Pistas para aviões ou para eventos? O debate sobre aeroclubes e a nova vocação de alguns aeroportos brasileiros

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Jota A
5 de agosto de 2026

O debate sobre os aeroclubes nos aeroportos brasileiros voltou ao centro das discussões após o anúncio de uma competição automobilística na pista do Aeroporto Moussa Nakhl Tobias, em Bauru (SP).

Quando um aeroporto anuncia que sua pista receberá uma prova de arrancada, muita gente enxerga apenas mais um evento diferente. Outros veem uma oportunidade de atrair público e gerar receita para ajudar na administração do terminal. Afinal, aeroportos podem — e, em muitos casos, precisam — diversificar suas fontes de arrecadação. No entanto, cresce a percepção de que alguns aeroportos deixam de priorizar a aviação, o que reacende o debate sobre o papel dos aeroclubes e da formação de novos pilotos no Brasil.

O debate, porém, começa quando essas iniciativas acontecem em locais que, nos últimos anos, reduziram ou perderam atividades ligadas diretamente à aviação. É justamente essa reflexão que volta à tona após o anúncio de uma competição automobilística na pista do Aeroporto Moussa Nakhl Tobias, em Bauru (SP).

Sozinho, o evento não representa um problema. A questão é mais ampla: qual deve ser a prioridade de um sítio aeroportuário concedido para a atividade aérea?

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Seria injusto afirmar que concessionárias aeroportuárias ou administradores públicos não devam buscar novas formas de tornar os aeroportos financeiramente sustentáveis. A realidade mostra exatamente o contrário.

A manutenção da infraestrutura aeroportuária exige investimentos constantes, custos elevados e planejamento de longo prazo. Nesse cenário, realizar feiras, eventos, exposições, encontros empresariais e até atividades esportivas pode representar uma importante fonte complementar de receita.

Desde que essas iniciativas convivam em harmonia com a atividade aeronáutica, dificilmente haverá motivos para questionamentos.

O problema começa quando a lógica parece se inverter.

Nos últimos anos, o site AeroJota acompanhou diversos casos envolvendo aeroclubes que enfrentaram dificuldades para permanecer em aeroportos brasileiros.

Alguns passaram a conviver com aumentos expressivos nos custos de ocupação. Outros receberam notificações para desocupação de áreas utilizadas há décadas. Também houve situações em que escolas de aviação perderam espaço em nome de novos projetos ou mudanças na estratégia de administração dos aeroportos.

Cada caso possui características próprias, contratos diferentes e discussões jurídicas específicas.

Entretanto, quando esses episódios passam a ser observados em conjunto, surge uma pergunta inevitável: se falta espaço para atividades aeronáuticas, como ele aparece para usos completamente diferentes da aviação?

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O caso de Bauru não é isolado.

Em Franca (SP), a pista do aeroporto também recebeu provas de arrancada após o encerramento das atividades do aeroclube local.

Na capital paulista, parte da área anteriormente ocupada pelo Aeroclube de São Paulo, no Campo de Marte, passou a receber festas, eventos e outras atividades sem ligação com a formação aeronáutica.

Naturalmente, nenhuma dessas iniciativas pode ser considerada ilegal apenas por não envolver aeronaves.

O ponto central é outro.

Enquanto espaços historicamente destinados à formação de pilotos, mecânicos e profissionais da aviação encontram dificuldades para continuar existindo, atividades comerciais sem relação com o setor parecem encontrar cada vez mais oportunidades dentro desses mesmos sítios aeroportuários.

Quando se fala em aeroclubes, muita gente imagina apenas hangares antigos e pequenos aviões de instrução.

Na prática, essas instituições representam uma parte importante da história da aviação brasileira.

Foi em aeroclubes espalhados pelo país que milhares de pilotos civis deram seus primeiros passos na aviação. Muitos dos profissionais que hoje voam em companhias aéreas, na aviação executiva, na agricultura, na segurança pública e até nas Forças Armadas iniciaram sua formação nessas entidades.

Além da formação de pilotos, diversos aeroclubes construíram, ao longo de décadas, hangares, oficinas, salas de aula e estruturas financiadas com recursos próprios ou da própria comunidade aeronáutica.

Por isso, quando uma dessas instituições perde espaço dentro de um aeroporto, o impacto costuma ir muito além da mudança de endereço.

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O advogado Dr. Cesar Mazzoni abordou essa transformação em um artigo publicado recentemente pelo site AeroJota.

Segundo sua análise, cresce uma visão em que gestores e administradores passam a enxergar o sítio aeroportuário não apenas como infraestrutura destinada ao desenvolvimento da aviação, mas também como um ativo capaz de gerar receitas por diferentes modelos de negócio.

Por um lado, essa estratégia pode fazer sentido sob o ponto de vista empresarial.

Por outro lado, ela também desperta uma discussão importante: até que ponto novas atividades complementam a vocação aeronáutica de um aeroporto e em que momento começam a substituí-la?

Os aeroportos brasileiros não são empreendimentos privados construídos exclusivamente para exploração comercial.

Mesmo quando concedidos à iniciativa privada, continuam cumprindo uma função pública relacionada ao transporte aéreo, à integração nacional, ao desenvolvimento regional e à formação de profissionais da aviação.

Por essa razão, buscar sustentabilidade financeira não deveria significar reduzir justamente as atividades que justificam a existência daquele espaço.

Ao mesmo tempo, eventos, feiras, shows e competições podem representar importantes fontes de receita.

Por isso, o desafio está em garantir que essas iniciativas fortaleçam o aeroporto sem comprometer sua principal finalidade.

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A realização de uma prova de arrancada em uma pista de aeroporto dificilmente mudará, sozinha, o futuro da aviação brasileira.

Ainda assim, ela ajuda a evidenciar uma transformação que vem ocorrendo de forma gradual em diferentes regiões do país.

Quando atividades aeronáuticas passam a perder espaço enquanto eventos sem relação com a aviação encontram cada vez mais oportunidades dentro dos aeroportos, surge naturalmente uma pergunta: qual modelo de gestão está sendo construído para o futuro?

No fim das contas, talvez a discussão nunca tenha sido sobre uma corrida de carros, uma feira ou um festival.

A verdadeira questão é outra.

Se há espaço para transformar aeroportos em centros de eventos e negócios, também deveria haver espaço para preservar os aeroclubes instituições que, durante décadas, formaram pilotos, desenvolveram a aviação brasileira e ajudaram a construir a história desses mesmos aeroportos.

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Jota A, é Veterano da Força Aérea Brasileira, Aviador, Motociclista e Empresário. Escreve sobre aviação há 10 anos.