Por que os aeroclubes passaram a ser vistos como problema dentro dos aeroportos

Jota

7 de janeiro de 2026

O conflito silencioso entre aeroclubes e aeroportos no Brasil_Imagem ilustrativa

Durante décadas, aeroclubes integraram o ambiente aeroportuário brasileiro de forma natural. Eles formavam pilotos, movimentavam pistas e mantinham viva a aviação em regiões onde o Estado não operava diretamente. Ainda assim, nos últimos anos, muita gente passou a questionar essa presença. Em muitos casos, gestores deixaram de ver essas entidades como parte do sistema e começaram a tratá-las como um problema a resolver.

O conflito silencioso entre aeroclubes e aeroportos no Brasil_Imagem ilustrativa
O conflito silencioso entre aeroclubes e aeroportos no Brasil_Imagem ilustrativa

Essa mudança não nasceu de um único ato. Ao contrário, ela resulta de transformações institucionais, regulatórias e econômicas que alteraram a gestão e a exploração dos aeroportos. Por isso, o debate ganhou força e se espalhou pelo setor.

No passado, o setor não tratava aeroclubes como “ocupantes” de áreas aeroportuárias. Em vez disso, o próprio sistema de aviação civil colocava essas entidades no centro da formação aeronáutica, como execução indireta de uma função pública. Assim, a presença do aeroclube combinava com o interesse estatal e com a lógica operacional do aeroporto.

Com o tempo, porém, essa leitura perdeu espaço. À medida que normas estruturantes deixaram de sustentar o modelo e o reconhecimento institucional enfraqueceu, decisões administrativas passaram a avaliar a permanência dos aeroclubes por critérios patrimoniais e econômicos. Desse modo, a análise mudou de natureza.

Nesse novo enquadramento, muitos atores passaram a ver áreas antes associadas à formação como espaços disponíveis para exploração comercial. Como consequência, o conflito ganhou outra escala.

A ampliação do modelo de concessões mudou a gestão aeroportuária, na prática. Além de operar pistas e pátios, concessionárias e administradores passaram a analisar o aeroporto como ativo econômico. Assim, terminais, hangares e terrenos entraram no radar como parte do valor do empreendimento.

Nesse contexto, atividades com baixa geração de receita direta passaram a sofrer pressão. Aeroclubes, que operam sem fins lucrativos e dependem de equilíbrio econômico delicado, não se encaixam facilmente nesse modelo. Portanto, muitas concessionárias passaram a questionar a permanência dessas entidades sob a ótica de rentabilidade.

O conflito não nasce da ilegalidade da atividade. Em vez disso, ele surge do choque entre duas racionalidades: uma institucional e formativa, outra patrimonial e comercial.

Aeroclubes não operam como empresas voltadas ao lucro. Eles mantêm estrutura associativa, oferecem formação com foco em acesso e atuam dentro de um arranjo historicamente ligado à política pública. No entanto, o ambiente regulatório atual tende a tratar usuários de áreas aeroportuárias de forma homogênea.

Esse enquadramento uniforme ignora diferenças relevantes. Quando o sistema aplica a mesma lógica contratual e econômica a realidades distintas, ele pressiona entidades que não foram concebidas para operar por parâmetros estritamente mercantis. Assim, a sustentação financeira e institucional se torna mais difícil.

Como resultado, muitos aeroclubes passaram a enfrentar barreiras adicionais para justificar sua permanência em aeroportos administrados por outra lógica.

Por que o conflito se intensificou nos últimos anos

O tensionamento aumentou quando mudanças normativas e administrativas reduziram a base que sustentava o modelo público indireto. Além disso, decisões e revisões no ambiente regulatório enfraqueceram referências que antes davam previsibilidade ao setor. Assim, disputas que antes eram tratadas como tema de política pública passaram a entrar no campo patrimonial e contratual.

Ao mesmo tempo, a redução do fomento ampliou a fragilidade econômica das entidades formadoras. Consequentemente, aeroclubes passaram a lidar com custos mais altos e com menos margem para absorver pressões administrativas. Desse modo, o ambiente ficou mais propenso a conflitos.

O centro do debate está na mudança de percepção. Antes, o setor entendia a presença do aeroclube como parte do desenho institucional da formação. Agora, em alguns contextos, decisões passaram a enxergar essa presença como entrave à exploração econômica do aeroporto. Portanto, o tratamento institucional mudou junto com a prioridade administrativa.

Ao colocar a formação fora do foco, o sistema corre o risco de enfraquecer a própria base de entrada de novos profissionais. Em muitas regiões, aeroclubes ainda representam a principal porta de entrada para a aviação civil. Além disso, eles sustentam capilaridade e continuidade formativa onde o mercado não chega com a mesma força.

Embora o debate se concentre, muitas vezes, na ocupação de áreas, o conflito vai além do espaço físico. Ele envolve a escolha entre preservar um modelo que garantiu capilaridade e acesso ou priorizar critérios econômicos de curto prazo. Assim, a discussão ganha dimensão institucional.

Esse tema também ultrapassa um ou outro aeroclube. Na prática, ele reflete mudanças na forma como o setor enxerga a aviação civil e seus instrumentos de formação. Por isso, a discussão reaparece com frequência e tende a crescer.

Ao longo desta série, o AeroJota mostrou como o modelo público indireto surgiu, como ele sustentou a formação e como ele perdeu bases ao longo do tempo. Portanto, o questionamento atual sobre a presença dos aeroclubes nos aeroportos não surge do nada. Ele aparece como consequência desse processo.

Entender por que aeroclubes passaram a ser vistos como problema ajuda a qualificar o debate. Mais do que uma disputa por espaço, o tema coloca em jogo uma escolha institucional sobre o futuro da formação aeronáutica civil no Brasil.

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