Alta do querosene de aviação pressiona companhias e reacende temor de nova onda de tarifas mais caras
CEO da United alerta para pior choque na aviação desde a Covid recolocou o setor aéreo em estado de alerta, em meio à disparada do combustível e ao corte de voos menos rentáveis. A aviação comercial mundial voltou a entrar em estado de alerta. Desta vez, o motivo não é uma pandemia nem uma crise de demanda. O novo problema vem do combustível. Em meio à escalada geopolítica no Oriente Médio, o CEO da United Airlines, Scott Kirby, afirmou que o setor enfrenta o pior choque desde a Covid, com impacto direto sobre custos, malha aérea e preços das passagens.
A declaração ganhou peso porque não ficou apenas no discurso. A United informou que vai reduzir ainda mais voos menos rentáveis ao longo dos próximos trimestres. Segundo a Reuters, a companhia decidiu cortar cerca de três pontos percentuais de sua operação em períodos de menor demanda no segundo e no terceiro trimestre. Além disso, retirará aproximadamente um ponto percentual de capacidade em Chicago O’Hare e manterá suspensos os voos para Tel Aviv e Dubai. Com isso, a redução total chega a cerca de 5% da capacidade planejada para este ano.

O motivo é simples de entender e preocupante de medir. A United passou a trabalhar com o cenário de petróleo chegando a US$ 175 por barril e permanecendo acima de US$ 100 até o fim de 2027. Se isso se confirmar, a empresa estima um aumento anual de cerca de US$ 11 bilhões em sua conta de combustível, valor superior ao lucro obtido em seu melhor ano da história.
O problema não atinge só a United
O alerta da United não é um caso isolado. A crise já se espalhou pelo setor. A Reuters reportou que o preço do combustível de aviação saltou rapidamente, praticamente dobrando em poucos dias, após a escalada do conflito no Oriente Médio. Para as companhias aéreas, isso pesa muito, porque o combustível pode representar até um quarto dos custos operacionais.
Diversas empresas já reagiram. A Air France-KLM anunciou aumento nas tarifas de longa distância. A Air New Zealand elevou preços e suspendeu sua projeção de resultados para o ano fiscal de 2026. A SAS decidiu cancelar 1.000 voos em abril por causa da alta do petróleo e do querosene de aviação. A American Airlines já admitiu um aumento relevante de despesas no primeiro trimestre, enquanto outras transportadoras revisam rede, preços e cronogramas.
Na Europa, executivos do setor também passaram a falar abertamente em tarifas mais altas e até em risco para o abastecimento. Segundo a Reuters, líderes de companhias europeias alertaram que um conflito prolongado no Oriente Médio pode encarecer ainda mais as passagens e pressionar o suprimento de combustível, sobretudo se a disrupção se mantiver por meses.
O querosene subiu mais do que o próprio petróleo
Um dos pontos mais relevantes desta crise é que o querosene de aviação não acompanhou apenas a alta do petróleo bruto. Ele subiu ainda mais rápido. As Cias Aéreas destacaram que, desde o início do conflito, o combustível de aviação praticamente dobrou de preço, superando com folga a valorização do petróleo. Isso mostra que o problema não está apenas na matéria-prima, mas também na pressão sobre refino, logística e oferta do produto final usado pelas companhias aéreas.
Esse detalhe ajuda a explicar por que nem mesmo empresas com mecanismos de proteção financeira estão totalmente blindadas. Em muitos casos, o hedge cobre o petróleo bruto, mas não neutraliza integralmente a explosão do preço do querosene de aviação. Por isso, até companhias tradicionalmente mais protegidas passaram a reajustar preços, adicionar sobretaxas ou rever planos operacionais.
IATA já fala em impacto global para todo o setor
O tom de preocupação também apareceu na fala de Willie Walsh, diretor-geral da IATA, a Associação Internacional de Transporte Aéreo. Em entrevista à Reuters, Walsh afirmou que não há vencedores neste cenário. Segundo ele, o encarecimento do petróleo e as ameaças sobre rotas, hubs e fornecimento de combustível devem atingir todo o mercado, do Oriente Médio à América do Norte e à Ásia.
Walsh ainda observou que a demanda global por viagens segue robusta por enquanto. Mesmo assim, deixou claro que, se a crise se prolongar e houver falta de combustível em determinados mercados, as companhias poderão reduzir capacidade. Em um cenário mais extremo, o setor teria de rediscutir como distribui frota, malha e proteção contra choques de abastecimento.
Alívio recente no petróleo ainda não encerra o risco
Nas últimas horas, o mercado de petróleo mostrou algum alívio. A imprensa especializada informou que o Brent caiu 10,9% em 23 de março, fechando em US$ 99,94 por barril, após sinalizações de avanço em conversas entre Estados Unidos e Irã. Ainda assim, a mesma reportagem ressalta que a volatilidade segue elevada e que a guerra já afetou instalações energéticas importantes no Golfo e interrompeu, na prática, o transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz, corredor estratégico para cerca de 20% dos fluxos globais de petróleo e gás natural liquefeito.
Ou seja, embora o preço do barril tenha recuado no curtíssimo prazo, o risco estrutural continua vivo. Para a aviação, isso significa que o choque pode até perder intensidade momentânea, mas ainda está longe de ser considerado resolvido.
O que essa crise pode significar para o passageiro
Para o passageiro, a tendência é de passagens mais caras, ajustes de frequência e redução de voos marginais, especialmente em rotas ou horários com rentabilidade menor. Para as empresas, o desafio é equilibrar demanda ainda aquecida com uma conta de combustível muito mais pesada. E, para o setor como um todo, o episódio reforça uma fragilidade antiga: a aviação continua extremamente sensível a choques geopolíticos e energéticos.





