Absurdo no fim de ano: jato da FAB no réveillon em Angra expõe distorção no uso de recursos públicos

Jota

5 de janeiro de 2026

Jato da FAB no réveillon em Angra_Imagem Ilustrativa
Viagem de réveillon com jato da FAB expõe falhas de controle e prestação de contas

O uso de aeronaves da Força Aérea Brasileira por autoridades sempre gera debate público, sobretudo quando o motivo parece distante do interesse coletivo. Por isso, o caso que envolve novamente o presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta ganhou tração e virou cobrança.

Jato da FAB no réveillon em Angra_Imagem Ilustrativa
Jato da FAB no réveillon em Angra_Imagem Ilustrativa

Segundo relatos atribuídos à coluna de Lauro Jardim, do jornal O Globo, Hugo Motta teria solicitado um jato da FAB para viajar ao Rio de Janeiro no dia 26 de dezembro. Além disso, as publicações apontam decolagem a partir de João Pessoa-PB e pouso no Santos Dumont-RJ, com 11 passageiros e/ou convidados VIP do presidente da Câmara

Na sequência, ainda de acordo com essas informações, o destino de Réveillon teria sido Angra dos Reis–RJ, com hospedagem em condomínio de alto padrão. Embora o tema ainda dependa de detalhamento oficial, a narrativa acendeu um alerta óbvio: qual foi a justificativa?

O Decreto 10.267, de 2020, trata do transporte aéreo de autoridades em aeronaves do Comando da Aeronáutica e amarra responsabilidades ao solicitante. Assim, a norma exige registro e divulgação dos motivos da viagem, além de atribuir à autoridade a responsabilidade pelos atos relacionados ao pedido.

Na prática, portanto, não basta existir a possibilidade de uso. É preciso demonstrar necessidade dentro dos critérios aplicáveis, especialmente quando o deslocamento coincide com datas típicas de descanso.

Quando o avião militar vira rotina, o privilégio deixa de ser exceção

O que mais revolta o contribuinte não é um voo isolado, mas a repetição do padrão. Reportagens já publicadas mostram que o presidente da Câmara, Hugo Motta, utilizou aeronaves da Força Aérea Brasileira em diferentes ocasiões, algumas delas associadas a eventos, deslocamentos e agendas que, aos olhos do cidadão comum, aparentam passeios e lazer com amigos e esposas.

Quando esse tipo de uso se acumula, a percepção pública muda. O que deveria ser instrumento excepcional de Estado passa a soar como táxi aéreo de luxo, gratuito, inacessível à população e distante da realidade de quem enfrenta filas, impostos altos e serviços públicos precários. Mesmo que cada voo tenha respaldo formal, o conjunto da obra produz indignação legítima.

Imposto recorde para o povo, conforto aéreo garantido para o poder

O contraste se torna ainda mais agressivo quando colocado no contexto econômico atual. O brasileiro já convive com uma das maiores cargas tributárias efetivas do mundo, especialmente sobre consumo, e com projeções que indicam um peso ainda maior no bolso nos próximos anos. Enquanto isso, quem sustenta o Estado assiste a aeronaves militares sendo acionadas para deslocamentos que não dialogam com sacrifício coletivo.

A irritação cresce porque a própria FAB enfrenta restrições orçamentárias, dificuldades operacionais e cortes que impactam treinamento, manutenção e prontidão. Em outras palavras, falta recurso para missão, mas não falta estrutura quando a agenda é particular. Esse descompasso não é apenas contábil — ele é simbólico, corrosivo e destrói a confiança institucional.

No fim das contas, o recado que chega à sociedade é devastador: o aperto é para muitos, o conforto segue garantido para poucos. E enquanto esse padrão não for enfrentado com transparência real, o ruído vai continuar. Não por ideologia, mas por exaustão.

Quando uma autoridade usa estrutura pública em período de festas, a percepção social muda imediatamente, ainda que exista autorização formal para voos. Além disso, o desgaste cresce porque a população associa “avião oficial” a privilégio, enquanto cobra serviços básicos em crise.

Por outro lado, a indignação não substitui apuração. Justamente por isso, o ponto central aqui é transparência: sem justificativa clara, a dúvida vira ruído e o ruído vira descrédito institucional.

Se o episódio realmente ocorreu nos termos relatados, o mínimo esperado é que se esclareça, de forma documental e verificável:

  • Qual foi o motivo formal do deslocamento solicitado.
  • Qual foi o itinerário completo, incluindo trechos e horários.
  • Quem eram os passageiros, e qual era a vinculação funcional de cada um.
  • Qual foi o custo operacional estimado do voo, ainda que por faixa.
  • Qual foi a base legal e a justificativa aplicada ao caso concreto.

Além disso, a resposta precisa ser direta, porque o debate não pede nota genérica. Ele pede critério, documento e coerência.

O uso de aeronaves da FAB existe para atender necessidades específicas do Estado, e não para gerar conforto em agendas privadas disfarçadas. Assim, quando a viagem coincide com Réveillon e termina em destino turístico, a cobrança por explicações se torna inevitável.

Se houver justificativa válida e registrada, ela deve aparecer com clareza. No entanto, se não houver, o episódio vira mais um símbolo do Brasil que irrita: regras para muitos e exceções para poucos.

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