Dois anos depois, investigação mostra o que aconteceu durante a captação de água que terminou com a queda do avião Fire Boss em Montana
A causa do acidente de Juliana Turchetti só seria conhecida dois anos depois. A piloto brasileira tinha milhares de horas de voo, experiência na aviação agrícola e havia construído parte de sua vida profissional nos Estados Unidos. Em 2024, começava uma nova etapa da carreira: o combate aéreo a incêndios.
Em 10 de julho daquele ano, durante uma missão no estado de Montana, a piloto brasileira morreu quando o Air Tractor AT-802A Fire Boss, matrícula N10122, que comandava atingiu uma formação rochosa às margens do Hauser Lake.
Dois anos depois, a investigação do National Transportation Safety Board (NTSB) ajuda a explicar o que aconteceu durante os segundos finais do voo. O relatório oficial do NTSB sobre o acidente WPR24FA238 registra a aeronave, o local, a missão e a sequência inicial reconstruída pelos investigadores.

O acidente durante a captação de água
Juliana integrava uma formação de quatro aeronaves envolvidas no combate ao Horse Gulch Fire, incêndio que mobilizava equipes na região de Helena.
Os aviões seguiram para o Hauser Lake para realizar a captação de água. Juliana ocupava a segunda posição na formação.
O líder conseguiu completar a manobra e deixou a superfície. Logo atrás, o Fire Boss pilotado pela brasileira começou a se deslocar progressivamente para a esquerda.
Segundo a documentação técnica disponibilizada pelo NTSB, testemunhas e outros pilotos observaram a aeronave seguir em direção à margem do lago até atingir uma área rochosa. Após a colisão, o avião caiu na água.
Juliana, de 45 anos, morreu em decorrência dos ferimentos.
Operações aéreas de combate ao fogo exigem coordenação entre aeronaves, pilotos e equipes em solo. O AeroJota já mostrou essa complexidade ao acompanhar uma das maiores operações aéreas de combate a incêndios realizadas no estado de São Paulo.
Causa do acidente de Juliana Turchetti segundo o NTSB
Segundo o NTSB, a causa provável do acidente foi a perda de consciência situacional durante a captação de água, associada à sobrecarga de tarefas em um ambiente tático de combate a incêndios com múltiplas aeronaves.
Essa condição teria levado à perda do controle direcional e, depois, à colisão.
A investigação também não encontrou evidências de falha mecânica anterior ao impacto que impedisse o funcionamento normal do avião.
Outro ponto analisado foi o treinamento da piloto.
Embora Juliana fosse uma aviadora experiente, aquela era sua primeira temporada no combate aéreo a incêndios.
Os registros examinados pelo NTSB indicavam que, durante treinamentos táticos anteriores, ela havia apresentado episódios de perda de consciência situacional e momentos descritos como freezing at the controls, quando o piloto pode apresentar dificuldade momentânea de reação diante de elevada carga de trabalho.
Para os investigadores, uma degradação semelhante de desempenho provavelmente ocorreu durante o acidente.
É um dos pontos mais delicados do relatório, mas também ajuda a compreender uma diferença importante: experiência acumulada de voo não significa, necessariamente, experiência consolidada em uma operação extremamente específica.

Mais de 6 mil horas de voo
Juliana estava longe de ser uma piloto iniciante.
Nascida em Belo Horizonte, construiu carreira na aviação agrícola brasileira antes de seguir profissionalmente para os Estados Unidos.
De acordo com o perfil mantido pela National Fallen Firefighters Foundation, Juliana acumulava 6.489 horas de voo e possuía licenças e habilitações brasileiras e americanas. A entidade registra ainda experiência em aviões agrícolas, turboélices, aeronaves com trem convencional, hidroaviões e Fire Boss.
Nos Estados Unidos, continuou trabalhando na aviação agrícola e também como piloto de traslado internacional, levando aeronaves como Thrush e Air Tractor em voos de longa distância, inclusive dos Estados Unidos para o Brasil.
Sua experiência nesse tipo de operação somava cerca de 250 horas como comandante, com voos pelos Estados Unidos, Canadá, Caribe e América do Sul, segundo a National Fallen Firefighters Foundation. Posteriormente, conseguiu ingressar no combate aéreo a incêndios.
Para Juliana, porém, o combate ao fogo representava uma realização profissional.
Poucos dias antes do acidente, Juliana havia contado em seu próprio perfil no LinkedIn como havia sido sua primeira missão real de combate a um incêndio, realizada em 4 de julho de 2024, no estado de Washington.
Naquela operação, quatro Fire Boss e dois Super Scoopers atuaram no combate às chamas. Juliana e o líder realizaram 11 ciclos de captação e lançamento de água cada um. Ela contou que seu maior desafio foi captar água atrás de três outras aeronaves, enfrentando os vórtices e as esteiras de turbulência deixadas por elas. Como o ponto de captação no Columbia River era cercado por montanhas, os pilotos ainda precisavam subir cerca de 2 mil pés para livrar o terreno antes de retornar ao incêndio.
Seis dias depois, Juliana morreria durante uma operação de combate ao fogo em Montana.

