Aeroclubes não concorrem com escolas de aviação e não têm vantagem econômica

Jota

12 de janeiro de 2026

Aeroclubes não concorrem com escolas de aviação_Imagem ilustrativa

Depois da confusão regulatória entre Aeroclubes e CIAC, Centro de Instrução Aérea Civil, outro argumento ganhou força no debate aeronáutico. Segundo essa leitura, os Aeroclubes estariam em “vantagem econômica” e praticariam concorrência desleal em relação às escolas privadas de aviação.

Aeroclubes não concorrem com escolas de aviação_Imagem ilustrativa
Aeroclubes não concorrem com escolas de aviação_Imagem ilustrativa

Embora essa afirmação pareça intuitiva à primeira vista, ela não resiste a uma análise mais cuidadosa. Além disso, o problema volta a nascer da mesma raiz: tratar entidades com naturezas diferentes como se fossem iguais.

Aeroclubes não são empresas e não operam com objetivo de lucro. Em geral, eles existem como associações civis sem fins lucrativos. Por isso, eles não distribuem resultados financeiros a dirigentes, associados ou terceiros.

Quando há superávit operacional, o Aeroclube precisa reinvestir esse valor na própria atividade. Assim, entram manutenção de aeronaves, melhoria de infraestrutura e formação de pilotos. Portanto, não existe retorno ao capital nem estratégia de maximização de ganhos.

Além disso, concorrência, no sentido econômico, pressupõe disputa entre agentes que buscam lucro, expansão e participação de mercado. Como consequência, esse pressuposto não se aplica aos aeroclubes.

Outro ponto costuma passar despercebido. Para existir concorrência desleal, normalmente surge um incentivo econômico. Dumping, subsídio cruzado e captura de mercado fazem sentido quando alguém espera retorno financeiro no futuro.

No entanto, Aeroclubes não distribuem dividendos e não operam em escala empresarial. Além disso, eles não têm mecanismos para transformar uma eventual vantagem operacional em ganho econômico direto. Em geral, sua atuação é local e ligada ao aeródromo onde se consolidaram historicamente. Não existe Aeroclube com filial em outros aeroportos.

Por isso, sem lucro, sem expansão e sem retorno financeiro, não há estrutura econômica capaz de sustentar concorrência predatória.

Quando alguém aponta uma suposta “vantagem econômica” do Aeroclube, muitas vezes está observando o efeito de políticas públicas históricas. Em outras palavras, há confusão entre fomento e privilégio.

Apoios institucionais, condições diferenciadas de uso de áreas e enquadramentos específicos não são, por si, vantagens concorrenciais. Em vez disso, eles refletem o reconhecimento do Aeroclube como ente colaborador do Estado. Além disso, essa lógica se conecta à formação aeronáutica, ao esporte e à cultura.

Esse tipo de fomento, aliás, é comum em diversos setores. Por exemplo, universidades comunitárias, entidades esportivas de base, organizações culturais e Santas Casas funcionam com finalidades coletivas. Ainda assim, o debate público não trata essas entidades como distorções automáticas de mercado.

Aeroclubes não capturam mercado como empresas

Também é importante observar a operação real dos Aeroclubes. A ideia de que eles capturam mercado ou deslocam escolas privadas não se sustenta em termos práticos.

Primeiro, o Aeroclube não escolhe livremente onde atuar. Além disso, ele não abre filiais e não expande oferta com estratégia comercial. Da mesma forma, ele não ajusta preços para dominar mercado, porque seu modelo não se baseia em retorno ao capital.

Em geral, a oferta de instrução fica condicionada à capacidade local. Entram nessa conta a frota disponível, a estrutura, a disponibilidade de instrutores e as regras associativas. Portanto, trata-se de um modelo diferente do empresarial.

A crítica sobre “vantagem econômica” costuma nascer de uma inversão conceitual. Em vez de reconhecer que se trata de entidade do Terceiro Setor, tenta-se enquadrá-la como agente econômico comum.

No entanto, o Estado pode, de forma legítima, fomentar entidades sem fins lucrativos quando elas exercem atividades de interesse coletivo. Assim, isso não configura interferência indevida na ordem econômica. Pelo contrário, trata-se de política pública possível e recorrente.

Por isso, confundir fomento com concorrência é um erro clássico. Além disso, quando essa confusão se espalha, ela distorce o debate e gera acusações improdutivas.

Paradoxalmente, o desequilíbrio não nasce da existência do Aeroclube. Ele aparece quando se tenta impor a essas entidades regras pensadas para empresas privadas, sem considerar sua função histórica e jurídica.

Quando alguém submete Aeroclubes à lógica estrita do mercado, perde-se um equilíbrio importante. Além disso, transfere-se para a iniciativa privada uma atividade que o legislador nunca quis deixar exclusivamente sob lógica comercial.

Ou seja, o problema não é o Aeroclube existir. O problema é tratá-lo como algo que ele nunca foi.

No Texto 4, o site AeroJota vai detalhar por que tratar aeroclubes como empresas privadas contraria a base legal da aviação civil brasileira. Além disso, o texto vai mostrar como leis, decretos e o Código Brasileiro de Aeronáutica sustentam a categoria “Aeroclube”.

Leia também no AeroJota

Para acompanhar a série desde o começo, vale ler os dois textos anteriores. Assim, você entende a origem do debate e também o caminho que levou à interpretação equivocada.

Aeroclubes não são CIAC: o erro que se espalhou na aviação civil brasileira
Como a confusão regulatória levou à interpretação errada sobre aeroclubes e CIAC

Essas duas leituras ajudam a conectar os pontos e deixam o contexto pronto para o fechamento jurídico no Texto 4.

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