Sistema já transporta passageiros e opera com dois veículos automatizados, mas certificação e cumprimento integral do projeto ainda estão sob acompanhamento da ANAC e do TCU
O Aeromóvel de Guarulhos entra em setembro diante de um prazo importante para o projeto. Enquanto passageiros já utilizam o sistema para chegar aos terminais do Aeroporto Internacional de São Paulo, uma etapa decisiva ainda está em andamento.
O cenário é bem diferente daquele registrado durante os sucessivos atrasos do sistema. Dois veículos já circulam de forma automática e milhares de pessoas fizeram o trajeto entre a estação ferroviária e os terminais.
Mesmo assim, a história ainda não terminou.
O dia 30 de setembro de 2026 permanece como referência para a implantação completa, certificação e atendimento das especificações previstas para o sistema.
E, faltando poucas semanas, documentos analisados pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) ainda apontavam questões técnicas a serem superadas.

Passageiros já utilizam o Aeromóvel
O avanço mais visível aconteceu nos últimos meses.
Em fevereiro, o AeroJota mostrou quando o Aeromóvel começou a transportar passageiros, ainda em operação limitada.
Segundo a Aerom, desde 3 de agosto dois veículos passaram a operar de maneira automática e sincronizada. Com isso, eles conseguem inclusive realizar simultaneamente o cruzamento no trecho de desvio, conhecido como bypass.
A empresa informou ainda que o sistema já havia transportado mais de 379 mil passageiros e alcançado capacidade superior a 1.300 passageiros por hora, por sentido.
Na prática, portanto, o Aeromóvel deixou há algum tempo de ser apenas uma obra em testes.
Mas existe diferença entre transportar passageiros e concluir todas as etapas previstas para o projeto.
ANAC ainda apontava riscos no cronograma
Em agosto, informações de uma nota técnica da ANAC obtidas pelo MetrôCPTM mostraram que a Agência ainda tinha dúvidas sobre a possibilidade de todas as etapas serem concluídas dentro do cronograma.
Durante acompanhamentos realizados em julho, foram registradas paralisações durante testes e ajustes feitos enquanto o sistema estava em funcionamento.
Também apareceram questões relacionadas aos painéis de informação aos passageiros, sonorização e abertura das portas.
Outro ponto observado naquele momento era que a ANAC ainda não havia acompanhado a operação de um dos três veículos previstos para o sistema.
Isso não significa que o Aeromóvel tenha deixado de avançar. Mostra, porém, que a operação vista atualmente pelos passageiros não representa necessariamente a conclusão de todas as exigências técnicas e contratuais.
Operação prolongada também virou teste
Uma das estratégias adotadas para ampliar a avaliação do sistema foi aumentar o período de funcionamento durante os fins de semana.
Segundo informações divulgadas em agosto, passaram a ser realizadas jornadas de até 20 horas de operação, justamente para verificar o comportamento do sistema em condições mais próximas da utilização contínua esperada no futuro.
Essas jornadas prolongadas, entretanto, eram realizadas sem passageiros.
No atendimento regular ao público, o horário divulgado pela Aerom permanecia entre 16h e meia-noite.
A própria empresa informou que o projeto caminhava para a etapa final do processo de certificação SIL4, nível de segurança utilizado em sistemas automatizados de transporte.
TCU acompanha o que será entregue
O dia 30 de setembro ganhou importância também por causa do acompanhamento realizado pelo Tribunal de Contas da União.
Em maio, o TCU analisou a implantação do sistema e registrou problemas encontrados durante o desenvolvimento do projeto.
Entre eles estavam falhas de comunicação entre os veículos e o centro de controle, entradas do sistema em condição de segurança (fail-safe) e questões envolvendo bombas de drenagem em situações de chuva intensa.
Inicialmente, o Tribunal havia estabelecido uma consequência mais dura caso o projeto não estivesse completamente implantado e certificado até 30 de setembro.
Posteriormente, após recurso apresentado pelo Consórcio AeroGRU, o TCU modificou essa determinação.
No Acórdão 1.499/2026, o Tribunal retirou a previsão de exclusão automática do investimento caso o prazo não fosse cumprido.
Isso, porém, não tornou 30 de setembro irrelevante.
O TCU determinou que, depois desse marco, a área técnica volte a analisar a situação para subsidiar uma nova avaliação do Tribunal.

Funcionar não encerra a discussão
Esse talvez seja o ponto mais importante para entender o momento atual do Aeromóvel.
Para o passageiro que desembarca na estação Aeroporto-Guarulhos da Linha 13-Jade e consegue seguir até os terminais utilizando o sistema, é natural considerar que o projeto já esteja entregue.
Tecnicamente, porém, ainda existem outras etapas.
Capacidade de transporte, disponibilidade dos veículos, funcionamento prolongado, sistemas de segurança, automação e certificação fazem parte da avaliação.
O projeto completo prevê capacidade de pelo menos 2 mil passageiros por hora, por sentido, enquanto a Aerom informou em agosto capacidade já superior a 1.300 passageiros por hora, por sentido.
Portanto, mais do que saber se o Aeromóvel está funcionando, a questão agora é saber quanto do projeto contratado estará efetivamente implantado e certificado quando setembro terminar.
Prazo do Aeromóvel de Guarulhos chega a 30 de setembro
O Aeromóvel de Guarulhos percorreu um caminho longo até chegar à atual operação com passageiros.
Hoje, o cenário é diferente daquele dos anos marcados principalmente por obras e adiamentos. O sistema funciona, transporta usuários e avançou na automação.
Mas ainda há uma data importante pela frente.
Quando chegar 30 de setembro, será possível comparar aquilo que estava previsto com o que efetivamente foi entregue, verificar a situação da certificação e conhecer a avaliação da ANAC.
Depois disso, o próprio TCU deverá voltar ao assunto.
Até lá, o Aeromóvel continuará transportando passageiros enquanto corre, paralelamente, uma etapa que pouca gente vê ao embarcar: a conclusão técnica e regulatória de um projeto criado para finalmente integrar a ferrovia aos terminais do maior aeroporto do Brasil.






