Compra de Black Hawk para a PM do Rio é suspensa e levanta dúvidas sobre licitação, uso urbano e procedência da aeronave

Jota

11 de maio de 2026

Helicóptero Black Hawk da Polícia Militar do RJ_Imagem Ilustrativa

Durante anos, o helicóptero blindado da Polícia Militar do Rio se tornou símbolo das operações aéreas em comunidades dominadas pelo crime organizado. No entanto, a tentativa de transformar a corporação na primeira polícia do Brasil a operar um Black Hawk militar americano acabou entrando no centro de uma nova polêmica milionária. A compra de Black Hawk para a PM do Rio, estimada em mais de R$ 70 milhões, foi suspensa pelo governo em exercício após suspeitas envolvendo a licitação, a origem da aeronave e até a real utilidade operacional do modelo em áreas urbanas.

 Helicóptero Black Hawk da Polícia Militar do RJ_Imagem Ilustrativa 1
Helicóptero Black Hawk da Polícia Militar do RJ_Imagem Ilustrativa 1

O modelo escolhido para a PMERJ era o Sikorsky UH-60L Black Hawk, aeronave militar amplamente utilizada pelas Forças Armadas dos Estados Unidos e considerada uma das mais conhecidas do mundo em missões de combate, transporte tático e resgate. A própria Polícia Militar defendia que o novo helicóptero aumentaria a proteção das equipes durante operações em áreas conflagradas.

Segundo documentos do processo, a corporação alegava aumento significativo de disparos contra aeronaves do Grupamento Aeromóvel (GAM). Entre 2022 e 2025, o helicóptero blindado Huey II prefixo PR-COE teria concentrado todas as avarias provocadas por tiros de criminosos. Dessa forma, a PM argumentava que precisava de uma aeronave mais resistente e com maior capacidade de sobrevivência.

O problema começou quando o valor da proposta vencedora passou a chamar atenção internamente. A empresa Blue Air Táxi Aéreo venceu a concorrência oferecendo o Black Hawk por cerca de US$ 12,6 milhões. Entretanto, comparações feitas dentro do próprio governo apontaram que a Força Aérea Brasileira pagou valores médios muito superiores em negociações recentes envolvendo helicópteros da mesma família.

A diferença abriu espaço para dúvidas sobre a procedência da aeronave e levantou suspeitas de que o helicóptero pudesse utilizar peças usadas ou componentes reaproveitados.

A apuração publicada pelo g1 também revelou conexões entre empresas que participaram do processo licitatório. O nome que aparece no centro da investigação é o do empresário Fernando Carlos da Silva Telles, conhecido no setor como “Tico-Tico”.

Ele participou da audiência pública da licitação representando a empresa Flyone. Posteriormente, a Blue Air surgiu na concorrência e acabou declarada vencedora. Documentos da ANAC mostram que Daniel Telles, sobrinho do empresário, aparece como diretor de operações da Blue Air.

Outro ponto que chamou atenção envolve Renato Carriço dos Santos, representante da Blue Air. Ele trabalhou por décadas na Ancoratek, empresa anteriormente ligada a Fernando Telles. Além disso, reportagens apontam que a Flyone já foi alvo de investigações relacionadas a acidentes aéreos em contratos públicos na região Norte do país.

Até o momento, não existe decisão judicial afirmando irregularidade na compra do Black Hawk. Porém, o governo interino decidiu interromper temporariamente o processo para aprofundar análises técnicas e jurídicas sobre o contrato.

Outro aspecto que passou a dividir opiniões dentro do próprio governo envolve o uso operacional do Black Hawk em comunidades do Rio de Janeiro.

Diferentemente do Huey II atualmente utilizado pelo GAM, o UH-60L é um helicóptero militar de grande porte. O modelo pode transportar tropas armadas, operar em ambientes hostis e alcançar velocidades elevadas. Entretanto, especialistas também apontam que a aeronave exige áreas maiores para pouso e produz forte deslocamento de ar durante voos em baixa altitude.

Essa característica passou a preocupar integrantes do governo em exercício. Existe receio de que o rotor principal do Black Hawk provoque deslocamento de telhados, estruturas leves e objetos em comunidades densamente povoadas durante operações urbanas.

Além disso, algumas análises internas passaram a questionar se uma aeronave desenvolvida originalmente para cenários de guerra seria realmente a melhor solução para policiamento aéreo em áreas urbanizadas.

Mesmo assim, o Black Hawk continua sendo considerado um dos helicópteros mais robustos já produzidos pela indústria aeronáutica militar. O modelo opera em dezenas de países e possui histórico consolidado em missões reais de combate, evacuação médica, resgate e infiltração tática.

Apesar da suspensão atual, o projeto já havia sido oficialmente apresentado pelo então governador Cláudio Castro no início de 2026. Na ocasião, o helicóptero foi tratado como uma das maiores aquisições da segurança pública fluminense nos últimos anos.

O contrato também previa treinamento operacional nos Estados Unidos para equipes da PMERJ. Inclusive, policiais chegaram a viajar ao Alabama para capacitação relacionada ao modelo.

Entretanto, integrantes do governo em exercício afirmam que nenhum pagamento pela aeronave havia sido realizado até o momento da suspensão. Agora, toda a documentação do processo segue sob revisão.

Enquanto isso, a possível chegada do Black Hawk à Polícia Militar do Rio continua dividindo opiniões entre defensores do reforço bélico da corporação e críticos que questionam custos, funcionalidade e transparência da aquisição.

Em nota oficial, o Governo do Estado do Rio de Janeiro informou que iniciou ampla revisão de contratos e processos administrativos. Segundo o comunicado, a compra do helicóptero Sikorsky UH-60L Black Hawk está sendo analisada sob critérios técnicos e jurídicos, permanecendo suspensa até conclusão das verificações.

Até o fechamento desta matéria, os envolvidos citados nas reportagens ainda não haviam se pronunciado publicamente sobre todas as suspeitas levantadas durante a apuração.