Avião histórico será desmontado no Brasil para uma última viagem até o país onde sua história começou
Um DC-8 abandonado em Manaus há cerca de duas décadas está prestes a desaparecer da paisagem do aeroporto. No entanto, o que acontecerá com esse antigo avião será bem diferente do destino normalmente reservado a uma aeronave que passou tantos anos fora de operação.
Em setembro, uma operação pouco comum deverá começar a mudar essa história. O velho quadrimotor será retirado do local, mas não seguirá para o ferro-velho.
Seu próximo destino fica do outro lado do mundo — e chegar até lá exigirá uma viagem que o DC-8 jamais fez durante seus anos de operação.

O DC-8 parado em Manaus tem uma longa história
Trata-se do Douglas DC-8-52 de matrícula PP-TPC, número de série 45752/233, que operou no Brasil como cargueiro da TCB — Transportes Charter do Brasil.
Antes disso, porém, o avião teve outra identidade. A Air New Zealand recebeu a aeronave em 1965, com a matrícula ZK-NZC, e a incorporou à sua frota de DC-8 usada em rotas internacionais.
Depois de deixar a companhia neozelandesa, em 1981, o avião passou por outros operadores e recebeu diferentes matrículas ao longo da carreira. Mais tarde, chegou ao Brasil e passou a operar como cargueiro.
Já como PP-TPC, o DC-8 ainda voava no país no início dos anos 2000. Posteriormente, deixou a operação e permaneceu em Manaus, onde atravessou cerca de duas décadas fora de serviço.
Por que esse DC-8 despertou interesse na Nova Zelândia
O antigo ZK-NZC tem uma característica que mudou seu destino. Ele é apontado como o último sobrevivente dos sete DC-8-52 que integraram a frota da Air New Zealand.
Assim, preservar a aeronave significa recuperar uma parte importante da história da companhia e da própria aviação neozelandesa.
Foi nesse contexto que surgiu o interesse da campanha Bring Our Birds Home. Criada para preservar aeronaves históricas ligadas à Nova Zelândia, o projeto colocou o DC-8 encontrado no Brasil entre seus objetivos.
Além disso, a tentativa de salvar o avião não começou agora. Existem registros desse esforço desde pelo menos 2008.
Uma campanha que tenta recuperar mais do que um DC-8
O trabalho da Bring Our Birds Home não se limita ao avião encontrado em Manaus. A iniciativa surgiu em 2017 com o objetivo de recuperar aeronaves importantes para a história da aviação comercial da Nova Zelândia.
Ao longo do projeto, a campanha também buscou preservar exemplares de Boeing 737, Boeing 747, DC-10, Lockheed Electra e HS 748.
Nesse cenário, o DC-8 que está no Brasil ganhou importância especial. Além de ser um sobrevivente da antiga frota da Air New Zealand, sua recuperação exige uma operação internacional de grande porte.
Uma viagem a Manaus ajudou a manter o projeto vivo
No entanto, transformar a ideia em uma operação real levou anos.
Em 2019, Paul Brennan, fundador da campanha Bring Our Birds Home, viajou até Manaus para conhecer de perto o DC-8 e avaliar sua situação.
A visita ganhou repercussão na própria Nova Zelândia. Desde então, o projeto enfrentou negociações, questões jurídicas, arrecadação de recursos e um enorme desafio logístico.
Agora, existe um cronograma divulgado para começar a retirada da aeronave.

Resgate avançou depois de anos de incerteza
Até poucos meses atrás, o retorno do antigo ZK-NZC ainda dependia de etapas importantes. Em junho, informações divulgadas na Nova Zelândia apontavam uma campanha de arrecadação e questões jurídicas relacionadas à aeronave.
Por isso, o anúncio de um cronograma para setembro representa uma mudança importante. O projeto deixou de discutir apenas a possibilidade de recuperar o DC-8 e passou a preparar sua retirada de Manaus.
A campanha também mantém uma arrecadação pública para ajudar a financiar seus projetos de preservação.
DC-8 será desmontado para atravessar o oceano
Segundo as informações divulgadas sobre a operação, as equipes deverão iniciar a desmontagem em 1º de setembro de 2026.
Depois de tantos anos exposto ao clima de Manaus, o DC-8 não poderá simplesmente voltar a voar. Por isso, o projeto escolheu uma solução bem diferente.
Primeiro, as equipes deverão remover componentes e separar grandes partes da estrutura. As asas também passarão por preparação para permitir o transporte.
Em seguida, os responsáveis deverão acondicionar as partes do antigo PP-TPC para o transporte marítimo.
A previsão divulgada aponta a chegada pelo Porto de Timaru, na Ilha Sul da Nova Zelândia, até o final deste ano.
O objetivo não é colocar o DC-8 novamente no ar
Apesar de todo o trabalho necessário para retirar o avião de Manaus, o projeto não pretende devolver o DC-8 à operação.
Em vez disso, a campanha pretende preservar sua estrutura e restaurar a aeronave para exposição histórica.
Assim, um avião construído há mais de 60 anos poderá completar outro capítulo de uma trajetória iniciada na Nova Zelândia. Depois de passar por diferentes operadores, ele terminou sua vida operacional como cargueiro no Brasil.
Agora, o velho DC-8 se prepara para uma última grande viagem.
Desta vez, porém, não pelos céus.






