Yana Kalif e a trajetória de uma mulher piloto na aviação brasileira

Jota

1 de março de 2026

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Yana Kalif é piloto há mais de duas décadas e, como mulher e piloto na aviação, aprendeu cedo a transformar pressão em disciplina, enfrentando desafios, períodos de incerteza e momentos decisivos que moldaram sua trajetória profissional.

No mês em que o setor volta os olhos para o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 08 de março, histórias como a de Yana Kalif ajudam a explicar por que a presença feminina na aviação ganha espaço de forma consistente. Ainda assim, essa evolução não acontece por acaso. Em muitos casos, ela nasce de decisões silenciosas, feitas em momentos de dúvida, quando o caminho parece exigir mais do que o planejado.

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A Cmte Yana soma mais de 7.000 horas de voo e carrega uma trajetória construída em etapas claras. Ela iniciou os estudos em 1998 e, no ano seguinte, em 1999, conquistou o primeiro emprego como copiloto em uma linha aérea. Mais tarde, em 2010, migrou para a aviação executiva, onde permanece até hoje. Entre uma fase e outra, o que aparece como linha central do relato é a combinação entre objetivo definido e constância, mesmo quando o cenário externo não ajuda.

Segundo Yana, a vontade de ser piloto surgiu cedo, ainda na infância. Ela lembra que, por volta dos sete anos de idade, já falava em seguir esse caminho, mesmo enxergando a ideia como um sonho distante. Com o tempo, o desejo ganhou forma e virou estratégia.

Ao olhar para a própria trajetória, ela aponta duas palavras como decisivas: dedicação e foco. Para Yana, cada etapa teve um alvo claro, com ações intencionais voltadas para construir a sua nova carreira. Esse tipo de disciplina, no entanto, não elimina obstáculos. Ela destaca que a primeira grande barreira foi simples e dura ao mesmo tempo: a parte financeira do processo de formação.

Quando começou, o mercado nacional ainda não estava plenamente adaptado à presença feminina na cabine. Mesmo assim, Yana relata que, nas empresas por onde passou, não sentiu que ser mulher pesou de forma negativa no tratamento cotidiano. Pelo contrário, ela diz que encontrou respeito no ambiente operacional.

Isso não significa ausência de cobrança. Ela reconhece que, em diferentes momentos, precisou se esforçar mais para ser reconhecida. Ainda assim, o ponto mais marcante do depoimento aparece quando o tema é desistência. Yana afirma que pensou em mudar de rota em mais de uma ocasião. O que a manteve na aviação foi o desejo de alcançar uma fase de maturidade profissional e pessoal, algo que, hoje, ela percebe como positivo para sua vida como mulher e como profissional.

Entre os episódios decisivos da carreira, a Cmte Yana destaca o voo de promoção a comandante, ainda na aviação comercial. Na ocasião, ela se tornou a primeira comandante mulher na empresa em que atuava, um marco que, segundo ela, fez diferença direta na sua trajetória.

O caminho, porém, não foi linear. O momento mais difícil veio quando ficou mais de dois anos sem emprego. Já o mais gratificante foi justamente o retorno ao mercado de trabalho, como um recomeço que reafirmou a escolha feita lá atrás.

Hoje, quando olha para trás, o orgulho principal não está apenas em horas acumuladas ou em mudanças de operação. Está em algo mais íntimo e, ao mesmo tempo, universal: não ter desistido em meio às incertezas.

Além da carreira operacional, Yana Kalif também assumiu um papel de liderança fora da cabine. Em publicações da própria AMAB, Associação das Mulheres Aviadoras do Brasil (AVIADORAS), ela aparece identificada como uma ex presidente da entidade. No período à frente da associação, a atuação institucional se conectou a um objetivo que muitas pilotos citam como virada de chave: criar rede, dar visibilidade e encurtar o caminho ajudando quem está chegando.

A AMAB Aviadoras ficou conhecida por organizar iniciativas e encontros voltados ao fortalecimento da presença feminina no setor aeronáutico, reunindo profissionais, estudantes e apoiadores da aviação. Dentro desse contexto, o trabalho com a diretoria e voluntárias funcionou como uma espécie de “devolver ao mercado” parte do que a experiência acumulada ensinou, ao mesmo tempo em que ajuda novas aviadoras a transformar vocação em plano de carreira.

Na percepção da Cmte. Yana Kalif, as empresas estão mais adaptadas à presença feminina e enxergam com mais clareza o papel que a mulher ocupa na sociedade e na família. Para ela, isso influencia o modo como a carreira é entendida, principalmente quando se fala em responsabilidades e escolhas de vida.

Para meninas e jovens que sonham em seguir o mesmo caminho, Yana deixa uma mensagem direta: foco, dedicação e preparação. E acrescenta um ponto de fé pessoal, ao dizer que, se esse for o melhor caminho, “Deus prepara a vitória”.