Falta de pilotos no Brasil expõe crise na formação e contradição no crescimento da aviação

Jota

1 de fevereiro de 2026

Falta de pilotos no Brasil expõe crise na formação e contradição no crescimento da aviação

A falta de pilotos no Brasil começa a expor uma contradição incômoda no discurso oficial do setor aéreo. Isso ocorre justamente quando a aviação comercial celebra recordes de passageiros, voos e movimentação aeroportuária. Nos últimos meses, comunicados institucionais destacaram crescimento da demanda, expansão de rotas e recuperação do mercado pós-pandemia.

No entanto, fora das estatísticas, o cotidiano das companhias aéreas revela um cenário menos equilibrado. O mesmo vale para aeroclubes e profissionais. A base da formação aeronáutica encolhe, enquanto a necessidade por pilotos qualificados cresce com rapidez.

Falta de pilotos no Brasil expõe crise na formação e contradição no crescimento da aviação
Falta de pilotos no Brasil expõe crise na formação e contradição no crescimento da aviação

Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Aviação Civil divulgou que a aviação comercial brasileira encerrou 2025 com 129,6 milhões de passageiros em voos domésticos e internacionais. Além disso, o mercado doméstico superou 100 milhões de viajantes pela primeira vez, com 101,2 milhões no ano.

Esse resultado sustenta o discurso de “novo ciclo de crescimento” e explica o otimismo recente. Ao mesmo tempo, a expansão aumenta a cobrança sobre um ponto pouco discutido: a oferta de pilotos qualificados para sustentar a operação nos próximos anos.

A falta de pilotos no Brasil deixou de ser um debate de bastidores e passou a aparecer na operação. No fim de semana de 30 e 31 de janeiro de 2026, o mercado registrou cancelamentos por indisponibilidade de tripulações. Isso é raro em um setor que costuma absorver ausências pontuais sem afetar a malha.

Relatos de mercado indicaram ainda a saída simultânea de 30 a 40 pilotos, em sua maioria habilitados em aeronaves Embraer E195 E1 e E2. A concentração em um intervalo tão curto chamou atenção. Mesmo sem admissão pública de crise, o episódio mostrou que a escassez já entrou na gestão diária das operações.

Com impacto operacional crescente, as companhias aéreas intensificaram a disputa por profissionais já prontos. Isso pesa ainda mais em frotas que dependem de tripulações habilitadas em jatos da Embraer. Nesse contexto, uma concorrente passou a oferecer bônus de contratação entre R$ 80 mil e R$ 160 mil, pagos em parcela única, para acelerar admissões.

O valor não resolve o problema de fundo, porque não cria novos pilotos de imediato. Ainda assim, ele muda o mercado. A troca de empresa vira um cálculo direto, com efeito, na retenção e na estabilidade das escalas.

Ao mesmo tempo, essa companhia tenta atacar a raiz do funil com ações junto a aeroclubes ainda ativos. As iniciativas incluem demonstrações de carreira e conversas objetivas sobre a rotina de um piloto de linha aérea. Em seis ações recentes, o programa já reuniu cerca de 1.600 participantes, muitos ainda no início da formação.

Parte desse público pode seguir para a linha aérea no futuro. Outra parte deve buscar a aviação executiva, asas rotativas e o offshore, que também competem pelo mesmo capital humano. O ponto é simples: bônus agressivo e presença em aeroclubes mostram que a escassez virou tema estratégico.

Enquanto companhias disputam pilotos, o Brasil assiste à redução contínua dos aeroclubes. Esse é o principal elo da formação de base da aviação civil. Levantamentos do setor indicam que o país tem hoje cerca de metade dos aeroclubes de 25 anos atrás. O quadro envolve despejos, encerramentos e perda de viabilidade econômica.

Em muitos casos, a pressão vem de concessionárias, prefeituras e da Infraero. Entram no pacote revisões contratuais e cobranças incompatíveis com a natureza educacional dessas entidades. Também falta política consistente para proteger a formação aeronáutica.

O problema se agrava com a postura regulatória da Agência Nacional de Aviação Civil. Ao longo dos anos, a agência não consolidou um marco claro de fomento aos aeroclubes. Com isso, convivem normas conflitantes, custos altos e insegurança jurídica. Na prática, a formação fica mais cara, concentrada e distante do caminho tradicional do primeiro voo solo.

A falta de pilotos no Brasil também se agrava com a saída de profissionais da Força Aérea Brasileira para a aviação civil. O movimento deixou de ser pontual e passou a ter peso estrutural. Nos últimos anos, pilotos militares com alta experiência migraram para companhias aéreas em busca de salários melhores, menor carga de trabalho e maior previsibilidade de carreira.

Esse fluxo gera efeito em cadeia. A FAB perde quadros treinados ao longo de anos, com investimento público relevante, enquanto o mercado civil absorve esses profissionais para tapar lacunas imediatas. No entanto, isso não cria novos aviadores. Na prática, apenas redistribui um contingente que já é limitado.

Em meio à falta de pilotos no Brasil, um efeito colateral positivo começa a ganhar força: a ampliação do espaço ocupado por mulheres na aviação profissional. Em um mercado marcado por barreiras culturais e oportunidades limitadas, a escassez de mão de obra tem levado empresas a rever critérios e ampliar processos seletivos. Com isso, competências antes negligenciadas passam a ser valorizadas com mais consistência.

Esse cenário abre caminho para pilotas já formadas e habilitadas, que por muito tempo aguardaram uma chance real. Além disso, a mudança vai além da cabine. Ela cria referências, aumenta o interesse de novas alunas e fortalece a base futura da aviação civil. Diferentemente do discurso superficial, esse avanço nasce de uma necessidade concreta. Por isso, tende a deixar efeitos duradouros no setor.

Ao conectar os pontos, a contradição fica clara. O Brasil comemora crescimento da aviação. Ao mesmo tempo, companhias disputam pilotos com bônus agressivos e ações de recrutamento. Além disso, profissionais migram da carreira militar para a civil. Ainda assim, a base de tudo continua sendo desmontada. Aeroclubes fecham, a formação fica mais cara e a política pública falha em proteger o elo que sustenta a cadeia.

Nenhum comandante nasce pronto em um jato da Boeing, Embraer ou da Airbus. Antes do simulador, do Type Rating – habilitação específica que um piloto precisa para operar um modelo exato de aeronave -, e da linha aérea, existe o primeiro voo solo. Existe também a instrução básica e um ambiente de aprendizado acessível. Historicamente, esse caminho sempre passou pelos aeroclubes. Ignorar isso significa aceitar improviso, importação de mão de obra ou bônus emergenciais cada vez maiores para manter aviões no ar.

Enquanto reguladores e gestores aeroportuários insistirem em tratar Aeroclubes como problema, a falta de pilotos no Brasil deixará de ser um alerta. Ela passará a ser um limite real para o crescimento do setor. Os sinais já apareceram, os efeitos começaram e o custo será sentido por toda a aviação e passageiros.

E como diria o velho ditado, quando a realidade cobra a conta: Agora a NASA vem.