Mato Grosso do Sul entra no mapa dos eVTOLs e mostra que pesquisa aérea no Brasil não vive só de São Paulo

Jota

25 de março de 2026

eVTOL-Skyros_Imagem-Skyros

Quando se fala em eVTOL no Brasil, quase sempre o debate gira em torno de São José dos Campos, Campinas ou da capital paulista. No entanto, uma nova frente de desenvolvimento ajuda a ampliar esse mapa. Mato Grosso do Sul passou a aparecer nessa conversa por meio da participação do instituto Dakila Pesquisas. A entidade foi citada como uma das envolvidas em protótipos brasileiros de aeronaves elétricas de pouso e decolagem vertical.

A novidade chama atenção porque reforça uma ideia importante para a aviação nacional. O avanço dos chamados carros voadores (eVTOL), não precisa ficar restrito aos polos tradicionais da indústria aeronáutica. Embora São Paulo siga no centro da regulação, da infraestrutura e do desenvolvimento tecnológico, outros estados também começam a marcar presença nesse setor.

eVTOL-Skyros_Imagem-Skyros
eVTOL-Skyros_Imagem-Skyros

Segundo a reportagem do Campo Grande News, dois protótipos aparecem ligados a essa iniciativa: o Skyros, voltado ao agronegócio, e o Aëros, pensado para transporte de pessoas em curtas distâncias. Ambos os projetos foram apresentados como desenvolvidos em parceria entre a Dakila Pesquisas, de Mato Grosso do Sul, e a empresa Vertical Connect, sediada em Campinas.

O Skyros foi descrito como um eVTOL destinado à pulverização de precisão em lavouras. Segundo a matéria, o modelo tem capacidade de 400 litros, autonomia aproximada de 60 minutos e velocidade máxima de até 130 km/h. Além disso, a configuração inclui oito motores elétricos e oito hélices. Já o Aëros surge como uma proposta voltada à mobilidade aérea avançada. O modelo teria capacidade para duas pessoas e bagagem. Por enquanto, porém, os testes ainda ocorrem sem tripulação.

Esse ponto merece atenção. A pauta não indica que Mato Grosso do Sul já tenha um eVTOL certificado ou pronto para operar comercialmente. Também não mostra uma aeronave integrada a uma malha regular. O que existe, até aqui, é a participação em projetos experimentais e em testes iniciais. Ainda assim, isso já basta para colocar o estado dentro de uma discussão que parecia concentrada em poucos centros.

Há um simbolismo relevante nessa pauta. Durante muito tempo, a inovação aeronáutica brasileira ficou associada a regiões com tradição industrial mais consolidada. Isso continua verdadeiro em boa parte dos casos. Ainda assim, o surgimento de projetos com participação de Mato Grosso do Sul mostra outro movimento. A mobilidade aérea avançada pode abrir espaço para uma geografia mais ampla de pesquisa, testes e aplicações futuras.

Além disso, o perfil de um dos protótipos ajuda a explicar esse avanço. Um eVTOL voltado ao agronegócio conversa diretamente com a realidade de estados como Mato Grosso do Sul. Afinal, o setor rural tem peso econômico na região e exige tecnologia, eficiência logística e soluções operacionais em áreas extensas. Nesse cenário, a inovação deixa de ser apenas urbana. Ela passa, portanto, a dialogar também com necessidades práticas do interior brasileiro.

O avanço tecnológico ocorre ao mesmo tempo em que o governo federal tenta estruturar o ambiente regulatório para esse novo mercado. Em 19 de março de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos lançou uma consulta pública para a construção da Política Nacional de Mobilidade Aérea Avançada. O processo envolve a Secretaria de Aviação Civil, a ANAC e o DECEA. A proposta busca reunir contribuições sobre marco legal, infraestrutura, gestão do espaço aéreo, capacitação profissional e segurança operacional.

Paralelamente, a ANAC também abriu consulta pública para proposta de emenda ao RBAC 61. O tema envolve licenças e habilitações para pilotos de aeronaves de decolagem e pouso vertical. Em outras palavras, o Brasil ainda constrói as bases normativas desse mercado. Só depois disso esse tipo de operação poderá sair do campo experimental e avançar para uma rotina certificada e segura.

O aspecto mais interessante da pauta talvez esteja justamente aí. Mato Grosso do Sul ainda não aparece como um polo consolidado de eVTOLs. Mesmo assim, o estado já consegue entrar no radar de um segmento que movimenta fabricantes, reguladores e investidores no Brasil e no exterior. Em vez de olhar apenas para os centros tradicionais, a notícia mostra que a nova aviação elétrica também começa a criar conexões com outros estados brasileiros.

Para o site AeroJota, esse é o melhor recorte da matéria. O Brasil dos eVTOLs não precisa caber apenas em São Paulo. Mesmo em fase embrionária, com testes não tripulados e regras ainda em formação, a presença de Mato Grosso do Sul nessa agenda já mostra um movimento importante. A disputa por espaço na aviação do futuro pode ficar mais distribuída do que muita gente imaginava.