Quatro ocorrências com drones em 2026 aumentam pressão por sistema antidrones em Guarulhos
A discussão sobre um sistema antidrones no Aeroporto de Guarulhos ganhou força após uma sequência de ocorrências em 2026. Em oito meses, o maior aeroporto do Brasil já registrou quatro episódios envolvendo esses equipamentos, enquanto companhias aéreas começam a contabilizar os custos das interrupções.
O caso mais recente aconteceu na noite de 19 de agosto e provocou a suspensão temporária de pousos e decolagens. Depois do episódio, surgiu uma discussão que vai além dos atrasos daquela noite: Guarulhos precisa de um sistema capaz de detectar e responder à presença de drones?
Segundo dados da NAV Brasil, os registros deste ano ocorreram em 26 de janeiro, 15 de fevereiro, 12 de maio e 19 de agosto de 2026.
A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (ABEAR) defende agora a implantação imediata de um sistema antidrones no aeroporto.

Última ocorrência afetou milhares de passageiros
No episódio de 19 de agosto, drones apareceram nas proximidades da área operacional de Guarulhos durante a noite.
Por segurança, o controle de tráfego interrompeu temporariamente pousos e decolagens. A operação voltou ao normal depois que deixou de haver registro dos equipamentos nas proximidades do aeroporto.
Os números divulgados inicialmente variaram conforme a fonte e o momento da apuração.
Na manhã seguinte, algumas informações apontavam entre dez e 14 voos desviados. Posteriormente, porém, a ABEAR apresentou um balanço mais amplo dos efeitos da ocorrência.
Segundo a entidade, 20 voos precisaram alternar para outros aeroportos e oito foram cancelados. Ao todo, aproximadamente 4,9 mil passageiros sofreram algum impacto.
Além disso, a associação estimou em R$ 1,9 milhão o prejuízo inicial das empresas aéreas somente com a assistência prestada aos passageiros afetados.
Esse valor não representa necessariamente todo o custo provocado pela interrupção. Desvios também podem envolver combustível adicional, reposicionamento de aeronaves e tripulações, ocupação de posições em aeroportos alternativos e reorganização da malha aérea.
Guarulhos já teve quatro casos neste ano
O problema chama atenção principalmente pela frequência. Além disso, algumas dessas ocorrências já provocaram impactos importantes na operação do aeroporto.
A ocorrência de fevereiro, por exemplo, teve consequências consideráveis.
Naquele domingo de Carnaval, drones nas proximidades das pistas causaram interrupções durante aproximadamente três horas. Na época, dezenas de voos sofreram alterações.
O AeroJota acompanhou aquele episódio e mostrou como o fechamento temporário de um aeroporto com o movimento de Guarulhos rapidamente produz reflexos em diferentes pontos da malha aérea.
Agora, seis meses depois, o problema voltou.

Companhias querem sistema antidrones
Diante da repetição das ocorrências, a ABEAR passou a defender a instalação imediata de um sistema antidrones em Guarulhos.
Esse tipo de tecnologia pode utilizar diferentes recursos para detectar, localizar, identificar e acompanhar aeronaves não tripuladas que entrem em áreas consideradas sensíveis.
No entanto, detectar um drone e neutralizá-lo são questões diferentes.
A interferência ou derrubada desses equipamentos envolve aspectos técnicos, legais e de segurança. Uma resposta inadequada também pode produzir riscos para pessoas, instalações e aeronaves.
Por isso, o governo federal publicou em 2025 o Manual para Identificação e Captura de Drones em Ambientes Aeroportuários.
O documento orienta operadores de aeroportos, órgãos de controle de tráfego aéreo e autoridades de segurança sobre como lidar com esse tipo de ocorrência.
Entre as tecnologias mencionadas estão sistemas de detecção e identificação, barreiras eletrônicas e diferentes métodos de captura. O próprio manual, porém, destaca as limitações jurídicas para determinadas formas de neutralização.
Guarulhos já discutia tecnologia antidrones
Outro ponto chama atenção.
Em junho deste ano, dois meses antes da ocorrência mais recente, o assunto esteve entre os temas do Simpósio AVSEC 2026, promovido pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo.
O cronograma oficial do evento incluiu apresentações específicas sobre “Sistema Antidrone (GRU Airport)” e “Sistema Antidrone (TWR-GR)”.
Também participaram das discussões representantes da ANAC e da NAV Brasil.
A programação mostra que o problema já estava no radar das organizações responsáveis pela operação e segurança aeroportuária. No entanto, dois meses depois dessas discussões, uma nova presença de drones voltou a provocar a interrupção de pousos e decolagens em Guarulhos.
Na prática, o episódio de 19 de agosto mostrou que as medidas disponíveis não impediram que drones interferissem novamente na operação do maior aeroporto do Brasil.
É justamente após essa nova ocorrência que a ABEAR passou a cobrar a implantação imediata de um sistema antidrones em Guarulhos.
Governo já estuda novas medidas
A discussão também não se limita a Guarulhos.
Em abril, o diretor-presidente da ANAC, Tiago Faierstein, afirmou que a agência trabalhava em medidas para estimular a adoção de tecnologias antidrones nos aeroportos brasileiros.
Além disso, desde 2025 existe uma diretriz federal específica para orientar a identificação e a captura desses equipamentos em ambientes aeroportuários.
As regras para a própria operação de drones também mudaram recentemente. Em junho, a ANAC apresentou o novo RBAC 100, que substituiu o antigo RBAC-E 94 e passou a organizar as operações de acordo com o nível de risco.
Ainda assim, regulamentar quem utiliza drones regularmente não resolve sozinho o problema de quem entra deliberadamente ou por imprudência em uma área restrita.
Um pequeno drone, um problema de milhões
O episódio de Guarulhos ajuda a dimensionar esse desafio.
Um equipamento relativamente pequeno pode obrigar o maior aeroporto do país a interromper pousos e decolagens. Em poucos minutos, aeronaves precisam seguir para outros aeroportos, passageiros perdem conexões e companhias começam a reorganizar toda a operação.
Desta vez, a ABEAR colocou um número nessa consequência: R$ 1,9 milhão de impacto inicial apenas com assistência a passageiros.
Depois de quatro ocorrências em menos de oito meses, portanto, a discussão já não envolve somente o comportamento irregular de operadores de drones.
A pergunta passa a ser outra: quanto tempo o maior aeroporto do Brasil pode continuar dependendo apenas da interrupção das operações como resposta à presença desses equipamentos?






