Queda do PT-YBL deixa três sobreviventes e abre questões sobre o voo e a situação da aeronave
Um helicóptero Agusta A109 cai em Iaras e uma ocorrência que inicialmente mobilizou equipes para o resgate de três sobreviventes passa também a envolver uma investigação policial. O que foi descoberto depois da retirada dos ocupantes de uma área de difícil acesso, somado à situação do PT-YBL e às circunstâncias do voo, deixou perguntas que ainda precisam ser esclarecidas.
O acidente aconteceu durante a noite de sábado (19) para domingo (20). As três pessoas que estavam a bordo sobreviveram, mas o que as equipes encontraram depois do resgate ampliou a dimensão de um caso que, inicialmente, parecia restrito à investigação de mais um acidente aeronáutico.

Helicóptero teria decolado de Guararema para Londrina
As primeiras informações divulgadas após o acidente apontaram que o PT-YBL teria decolado de Guararema (SP) com destino a Londrina (PR). A origem e o destino também aparecem nas informações divulgadas à imprensa durante o atendimento da ocorrência.
Até o momento, entretanto, não foi divulgado de qual local exatamente o helicóptero teria decolado em Guararema, nem qual seria seu ponto de pouso em Londrina.
Guararema possui helipontos cadastrados pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), incluindo instalações autorizadas para operações VFR diurnas e noturnas. Portanto, a ausência de um aeroporto convencional na cidade não impede, por si só, a operação de helicópteros.
Essa dúvida ganha importância diante da situação documental encontrada no cadastro do helicóptero.
Aeronave tinha restrições de voo e não poderia ter decolado
O PT-YBL é um Agusta A109C, helicóptero leve bimotor. Segundo os dados do Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB), o Certificado de Aeronavegabilidade (CA) estava cancelado, enquanto o Certificado de Verificação de Aeronavegabilidade (CVA) estava vencido desde 30 de maio de 2019.
O CVA é um dos documentos relacionados à manutenção da condição de aeronavegabilidade. Para aeronaves submetidas às regras aplicáveis à operação privada, a verificação precisa permanecer válida para a operação.
De acordo com as informações disponíveis, o cancelamento do CA ocorreu após o período previsto na regulamentação sem a apresentação de um CVA válido. Nessas condições, a aeronave não poderia operar normalmente, salvo eventual permissão especial prevista na legislação aeronáutica.

Cadastro apresentava outras restrições
A situação do Agusta A109 não se limitava aos documentos de aeronavegabilidade.
O cadastro consultado no RAB apontava ainda ordem judicial impedindo a transferência da aeronave, além das anotações de “operador em inventário” e “proprietário falecido”.
O helicóptero estava registrado para operação privada e não possuía autorização para realizar transporte aéreo regular, táxi-aéreo, serviços aéreos especializados ou instrução de voo.
Isso não significa, por si só, que um helicóptero de operação privada não possa transportar pessoas. A questão central neste caso é outra: a situação de aeronavegabilidade registrada para o PT-YBL na data do acidente.
Também permanece sem resposta pública como uma aeronave nessa condição tentaria realizar um voo entre Guararema e Londrina e onde ela estava realmente antes da decolagem.
Pedido de socorro iniciou operação em área de difícil acesso
Havia três pessoas a bordo quando o helicóptero caiu em uma região rural da cidade de Iaras (SP). Um dos sobreviventes conseguiu estabelecer contato e pedir ajuda, permitindo o início das buscas.
Policiais militares, Corpo de Bombeiros e equipes do helicóptero Águia da Polícia Militar participaram da operação. A região apresentava acesso terrestre difícil, com mata fechada e chuva, o que tornou o trabalho de localização e retirada das vítimas mais complexo.
Os três ocupantes foram encontrados com vida na manhã de domingo. Informações divulgadas durante o atendimento indicaram ferimentos e múltiplas fraturas entre os sobreviventes, que receberam atendimento médico após o resgate.

Ocorrência passou também para a esfera policial
Depois do resgate surgiu uma segunda história envolvendo o voo.
Segundo informações fornecidas pela Polícia Militar de São Paulo, um dos sobreviventes teria apresentado dados pessoais que não correspondiam aos registros consultados pelos policiais. A corporação informou que a identidade definitiva dependeria da confirmação por exame datiloscópico.
A PM informou ainda que um dos ocupantes constava como procurado pela Justiça, sem esclarecer inicialmente se seria a mesma pessoa cuja identificação apresentou divergências.
Ainda de acordo com a corporação, informações preliminares indicavam que o piloto já teria sido preso anteriormente por envolvimento com tráfico de drogas. Trata-se, portanto, de informação policial e não de elemento relacionado, até o momento, à determinação das causas do acidente.
A ocorrência foi registrada por atentado contra a segurança de transporte aéreo, lesão corporal e captura de procurado. Os fatos de natureza criminal serão investigados pela Polícia Civil.
Cenipa investiga as circunstâncias da queda do PT-YBL
Paralelamente à investigação policial, a apuração aeronáutica segue seu próprio caminho.
Investigadores do Quarto Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (SERIPA IV) foram acionados pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) para realizar a Ação Inicial da ocorrência envolvendo o PT-YBL.
Nessa etapa são coletados dados, avaliados os danos da aeronave e reunidas informações que poderão ajudar na identificação dos fatores contribuintes para o acidente.
A situação documental do helicóptero é um dado objetivo disponível no cadastro da aeronave, mas não permite estabelecer a causa da queda. Essa relação somente poderá ser determinada pela investigação técnica. O site AeroJota já mostrou, em outro acidente envolvendo um Agusta A109, como o relatório do Cenipa identificou os fatores relacionados à ocorrência.
Enquanto isso, permanecem questões ainda sem resposta pública: de qual ponto de Guararema o Agusta A109 decolou, onde pretendia pousar em Londrina e em quais circunstâncias um helicóptero com o Certificado de Aeronavegabilidade cancelado estava realizando um voo interestadual na noite do acidente.
São perguntas que agora acompanham duas investigações diferentes: uma destinada à prevenção de novos acidentes aeronáuticos e outra voltada aos fatos descobertos pelas autoridades policiais depois que os três ocupantes foram retirados com vida da mata.






