seguida o ISW voltou ao rumo normal, só que agora a uns cem metros do meu lado esquerdo. Chamei o Dr. Piero e perguntei se estava tudo OK. A resposta foi: Tudo OK.

Deixei para depois discutir sobre o acontecido nesse incidente.

O dia continuava lindo. O céu azul e o sol brilhando intensamente. Resolvi  tirar uma foto do ISW .

Naquela posição, o sol não estava favorável para a foto. Nesse instante, o ISW estava do meu lado esquerdo.

Resolvi mudar de lado. Dei um mergulho cruzei bem abaixo do ISW e me mantive no lado esquerdo dele. Posição essa inicial. Tirei as fotos.

E assim fomos até o pouso tranquilo em South Caicos. A esquadrilha nos esperando. Agora ficou completa de novo.

Eu, o Dr. Piero e o Declerc nos reunimos para, agora com calma, esclarecer o acontecido durante o voo.

O que eles me disseram me desconsertou totalmente...

Até agora , Morelli,   não sabemos que maluquice tinha dado em você.   Primeiro  nos cruzar bem perto por cima da esquerda para a direita. Depois cruzar por baixo da direita para a esquerda ”.

Essa afirmação me deixou atônito. Vi que eles não tinham a mínima ideia do que havia acontecido.

Disse a eles que a distância que passamos um sobre o outro foi tão pequena que vi os dois abaixados e inclinados para o painel de instrumentos.

Perguntei o que estavam fazendo?

Como o voo  estava transcorrendo  calmamente, resolveram por em prática o sistema de piloto automático  ( famoso PA )    que haviam estudado pelo manual do avião.

Ambos fazendo o set up do PA. Só se esqueceram de ajustar para voo reto. O PA estava ajustado para curva à esquerda.  Quando deram o “ engage “, o avião imediatamente engrenou uma curva para a esquerda. Como estavam ambos olhando para o painel abaixo no controle do PA, nem viram que iriam bater no ITA.

Só perceberam, logo em seguida, que estavam num rumo errado. Corrigiram o rumo e voltaram para meu lado.

Ufa!!! Ainda bem que eu estava atento.

Após isso resolvemos descontrair e ir para a janta.

Durante o Translado, o ambiente era de muita amizade, descontração, lealdade e gozação entre os pilotos.

Os Arrows eram  aeronaves para treinamento avançado. Eram de classe executiva. Com trem de pouso retrátil, passo variável e um painel equipado para voo por instrumento. Os Cherokees  140, mais simples, trem de pouso fixo e passo de hélice fixo e painel simplificado para voo visual.

Formou-se uma espécie de disputa de gozação entre os dois grupos; os pilotos dos Arrows, como se fossem de nível superior e os pilotos dos 140 como se fossem pilotos inferiores. Porém era só  gozação alegre e sadia. Todos sabiam que ninguém era melhor do que ninguém. 

Mas, aquela noite, no jantar, os seis pilotos dos Arrows estavam sentados numa mesma mesa.

Foi a oportunidade... Um dos pilotos dos 140, o Berbel, se levantou e chamou a atenção do pessoal, levantou a taça e disparou um brinde de comemoração pela  “primeira vez que os pilotos dos Arrows estavam jantando juntos”.

Foi a risada total  dos pilotos dos 140 e a cara de bunda dos pilotos dos Arrows, mas que também caíram no riso.

Realmente, até aqui, só os Arrows haviam aprontado problemas. Os 140 estavam invictos.

Após o jantar, convoquei todo o pessoal para uma reunião a fim de analisar alguns detalhes de nossa viagem e o que poderia ser corrigido ou melhorado.

Todos os vinte e dois anjinhos foram dormir, para no dia seguinte uma nova etapa; South Caicos para Saint Croix.

Novas emoções estavam por vir.

Voce pode ler outras partes dessa saga nos seguintes links a seguir:

Vieram voando os 20 aviões Piper Cherokee e Arrow dos EUA para o ACSP.

Piper Cherokee PT-ISX perdido em alto mar. Parte 1

Piper Cherokee PT-ISX perdido em alto mar. Parte 2

Créditos: Todas as fotos são do arquivo pessoal do Cmte José Augusto Morelli.

Os fatos aqui narrados foram retirados de material pessoal, de palestra e de conversa informal com o Cmte Morelli.

Quem quiser contratar uma palestra com o Cmte Morelli sobre esse projeto, pode contata-lo atráves desse e mail: morelli@indmor.com.br

Para ler outros causos, curiosidade e dicas de aviação, siga a COLUNA DE JPASSARELLI no site AEROJOTA.


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