Brasil, o país que atrapalha quem produz e depois finge surpresa

Jota

2 de abril de 2026

Aeroclubes-sao-despejados-por-prefeituras-e-concessionarias_Imagem-ilustrativa

O Brasil parece ter um talento especial para destruir o que funciona. Em vez de facilitar a vida de quem produz, investe, transporta, ensina e trabalha, o país cria obstáculos, burocracias e interferências políticas que sufocam setores inteiros. Na aviação, esse cenário aparece de forma escancarada.

Na prática, a sensação é simples: no Brasil, quem produz costuma ser tratado como suspeito. Enquanto isso, quem empreende vira alvo fácil. Além disso, quem tenta operar dentro da regra precisa enfrentar prefeitos, governos, concessionárias, agências, impostos e decisões políticas tomadas por gente que, muitas vezes, não entende absolutamente nada da atividade que resolveu atrapalhar.

Prefeito proíbe aviação agrícola de voar na cidade_Imagem Ilustrativa
Prefeito proíbe aviação agrícola de voar na cidade_Imagem Ilustrativa

A aviação agrícola é um dos exemplos mais claros dessa distorção. Em vez de separar operação irregular de atividade técnica séria, parte do poder público prefere demonizar tudo. Assim, não faltam políticos e funcionários públicos que ainda enxergam o agro como vilão ideológico, como se combater produtor rural rendesse algum avanço real para o país.

No entanto, esse discurso pode até gerar aplauso em bolha política, mas não melhora produtividade, não reduz custo e não ajuda a colocar alimento de qualidade na mesa. Pelo contrário, ele cria insegurança jurídica, atrasa decisões e enfraquece um setor essencial para a produção.

Casos como o de Elias Fausto (SP) mostram bem esse problema. Em vez de discutir critério técnico, segurança operacional e fiscalização séria, surgem iniciativas para tentar proibir ou bloquear uma atividade legítima dentro de área particular. Dessa forma, o debate deixa de ser técnico e vira palanque. Quando a ideologia entra na pista, a lógica vai embora.

Em outros estados e municípios, o mesmo padrão se repete. Maranhão e Ceará também entram nesse ambiente de restrição, disputa política e visão torta sobre a atividade agrícola. Como resultado, aparece um cenário previsível: menos segurança para quem investe, menos confiança para quem produz e mais atraso para o Brasil.

A irracionalidade, porém, não para no agro. Ela também atinge Aeroclubes, escolas de formação e atividades históricas da aviação brasileira.

Em Marília (SP), por exemplo, uma concessionária cria dificuldades para voo de instrução em planadores, mesmo com a presença histórica do aeroclube muito antes da atual gestão privada. Nesse caso, aparece o retrato perfeito do Brasil moderno: chega alguém depois, se apropria do discurso de eficiência e passa a tratar como estorvo quem ajudou a construir a vocação aeronáutica do lugar.

Já Guaratinguetá (SP), oferece outro exemplo doloroso. O aeroclube perdeu espaço em nome de uma promessa bonita, vendida como avanço, turismo e desenvolvimento. Falaram em Voo da Fé, fizeram barulho e posaram para fotografia oficial. No fim, o aeroclube acabou destruído e a promessa evaporou. Sobrou o quê? Nem o Aeroclube, nem a operação milagrosa vendida como solução.

Esse talvez seja um dos maiores vícios nacionais. O Brasil desmonta estruturas reais para substituí-las por propaganda. Além disso, tira quem operava de verdade para abrir espaço a projeto político, marketing institucional e promessa vazia. Depois, quando o resultado fracassa, ninguém assume a culpa.

Na aviação comercial, a lógica é parecida. O discurso oficial fala em proteger passageiro, democratizar o acesso e ampliar conectividade. Entretanto, na prática, o setor vive sufocado por custo alto, interferência estatal e carga tributária pesada.

Prometeram passagem aérea barata. Também falaram em voo acessível. Depois, venderam projeto popular. A realidade, contudo, continua dura para o passageiro e cruel para as companhias. Não existe passagem barata em país que tributa demais, regula demais, encarece combustível e trata empresa aérea como se o governo tivesse direito natural a uma fatia de tudo.

O querosene de aviação continua caro. Ao mesmo tempo, os impostos seguem pesando. Para piorar, o ambiente regulatório permanece hostil. Depois disso, o mesmo Estado que ajuda a encarecer a operação aparece com discurso bonito dizendo que quer ajudar o passageiro. É quase uma piada pronta.

Por isso, não surpreende que tantas empresas estrangeiras olhem para o Brasil com cautela. O mercado tem demanda, tem população, tem território e tem potencial. Ainda assim, também tem insegurança, custo elevado e um Estado que age como sócio dos lucros sem dividir os prejuízos.

No fundo, o problema é maior do que a aviação. O que existe é uma cultura nacional de atrapalhar quem funciona. O Brasil desconfia de quem produz, castiga quem opera, sufoca quem empreende, proibe quem ensia e, depois, tenta explicar o fracasso como se fosse obra do destino.

Não é destino. É escolha.

Trata-se de uma opção de governantes que preferem ideologia à técnica. Em muitos casos, prefeitos confundem poder local com licença para interferir no que não dominam. Ao mesmo tempo, burocratas atrapalham setores inteiros e ainda se sentem moralmente superiores por isso. No fim, prevalece um sistema que fala em desenvolvimento enquanto empurra para trás exatamente quem poderia fazê-lo acontecer.

O Brasil tem tudo para dar certo. Tem agro forte, mercado consumidor, território gigantesco e tradição aeronáutica. O que falta, muitas vezes, não é recurso. Antes de tudo, falta juízo. Porque um país que atrapalha quem produz, quem voa e quem ensina a voar não está apenas errando. Está escolhendo o atraso.