Passagem de jatos Embraer sobre estádio entra na mira da autoridade, e próximo voo é cancelado
Dois jatos comerciais, um estádio lotado e uma passagem tão baixa que as imagens rapidamente começaram a circular pelo mundo. O que parecia ser apenas uma apresentação cuidadosamente planejada agora também está nas mãos da autoridade responsável pela segurança da aviação civil da África do Sul.
O sobrevoo dos jatos Embraer sobre o estádio aconteceu no sábado, 29 de agosto, antes da partida entre África do Sul e Nova Zelândia, no DHL Stadium, na Cidade do Cabo.
A apresentação foi realizada pela Airlink, companhia aérea sul-africana patrocinadora oficial da série de confrontos entre Springboks e All Blacks.
Nas imagens, os dois aviões aparecem lado a lado, em formação, passando muito próximos da estrutura do estádio.
A operação tinha autorização prévia. Mesmo assim, depois da repercussão das imagens, a Autoridade de Aviação Civil da África do Sul (SACAA) decidiu verificar se aquilo que foi realizado pelos pilotos permaneceu exatamente dentro das condições aprovadas.
E uma análise dos dados disponíveis ajuda a entender por que a passagem chamou tanta atenção.

Menos de 15 metros acima do estádio
O Flightradar24 analisou os dados ADS-B registrados durante o voo e estimou que o avião líder da formação passou entre 41 e 46 pés acima da parte superior do DHL Stadium.
Isso representa aproximadamente 12,5 a 14 metros.
O cálculo levou em consideração a altitude barométrica transmitida pela aeronave, a pressão atmosférica local, a elevação do terreno e a altura aproximada da estrutura do estádio.
O menor valor de altitude ADS-B observado foi de 50 pés considerando a pressão padrão. Com a correção pelo QNH local de 1019 hPa, a aeronave estaria entre 205 e 210 pés acima do nível médio do mar.
Como a parte superior do estádio está aproximadamente 164 pés acima do nível do mar, a diferença resultaria nos 41 a 46 pés estimados pelo Flightradar24.
O número, porém, precisa ser colocado no contexto correto.
Os 12,5 a 14 metros não foram divulgados oficialmente pela SACAA nem pela Airlink. Trata-se de uma estimativa técnica feita pelo Flightradar24 a partir dos dados disponíveis.
Dois Embraer em formação
Os aviões que aparecem nas imagens são dois jatos fabricados pela Embraer.
Na liderança estava um E195, matrícula ZS-YDE. E junto dele voava um E190, matrícula ZS-YAE.
As duas aeronaves receberam pinturas especiais relacionadas à histórica rivalidade entre as seleções de rugby da África do Sul e da Nova Zelândia.
A apresentação na Cidade do Cabo também não foi a primeira.
Uma semana antes, em 22 de agosto, os mesmos aviões já haviam realizado uma passagem sobre o Ellis Park Stadium, em Johannesburg.
Na Cidade do Cabo, no entanto, a aparente proximidade com a estrutura do estádio colocou a operação no centro das atenções.
A Airlink informou que o voo foi previamente planejado e ensaiado em simulador de voo, com os aviões passando a aproximadamente 150 nós, cerca de 278 km/h.
Cada aeronave levava três comandantes experientes, distribuídos entre as funções de comandante, copiloto e oficial técnico/de segurança.
A operação também contou, segundo a companhia, com orientação, aprovação e suporte da SACAA e da Air Traffic and Navigation Services (ATNS).

Se havia autorização, o que está sendo verificado?
Aqui está uma das partes mais importantes da história.
A SACAA não afirma que os aviões realizaram um sobrevoo clandestino ou sem autorização.
O que a autoridade abriu foi uma verificação de conformidade.
O objetivo é comparar aquilo que havia sido aprovado antes da apresentação com o que efetivamente aconteceu durante o voo sobre o estádio.
Em outras palavras: a questão não é, neste momento, saber se havia permissão para a passagem. Havia.
A dúvida é se altitude, velocidade, trajetória e demais protocolos permaneceram dentro dos limites previstos para a operação.
A Airlink sustenta que sim.
A companhia afirma que os dados registrados pelas aeronaves mostram que os voos permaneceram dentro dos parâmetros de altitude e velocidade que haviam sido aprovados e ensaiados.
A autoridade, porém, quer chegar à própria conclusão.
Os dados dos gravadores de voo dos dois Embraer foram entregues à SACAA, que também solicitou informações adicionais à Airlink antes de encerrar a análise.
Até agora, não existe uma conclusão oficial afirmando que a companhia ou os pilotos tenham violado as regras estabelecidas para a apresentação.
Próxima passagem não será realizada
Os jatos Embraer sobre estádio poderiam voltar a ser vistos poucos dias depois, desta vez em Johannesburg.
A Airlink havia planejado uma nova apresentação antes do próximo confronto entre Springboks e All Blacks, marcado para sábado, 5 de setembro, no FNB Stadium, em Johannesburg.
Mas o pedido para o novo sobrevoo foi retirado.
A companhia atribuiu a decisão à previsão de condições meteorológicas desfavoráveis para uma passagem segura em formação.
Portanto, não há até o momento uma informação oficial de que a SACAA tenha proibido a nova apresentação em consequência da análise aberta após o voo na Cidade do Cabo.
Ainda assim, os dois fatos agora caminham paralelamente: enquanto o próximo sobrevoo deixa de acontecer, a autoridade continua examinando os dados da passagem que colocou os dois Embraer a uma distância estimada de menos de 15 metros da parte superior do estádio.
As imagens já cumpriram seu papel ao chamar atenção de quem estava nas arquibancadas e de milhões de pessoas que assistiram ao vídeo depois.
Agora falta responder à pergunta que realmente importa: a impressionante passagem aconteceu exatamente da maneira como havia sido autorizada?






