Levantamento mostra quem mais usou os aviões da FAB e os motivos das viagens
Aviões da Força Aérea Brasileira transportam autoridades em compromissos oficiais pelo país. Até aí, nada fora do esperado.
A situação começa a chamar atenção quando se olha com mais cuidado para os registros dessas viagens. Para onde foram os aviões? Quem solicitou as aeronaves? E, principalmente, o que levou algumas autoridades a recorrer à estrutura da FAB?
As respostas mostram uma rotina que vai muito além das tradicionais agendas em Brasília.
Nos primeiros seis meses de 2026, centenas de deslocamentos colocaram aeronaves militares a serviço de autoridades dos Três Poderes. Alguns motivos registrados ou identificados nessas viagens, porém, ajudam a entender por que o assunto voltou a provocar questionamentos.
O cenário ganha ainda mais relevância quando colocado ao lado de outra realidade que o AeroJota acompanha há meses: a própria Força Aérea precisa administrar limitações financeiras que afetam sua atividade operacional.
É justamente nesse contraste que os números começam a contar uma história diferente.

591 voos em apenas seis meses
Levantamento publicado pela CNN Brasil, assinado pelos jornalistas Leonardo Ribbeiro e Helena Prestes, identificou 591 voos de autoridades em aeronaves da FAB entre janeiro e junho de 2026.
No mesmo período de 2025, foram 571.
Portanto, o crescimento foi relativamente pequeno. No entanto, o número total mostra que o transporte de autoridades continua ocupando uma parcela significativa da movimentação da aviação oficial.
O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, aparece com 90 demandas no período. Depois surgem o Ministério da Educação, com 75 voos, o presidente da Câmara, Hugo Motta, com 64, e o Ministério dos Transportes, com 42.
Há, porém, uma particularidade importante no caso de Múcio.
Segundo o levantamento, aproximadamente 75% das demandas atribuídas ao Ministério da Defesa atenderam ministros do Supremo Tribunal Federal. Portanto, o número não significa que o ministro estivesse pessoalmente a bordo em todas essas viagens.
Quando o motivo da viagem chama atenção
Os números mostram a dimensão do uso da frota. Entretanto, alguns motivos ajudam a entender por que a discussão não termina na quantidade de voos.
Em um dos casos, uma aeronave levou ao Rio Grande do Sul uma comitiva de 29 pessoas ligada ao ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, para o velório de Frei Sérgio Antônio Görgen.
Outro deslocamento envolveu o ministro da Defesa.
José Múcio utilizou uma aeronave da FAB para viajar a Belo Horizonte e participar da missa de sétimo dia de Sheila Emrich dos Mares Guia, esposa do ex-ministro Walfrido dos Mares Guia.
Esses exemplos não permitem afirmar, isoladamente, que houve irregularidade. O transporte de autoridades em aeronaves militares segue regras específicas.
Mesmo assim, eles levantam uma questão legítima: quais compromissos justificam mobilizar uma aeronave da Força Aérea?
Cada voo envolve tripulação, combustível, manutenção, planejamento e uma estrutura paga com recursos públicos.

O contraste com a situação da FAB
Esse debate fica ainda mais relevante quando se observa a situação enfrentada pela própria Força Aérea Brasileira.
O AeroJota já mostrou que a instituição reduziu milhares de horas de voo nos últimos anos enquanto passou a conviver com limitações orçamentárias que atingem treinamento, disponibilidade de aeronaves e outras atividades operacionais.
Por isso, a discussão não está em negar que determinadas autoridades tenham direito ao transporte aéreo oficial.
A questão está na prioridade.
Enquanto a FAB precisa administrar recursos limitados para manter aeronaves disponíveis e tripulações treinadas, 591 voos atenderam autoridades em apenas seis meses, ou seja, mais de 3 voos por dia por 180 dias seguidos.
É justamente esse contraste que merece atenção.

Nem toda autoridade escolhe a FAB
Os próprios dados mostram que possuir a prerrogativa de utilizar uma aeronave oficial não significa necessariamente recorrer a ela.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, não utilizou aeronaves da FAB no primeiro semestre de 2026, segundo o levantamento.
Fachin tem optado por voos comerciais inclusive em parte dos deslocamentos ligados à atividade institucional.
A comparação fica ainda mais evidente quando se observa o período anterior.
No primeiro semestre de 2025, durante a presidência de Luís Roberto Barroso, aeronaves da FAB atenderam a presidência do STF em 50 ocasiões.
São escolhas diferentes dentro de uma estrutura que permanece disponível para determinadas autoridades.
As informações partem dos registros oficiais
A Força Aérea Brasileira mantém registros dos voos realizados para o transporte de autoridades. Esses documentos apresentam informações como autoridade solicitante, trajeto, horários, motivo da solicitação e previsão de passageiros.
Foi a partir desses registros oficiais que foi realizado o levantamento consolidado utilizado como referência nesta reportagem.
O AeroJota não reproduz aqui a relação completa de voos. O objetivo é observar o que os números e alguns dos motivos revelam sobre a utilização de aeronaves militares em um momento de restrição financeira da própria Força Aérea.

Uma discussão que vai além de 591 voos
O AeroJota acompanha há mais de um ano o uso de aeronaves da FAB por autoridades.
Já mostramos gastos, número de deslocamentos, utilização por integrantes dos Três Poderes, questionamentos de órgãos de controle e projetos que buscam modificar as regras atuais.
Os 591 voos registrados até junho acrescentam um novo elemento a essa discussão.
Mais do que perguntar apenas quem utilizou os aviões, talvez seja necessário perguntar para quê eles foram utilizados.
E, principalmente, quais deslocamentos justificam mobilizar uma aeronave militar quando a própria Força Aérea precisa escolher cuidadosamente onde aplicar seus recursos.
Quando a estrutura é pública, essa pergunta também pertence ao contribuinte.
Em uma Força Aérea que precisa administrar recursos limitados para manter aviões voando, pilotos treinando e sua capacidade operacional disponível, quais deslocamentos de autoridades realmente justificam colocar uma aeronave militar no ar?
Quando a conta é paga com dinheiro público, essa resposta também interessa a quem está em terra.






