Veteranos do Brasil entre a memória esquecida e o dever de reconhecimento

Jota

22 de março de 2026

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A forma como uma nação trata seus veteranos revela, com precisão, o grau de maturidade de sua cultura estratégica, de sua identidade histórica e de seu compromisso com a própria soberania. No caso brasileiro, essa análise expõe uma contradição evidente. O Brasil participou ativamente da Segunda Guerra Mundial. Ainda assim, ao longo das décadas, desenvolveu uma cultura de esquecimento em relação aos seus combatentes e, em muitos casos, também em relação àqueles que serviram com honra às Forças Armadas.

Veteranos do Brasil entre a memória esquecida e o dever de reconhecimento 2
Veteranos do Brasil entre a memória esquecida e o dever de reconhecimento 2

O Brasil foi o único país da América do Sul a enviar tropas para o teatro de operações europeu durante a Segunda Guerra Mundial. A atuação da FEB (Força Expedicionária Brasileira), na Itália foi marcada por combates decisivos, enfrentados sob condições adversas, contra um inimigo experiente e bem entrincheirado. Batalhas como Monte Castelo e Montese não representaram apenas vitórias táticas. Elas também demonstraram capacidade operacional, coragem e comprometimento em um cenário de alta complexidade.

Entretanto, a atuação da Força Aérea Brasileira durante o conflito ainda permanece menos lembrada no imaginário nacional. O 1º Grupo de Aviação de Caça, equipado com aeronaves P-47 Thunderbolt, operou intensamente no apoio às tropas aliadas na Itália. Além disso, seus pilotos cumpriram centenas de missões de ataque ao solo, interdição de linhas de suprimento inimigas e destruição de pontes, veículos e posições fortificadas.

A eficiência dessas operações foi tamanha que o grupo recebeu reconhecimento formal do comando aliado. Assim, consolidou-se como uma das unidades aéreas mais eficazes naquele teatro de guerra. Seus pilotos enfrentaram condições meteorológicas adversas, forte defesa antiaérea e limitações logísticas. Mesmo assim, mantiveram elevado índice de sucesso em suas missões.

Apesar desse legado, o que se observa no Brasil contemporâneo é um distanciamento cultural preocupante. Diferentemente de países como Estados Unidos e Reino Unido, onde o veterano está integrado à narrativa nacional e recebe amplo respeito, no Brasil ele é frequentemente relegado ao silêncio institucional e à invisibilidade social.

Essa lacuna não é apenas simbólica. Na prática, ela também é estratégica. O esquecimento dos veteranos implica a perda de referenciais de disciplina, liderança, resiliência e espírito de missão. Em um mundo cada vez mais instável e competitivo, esses valores se tornam essenciais não apenas para o meio militar, mas também para a sociedade como um todo, inclusive no ambiente corporativo.

Há ainda uma confusão recorrente na própria compreensão do que significa ser veterano. No Brasil, por exemplo, persiste a ideia equivocada de que apenas combatentes de guerra merecem tal reconhecimento. No entanto, o conceito moderno de veterano abrange todos aqueles que serviram às Forças Armadas com honra, independentemente do tempo de serviço ou da participação em combate. Portanto, essa distinção é fundamental para a construção de uma cultura mais inclusiva e respeitosa.

Resgatar a memória dos feitos brasileiros na Segunda Guerra Mundial e, em especial, da atuação da Força Aérea Brasileira, não representa apenas um exercício histórico. Na verdade, trata-se de um ato de reposicionamento cultural e estratégico. Isso significa reconhecer que o Brasil já operou em cenários de alta complexidade, sob pressão internacional, e foi capaz de entregar resultados relevantes.

Mais do que homenagens pontuais, é necessário estruturar uma política contínua de valorização dos veteranos. Para isso, o país precisa investir em educação histórica nas escolas, inserção do tema em debates institucionais, fortalecimento de associações de veteranos e criação de programas que aproveitem sua experiência no desenvolvimento social e corporativo.

Ignorar os veteranos é, em última análise, ignorar a própria capacidade nacional de superação em momentos críticos. Por outro lado, reconhecê-los fortalece a identidade brasileira, resgata valores essenciais e prepara o país para desafios futuros.

O Brasil não carece de heróis. Carece, sim, de memória e, sobretudo, de vontade institucional de preservá-la.

Wagner Tadeu Fratti
Veterano da Associação dos Veteranos da Força Aérea Brasileira – AVFAB