Herói em 2023, réu em 2026: comandante do A320 da Ural vira alvo de ação milionária

Jota

10 de março de 2026

Piloto que salvou 167 pessoas em pouso no trigo agora é cobrado pela Ural Airlines_Imagem redes sociais 1

Comandante do A320 da Ural Airlines vira alvo de ação milionária quase três anos depois do pouso de emergência que salvou 167 pessoas na Rússia. Em setembro de 2023, o comandante Sergei Belov ganhou atenção mundial ao colocar um Airbus A320 da Ural Airlines em uma plantação e evitar uma tragédia. Naquele momento, muitos trataram o episódio como um feito heroico da aviação moderna. No entanto, em 2026, a história ganhou outro rumo. Agora, a própria companhia aérea cobra 118,9 milhões de rublos, valor próximo de 1,4 milhão de euros, pelos prejuízos ligados ao caso.

Piloto que salvou 167 pessoas em pouso no trigo agora é cobrado pela Ural Airlines_Imagem redes sociais
Piloto que salvou 167 pessoas em pouso no trigo agora é cobrado pela Ural Airlines_Imagem redes sociais

O voo U6-1383 saiu de Sochi com destino a Omsk no dia 12 de setembro de 2023. A aeronave era um Airbus A320-214 de matrícula RA-73805. Na aproximação para Omsk, o avião sofreu falha no sistema hidráulico verde. Por causa disso, a tripulação decidiu alternar para Novosibirsk, onde a pista era mais longa. No entanto, o combustível acabou antes da chegada, e o A320 pousou em um campo perto de Kamenka, na região de Novosibirsk. Todos sobreviveram ao pouso.

Esse desfecho fez Sergei Belov virar herói naquele momento. Afinal, 167 pessoas saíram vivas do avião, sem incêndio e sem perda de vidas. Ainda assim, a investigação técnica mudou o tom da história nos meses seguintes.

Com o avanço da apuração, o foco deixou de ficar apenas na pane hidráulica. Investigadores russos passaram a apontar que a tripulação tomou uma decisão considerada inadequada ao seguir para Novosibirsk. Além disso, a apuração indicou erro no cálculo do combustível e falta de monitoramento eficiente do consumo durante o desvio. Em resumo, o avião seguiu com o trem de pouso estendido sem que a tripulação percebesse corretamente o efeito disso no gasto de combustível.

Esse ponto é central para entender a virada do caso. O pouso continuou sendo visto como extraordinário, mas a análise técnica passou a questionar a cadeia de decisões tomada dentro da cabine. Por isso, o episódio deixou de ser apenas uma história de sangue frio e passou a ser tratado também como um caso de erro operacional sob pressão.

O fato de o comandante do A320 da Ural virar alvo de ação milionária causou forte repercussão na imprensa internacional. Segundo reportes publicados na Rússia, a Ural Airlines recebeu mais de 1 bilhão de rublos em pagamentos de seguro ligados ao caso, além de outros valores adicionais pagos posteriormente.

Mesmo assim, a companhia decidiu cobrar Sergei Belov na esfera civil pelo prejuízo atribuído ao avião, à permanência da aeronave no campo e aos custos técnicos acumulados. Esse contraste fez a imagem do caso mudar ainda mais.

Na prática, a narrativa ficou brutal para a opinião pública. O homem que evitou uma tragédia passou a responder por uma conta milionária ligada ao mesmo episódio que, no começo, lhe deu fama de herói. Isso explica por que o tema voltou a circular com tanta força na imprensa internacional.

Depois do pouso, a Ural Airlines estudou formas de retirar o A320 do campo. No início, a empresa chegou a avaliar uma decolagem a partir do local. Mais tarde, porém, essa solução perdeu força. Em abril de 2024, a imprensa especializada já tratava a ideia como impraticável. Depois, em outubro de 2024, a Rosaviatsia cancelou o certificado de aeronavegabilidade da aeronave. Com isso, a desmontagem do avião avançou no próprio campo.

Em janeiro de 2025, a FlightGlobal informou que a remoção final das partes do jato deveria ser concluída nas semanas seguintes. Assim, o RA-73805 saiu de cena de forma definitiva. O Airbus que parecia recuperável nos primeiros dias acabou reduzido a componentes reaproveitados e peças descartadas após quase um ano e meio no local.

Airbus-A-320-daUral-Airlines-e-desmontado_Imagem-redes-sociais.
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Pressão sobre a tripulação apareceu bem antes da ação judicial

A situação profissional dos pilotos também se deteriorou rapidamente. Em dezembro de 2023, a AeroTime reportou que Sergei Belov e o copiloto Eduard Semenov teriam sido convidados a pedir desligamento da companhia. Segundo essa versão, os dois não aceitaram assinar cartas de renúncia naquele momento. Mesmo assim, a notícia já mostrava que a relação com a empresa estava longe de ser normal depois do pouso.

Esse detalhe ajuda a fechar o quadro. A aviação e o público celebraram o pouso em 2023. Porém, a empresa, a investigação e os custos empurraram o caso para outra direção. Em vez de consagração duradoura, o comandante passou a enfrentar desgaste profissional, pressão interna e, agora, cobrança judicial.

Tripulação do Airbus A-320 da URAL Airlenes que pousou em plantação na Russia em 2023_Imagem internet.
Tripulação do Airbus A-320 da URAL Airlenes que pousou em plantação na Russia em 2023_Imagem internet.
Airbus-A-320-da-Ural-Airlines-que-pouso-em-plantacao-na-Russia-em-2023_Imagem-Ilustrativa.j
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