Uma cafeteria com alma de aviação
A história de Juliana nos Estados Unidos também passou por um lugar bastante diferente de uma cabine de comando.
Em Springfield, Illinois, ela criou a Aviatori Coffeehouse, cafeteria inspirada no universo aeronáutico.
O local reunia referências à aviação e também mantinha uma ligação direta com o Brasil. A história da cafeteria publicada pelo Springfield Business Journal conta que Juliana e o então marido importavam para os Estados Unidos grãos de café produzidos justamente na região brasileira onde ela nasceu e cresceu.
A cafeteria tornou Juliana conhecida também fora dos aeroportos.
Ela encerrou as atividades da Aviatori em abril de 2024, pouco antes de seguir para o novo trabalho como piloto. Na ocasião, Juliana explicou que a nova atividade profissional, baseada na costa oeste dos Estados Unidos, tornaria inviável continuar administrando a cafeteria em Springfield.
Depois de sua morte, familiares e amigos realizaram homenagens na cidade. Segundo uma reportagem especial do Springfield Business Journal sobre Juliana, seu filho, sua irmã e amigos participaram de um encontro em sua memória. Seu macacão de voo foi colocado em uma caixa memorial junto de uma peça de Fire Boss.

Homenagem no Congresso dos Estados Unidos
A morte de Juliana também chegou ao Congresso americano.
Poucos dias depois do acidente, a deputada Nikki Budzinski, representante de Illinois, fez uma homenagem à brasileira na Câmara dos Representantes.
No pronunciamento divulgado oficialmente pelo gabinete da parlamentar, Juliana foi lembrada como uma piloto experiente e apaixonada, empresária conhecida em Springfield, mãe e profissional que havia encontrado no combate aéreo a incêndios o trabalho dos seus sonhos.
Posteriormente, seu nome também passou a integrar o National Fallen Firefighters Memorial. A National Fallen Firefighters Foundation incluiu Juliana no Roll of Honor de 2025, homenagem destinada aos profissionais mortos em serviço.
“Pessoas comuns fazendo algo extraordinário”
Pouco antes de morrer, Juliana escreveu sobre os profissionais envolvidos no combate aos incêndios.
Algumas pessoas os chamavam de heróis.
Ela preferia uma definição diferente:
“Pessoas comuns fazendo algo extraordinário.”
A frase foi preservada em uma reportagem publicada em Springfield após sua morte.
Talvez essa frase explique melhor sua trajetória do que qualquer relatório técnico.
A investigação do NTSB encerra uma das perguntas que permaneceram abertas desde julho de 2024 e mostra uma sequência envolvendo elevada carga de trabalho, perda de consciência situacional e perda de controle durante uma operação particularmente exigente.
Mas o relatório explica apenas o acidente, sem mostrar o lado humano dessa aviadora.
Assista à análise completa
O vídeo abaixo apresenta uma análise mais detalhada da investigação, incluindo aspectos de treinamento, operação do Fire Boss, trajetória da aeronave e os últimos momentos do voo.
Para quem quiser conhecer os detalhes técnicos que não cabem nesta matéria, o AeroJota recomenda assistir à análise completa do Pilot Debrief.
Como assistir ao vídeo em português
O vídeo está originalmente em inglês, mas o leitor pode acompanhá-lo com legendas ou dublado em português, utilizando as opções disponíveis no próprio vídeo.
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