FAB fez 1.145 voos em 2025 para autoridades dos Três Poderes, e o contribuinte pagou a conta.

Jota

11 de fevereiro de 2026

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A Força Aérea Brasileira (FAB) realizou 1.145 voos em 2025 para transportar autoridades dos Três Poderes da República. Ao longo do ano, ministros de Estado e membros do Supremo Tribunal Federal, da Câmara dos Deputados e do Senado Federal utilizaram aeronaves militares, até Ministro do TCU que deveriam fiscalizar isso, utilizou (sem ter direito por lei), aviões da FAB. Todos esses deslocamentos foram custeados com recursos públicos.

O levantamento, divulgado pelo jornalista Lúcio Vaz do jornal Gazeta do Povo, recolocou na pauta um debate que insiste em reaparecer: até que ponto o uso de jatos oficiais atende ao interesse público e, em que momento, ele passa a ser percebido como privilégio institucional?

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O uso de aeronaves da Força Aérea Brasileira é regulamentado por decreto e por normas internas do Comando da Aeronáutica. Nesse marco, a legislação autoriza o transporte de determinadas autoridades por razões de segurança institucional, missão oficial ou necessidade logística, o que dá base formal para a operação.

Em tese, o modelo existe para garantir continuidade administrativa e proteção de cargos estratégicos. Ainda assim, a norma não elimina a necessidade de transparência e tampouco afasta o escrutínio público sobre a finalidade de cada voo solicitado. Por isso, o ponto central do debate não é a legalidade formal em si, mas a legitimidade moral e administrativa de determinados deslocamentos.

Parte dos 1.145 voos ocorreu para compromissos institucionais claros, como reuniões ministeriais, eventos oficiais, viagens internacionais e agendas de governo. Mesmo com esse contexto, episódios anteriores e relatos recentes indicam que alguns deslocamentos coincidiram com períodos de lazer, recessos parlamentares ou datas festivas, o que amplia a cobrança por explicações objetivas.

Casos envolvendo viagens em período de Réveillon e deslocamentos para destinos turísticos voltaram a acender a discussão pública. Ainda que o voo conste como oficial, a coincidência com férias ou eventos privados provoca questionamentos previsíveis, especialmente quando a justificativa não fica clara para quem acompanha o tema de fora. Quando um jato militar pousa em destino turístico em pleno período de descanso institucional, a percepção social costuma ser direta: trata-se de logística de Estado ou de conveniência pessoal?

O custo invisível que revolta o cidadão

Cada voo operacional envolve combustível, tripulação, manutenção, horas de aeronave e estrutura logística. Na prática, isso evidencia que não se trata de transporte de baixo custo, mesmo quando não há divulgação detalhada do valor de cada missão em formato de planilha pública.

Em paralelo, milhões de brasileiros enfrentam terminais lotados, pagam tarifas altas e lidam com atrasos e cancelamentos na aviação comercial. Nesse contraste, a comparação vira inevitável. A indignação, então, não nasce apenas do número total de voos; ela cresce quando o cidadão percebe a distância entre a rotina institucional e a vida real de quem financia o sistema.

Mesmo quando surgem denúncias e questionamentos na imprensa, o padrão de utilização das aeronaves oficiais pouco se altera. Em momentos de restrição orçamentária, a FAB já precisou ajustar operações por falta de recursos para combustível e manutenção. No entanto, os voos destinados ao transporte de autoridades seguem ocorrendo normalmente, dentro das regras estabelecidas, o que alimenta a sensação de privilégio institucional entre parte da população.

O debate sobre os 1.145 voos da FAB em 2025, em 365 dias do ano, não precisa cair em disputa ideológica. O foco aqui é responsabilidade administrativa, transparência e uso eficiente de recursos públicos.

A sociedade tem o direito de saber qual foi a finalidade específica de cada voo e quantos passageiros estavam a bordo. Além disso, é legítimo entender se houve compartilhamento de aeronave para otimizar custos e se existiam alternativas logísticas viáveis para parte dessas viagens.

Por isso, o uso de meios militares exige rigor, proporcionalidade e prestação de contas.

A Força Aérea Brasileira cumpre sua missão constitucional ao atender solicitações formalmente autorizadas pelo Ministério da Defesa. A instituição executa o transporte e não decide o mérito político do deslocamento.

Entretanto, o debate recai sobre quem solicita o voo — e sobre a cultura institucional que naturalizou o uso frequente de jatos oficiais. Ainda assim, já ha relatos de ministros e togados, usando aviões militares para deslocamento, casa trabalho, casa, em vez de usarem aviões de carreira.

Se 1.145 voos são todos justificáveis, cabe transparência plena. Se alguns extrapolam o interesse público, cabe revisão de critérios.

Ainda assim, quem paga a conta não está na cabine executiva. No fim das contas, está no chão.