Uma unidade da FAB pouco conhecida, mas decisiva para a ligação aérea na região amazônica
A operação da COMARA em Maturacá (AM) ajuda a explicar por que a Comissão de Aeroportos da Região Amazônica, unidade da Força Aérea Brasileira, segue relevante. Além disso, muitos brasileiros e mesmo dentro da FAB, militares lotados no Sul, Sudeste e Centro-Oeste muitas vezes conhecem pouco essa estrutura. Mesmo assim, a COMARA sustentou ligações aéreas vitais quando a Amazônia enfrentava infraestrutura precária e poucas alternativas logísticas.
Na prática, longas distâncias, clima instável e limitações do transporte fluvial criaram um cenário difícil. Por isso, em várias localidades, a aviação assumiu a função de ligação principal com os grandes centros. Nesse ambiente, a COMARA manteve pistas em condições de uso, apoiou operações e ajudou a integrar comunidades que dependiam do aeródromo para existir.
Com a comemoração de 70 anos em 2026, vale relembrar casos concretos que ilustram esse trabalho. Entre eles, a operação no aeródromo de Maturacá (AM), relatada em revista institucional, mostra o que a Engenharia de Campanha exige quando o tempo, a logística e o terreno impõem limites reais.

Onde fica Maturacá e por que a área é estratégica
Maturacá é um distrito do município de São Gabriel da Cachoeira (AM), na porção noroeste do estado do Amazonas, área que faz fronteira com a Venezuela e a Colômbia. A localidade fica próxima à região do Pico da Neblina, o ponto mais alto do Brasil, e integra uma zona de fronteira considerada estratégica para a presença do Estado.
Por isso, a região é guarnecida por um Pelotão Especial de Fronteira (5º PEF) do Exército Brasileiro, cuja missão é manter a segurança e a integração na faixa de fronteira com os vizinhos internacionais.
Além disso, Maturacá abriga população ribeirinha e diversas comunidades indígenas, entre elas grupos Yanomami, cujas vidas e rotinas dependem da conectividade aérea para serviços essenciais.
Em Maturacá, a equipe da COMARA encontrou danos no pavimento e risco de paralisação
Maturacá fica no extremo norte do Amazonas. A região depende de uma estrutura aérea funcional porque enfrenta restrições severas de acesso por outros meios. Portanto, quando a pista entra em condição crítica, a localidade perde capacidade de receber apoio e de manter operações regulares.
Em setembro de 2003, a COMARA atuou no aeródromo após a identificação de danos no pavimento. A equipe observou deformações e material solto em trechos da superfície. Além disso, o texto registra que a operação, utilizando uma aeronave C-130 Hércules, agravou o quadro ao romper o revestimento asfáltico, o que aumentou o risco operacional.
Diante disso, a COMARA precisou agir rápido. Ao mesmo tempo, o isolamento impôs restrições claras de transporte, ferramentas e suprimentos. Assim, a solução precisava combinar simplicidade, resistência e execução possível dentro do cenário amazônico.
A COMARA aplicou Sand-Crete e executou compactação manual e mecanizada
A avaliação técnica indicou que o problema se concentrava na camada superior do pavimento. Por isso, a equipe removeu a camada danificada antes de iniciar a recomposição da pista. Em seguida, a COMARA adotou a solução descrita no material: Sand-Crete, mistura de areia com cerca de 9% de cimento.
Depois da aplicação, a equipe executou compactação manual e mecanizada, conforme as possibilidades do local. Dessa forma, o trabalho manteve aderência ao método indicado para ambientes com logística difícil e limitada. Fora isso, a execução buscou devolver resistência ao pavimento e recuperar a condição operacional do aeródromo.
Para viabilizar a obra, a COMARA organizou uma mobilização aérea robusta. Assim, aeronaves C-130 Hércules cumpriram 14 pernas de transporte para levar pessoal, ferramentas e insumos. Com isso, a obra avançou em etapas planejadas, mesmo com a pressão do tempo e do isolamento.
O texto registra números objetivos do esforço. A equipe utilizou cerca de 2.000 sacos de cimento e aproximadamente 730 m³ de areia. Além disso, o trabalho recuperou cerca de 3.000 m² de área de pista. Embora o planejamento previsse 45 dias, a equipe concluiu a missão em cerca de 30 dias.
A revista também destaca a composição do esforço. A operação reuniu militares, servidores civis e trabalhadores da comunidade local. Desse modo, a COMARA somou disciplina operacional e mão de obra disponível para cumprir o prazo mais curto.
O episódio do penetrômetro marcou a tomada de decisão na operação
Além da engenharia, a operação incluiu um momento decisivo ligado à avaliação da pista. A FAB precisava transportar equipamentos para reforçar o pavimento e ampliar a pista, e o material aponta que apenas o C-130 conseguia cumprir a missão. Portanto, a equipe precisava verificar se a pista suportaria o pouso e taxiamento com segurança.
O relato do Cel Av R/1 Almeida Bitencourt descreve a avaliação com apoio da equipe da COMARA. O Capitão Engenheiro Aires participou do procedimento, e o grupo utilizou um penetrômetro, isto é, um equipamento simples usado para medir a resistência do solo. Ao mesmo tempo, o texto registra alertas e dúvidas, inclusive ponderações do Cel Nóbrega, que fazia parte da equipe
Mesmo assim, a missão exigiu decisão. A equipe autorizou a operação e a tripulação do GTT – Grupo de Transporte de Tropas -, realizou o pouso com sucesso. Em seguida, o grupo completou a mobilização de equipamentos e insumos. Por outro lado, um dos pousos resultou na queima de um conjunto de freios de um dos C-130, o que reforçou o nível real de esforço e risco envolvido.
Maturacá resume a Engenharia de Campanha em um cenário amazônico
O caso de Maturacá mostra, de forma objetiva, o tipo de desafio que a COMARA enfrentou e enfrenta em diversas frentes. Em áreas isoladas, a pista não representa apenas infraestrutura. Ela garante logística, presença do Estado e continuidade de operações em um território onde alternativas nem sempre existem.
Por isso, ao relembrar essa missão dentro dos 70 anos da COMARA, o exemplo ajuda a explicar um trabalho pouco conhecido, porém essencial. A operação combinou diagnóstico, método simples e mobilização aérea pesada. Além disso, ela reuniu decisão técnica e execução sob pressão, exatamente como a Engenharia de Campanha da Força Aérea Brasileira, exige.
Texto: Revista COMARA
O Brasil não conhece o Brasil, mas a FAB e seus aviadores sim!
Que história inspiradora!
Cel Av R/1 Almeida Bitencourt





