Câncer ligado à radiação em pilotos e comissários: o estudo prova a relação?
O câncer ligado à radiação em pilotos e comissários voltou ao centro das atenções após um novo estudo analisar a mortalidade entre profissionais da aviação. A pesquisa encontrou resultados que chamam atenção, mas que precisam ser interpretados com cuidado antes de relacionar diretamente a atividade aérea ao desenvolvimento da doença.
Quem passa boa parte da vida profissional a mais de 10 mil metros de altitude está exposto a condições que não existem com a mesma intensidade no solo. Uma delas é invisível e acompanha pilotos e comissários durante praticamente toda a carreira: a radiação cósmica.
Agora, um novo estudo publicado no JAMA Internal Medicine (Journal of the American Medical Association) – revista científica médica internacional, colocou novamente essa exposição no centro das atenções. Ao analisar dados de milhões de mortes nos Estados Unidos, pesquisadores encontraram pilotos e comissários entre as ocupações com maior proporção de mortes por tipos de câncer associados à radiação.
O resultado chama atenção. Mas ele precisa ser entendido com cuidado.

O que os pesquisadores encontraram
O estudo foi realizado por Vishal Patel, Michael Liu e Anupam Jena, pesquisadores ligados à Harvard Medical School e outras instituições americanas.
Foram analisados mais de 12 milhões de registros de óbitos ocorridos nos Estados Unidos entre 1997 e 2020, abrangendo mais de 500 ocupações.
Os pesquisadores separaram os cânceres em dois grupos: aqueles previamente relacionados à exposição à radiação ionizante e aqueles sem essa associação estabelecida.
Entre os comissários de voo, 6,9% das mortes foram atribuídas aos cânceres classificados como relacionados à radiação. Entre pilotos, a proporção chegou a 6,7%.
Na população de trabalhadores analisada como um todo, esse percentual ficou próximo de 5%.
Depois dos ajustes estatísticos utilizados pelos pesquisadores, os comissários apresentaram probabilidade 50% maior de mortalidade por esses cânceres, enquanto entre pilotos o aumento foi de 36%, em comparação com outras ocupações.
O resultado colocou as duas profissões no topo entre as mais de 500 atividades avaliadas.
De onde vem a radiação durante o voo?
A atmosfera terrestre funciona como uma barreira natural contra parte da radiação proveniente do espaço. Quanto maior a altitude, menor é a proteção proporcionada pela atmosfera.
É justamente aí que entra a rotina das tripulações.
Pilotos e comissários de companhias aéreas podem passar centenas de horas por ano em altitude de cruzeiro e acumular essa exposição ao longo de décadas de atividade profissional.
A própria Federal Aviation Administration (FAA), autoridade de aviação dos Estados Unidos, reconhece a exposição ocupacional das tripulações à radiação ionizante, principalmente proveniente da radiação cósmica galáctica.
A FAA desenvolveu o CARI (Cosmic Ray Ionizing Radiation), sistema utilizado para estimar a dose de radiação cósmica recebida durante um voo, considerando fatores como rota, altitude e atividade solar.
Isso significa que dois voos com duração semelhante não necessariamente representam exatamente a mesma exposição.
A discussão sobre câncer ligado à radiação em pilotos e comissários envolve, portanto, uma exposição pequena a cada voo, mas que pode se repetir centenas ou milhares de vezes ao longo de uma carreira.
O estudo prova que voar causa câncer?
Não.
E esse é provavelmente o ponto mais importante para interpretar corretamente os resultados.
O trabalho encontrou uma associação entre determinadas profissões da aviação e maior mortalidade por cânceres classificados como relacionados à radiação. Ele não acompanhou individualmente cada tripulante durante sua carreira nem mediu a dose de radiação acumulada por cada pessoa.
Portanto, não é possível concluir a partir desse estudo que determinado número de horas de voo provocará câncer ou que a radiação cósmica foi diretamente responsável por cada uma das mortes analisadas.
Os próprios pesquisadores reconhecem limitações.
Há ainda outros fatores presentes na atividade aérea que vêm sendo estudados pela ciência.
Pilotos, por exemplo, também podem receber exposição à radiação ultravioleta através das janelas do cockpit. Tripulações convivem ainda com trabalho noturno, mudanças frequentes de fuso horário e alterações do ritmo circadiano.
Separar a influência de cada um desses fatores continua sendo um desafio.

Um resultado que merece atenção
Um comentário científico publicado pelo próprio JAMA Internal Medicine juntamente com o estudo chama atenção justamente para essa complexidade.
Segundo os autores Catherine Olsen e Ken Karipidis, tripulantes constituem um grupo ocupacional particular porque convivem com uma combinação de exposições potencialmente relevantes, entre elas radiação cósmica ionizante, radiação ultravioleta no cockpit e perturbações do ritmo circadiano.
Há ainda outro aspecto interessante.
Profissionais da aviação passam por avaliações médicas e tendem a formar uma população profissional submetida a controles de saúde. Esse fenômeno pode produzir o chamado “efeito trabalhador saudável”, no qual determinados grupos profissionais apresentam, em média, condições de saúde diferentes da população geral.
Mesmo nesse contexto, a diferença encontrada para os cânceres associados à radiação chamou a atenção dos pesquisadores.
A radiação que não aparece aos passageiros
Para quem realiza uma viagem ocasional de avião, os resultados não significam que voar comercialmente tenha se tornado uma atividade perigosa.
A questão levantada pelo estudo é essencialmente ocupacional.
Existe uma enorme diferença entre realizar algumas viagens durante o ano e passar centenas de horas anualmente em altitude de cruzeiro, repetindo essa rotina durante 20 ou 30 anos.
Por isso, o debate interessa principalmente a pilotos, comissários e demais profissionais cuja atividade envolve exposição frequente em grandes altitudes.
O estudo também não encerra a discussão. Pelo contrário.
Ao encontrar pilotos e comissários nas primeiras posições entre centenas de ocupações analisadas, os pesquisadores acrescentaram novos dados a uma questão que a medicina aeroespacial acompanha há décadas: quais são os efeitos de uma carreira inteira acumulando pequenas doses de radiação cósmica?
Por isso, o câncer ligado à radiação em pilotos e comissários permanece como tema de interesse para a medicina aeroespacial, ainda que o novo estudo não permita estabelecer uma relação direta de causa e efeito.
Ainda não existe uma resposta definitiva.
Mas os novos números mostram que a pergunta está longe de ser irrelevante.







