Criação da companhia aérea Maricá Air exigirá tempo, dinheiro e certificação

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Jota A
6 de agosto de 2026

A criação da companhia aérea Maricá Air reacendeu um debate que vai muito além do anúncio feito pela Prefeitura de Maricá (RJ). Afinal, transformar uma ideia em uma empresa aérea capaz de transportar passageiros regularmente exige uma das estruturas mais complexas da aviação civil.

O projeto foi anunciado pelo prefeito Washington Quaquá (PT), como parte da estratégia de desenvolvimento econômico do município. No entanto, entre a apresentação da proposta e a decolagem do primeiro voo existe um longo caminho, repleto de exigências técnicas, regulatórias, operacionais e financeiras.

É justamente esse cenário que desperta a curiosidade. Quanto custaria colocar a Maricá Air em operação? Quem administraria a empresa? Como seriam obtidas as autorizações da ANAC? Essas e outras perguntas ainda aguardam respostas e ajudam a dimensionar o tamanho do desafio.

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Durante entrevista ao programa Jogo do Poder, o prefeito de Maricá, Washington Quaquá (PT), anunciou a intenção de criar a Maricá Air. Segundo ele, a futura companhia teria participação da prefeitura, com investimentos do Fundo Soberano do município, e operaria voos regionais ligando a cidade a diferentes destinos do país.

A proposta faz parte de um conjunto de iniciativas voltadas ao desenvolvimento do setor aeronáutico em Maricá. Nos últimos anos, o município investiu na ampliação do aeroporto, implantou o programa Voa Maricá e também passou a incentivar projetos ligados à formação de profissionais e à indústria aeronáutica.

Embora o anúncio apresente uma visão ambiciosa para a aviação regional, muitos detalhes essenciais ainda não foram divulgados. E é justamente a ausência dessas informações que levanta dúvidas sobre como o projeto poderá sair do papel.

É justamente nesse ponto que o projeto desperta interesse entre especialistas e profissionais da aviação. Diferentemente do que muita gente imagina, criar uma companhia aérea não significa apenas adquirir aeronaves e contratar pilotos.

Antes de vender a primeira passagem, a futura empresa precisa vencer uma longa etapa de certificação junto à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Um dos principais requisitos é a obtenção do Certificado de Operador Aéreo (COA), autorização indispensável para realizar voos comerciais regulares.

Mas o desafio não termina aí. A companhia também deverá comprovar capacidade técnica, operacional e financeira, além de apresentar manuais, programas de treinamento, sistemas de gerenciamento da segurança operacional e uma estrutura administrativa compatível com as exigências da autoridade aeronáutica.

Em outras palavras, colocar um avião para transportar passageiros regularmente envolve muito mais do que ter uma aeronave disponível. É um processo rigoroso, que busca garantir a segurança dos voos antes mesmo da decolagem do primeiro passageiro.

O anúncio da Maricá Air deixa uma série de dúvidas. Agora, o município precisará explicar como pretende transformar a proposta em uma operação real.

Quanto custará o projeto? A prefeitura será acionista majoritária ou minoritária? Haverá participação de investidores privados?

Também não está claro se a Câmara Municipal precisará aprovar o investimento. Além disso, falta explicar se o município criará uma empresa do zero ou buscará parceria com uma companhia já autorizada pela ANAC.

Outras perguntas envolvem diretamente a operação. Quais aeronaves a empresa pretende utilizar? Quem ficará responsável pela manutenção? Como funcionarão o seguro, o abastecimento e os serviços de solo?

Ainda será necessário definir quem venderá as passagens e atenderá os passageiros. Da mesma forma, a futura companhia terá que organizar seus sistemas de reservas, canais de atendimento e contratos aeroportuários.

Também não há informações públicas sobre um pedido de certificação junto à ANAC. Até agora, o projeto não apresentou estudos de demanda nem uma previsão clara para o início das operações.

Até o momento, essas informações não foram apresentadas publicamente.

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A proposta da Maricá Air não surgiu de forma isolada.

Nos últimos anos, o município passou a investir em iniciativas ligadas à aviação. Entre elas estão o programa Voa Maricá, a ampliação da infraestrutura aeroportuária e a formação de profissionais do setor.

Maricá também anunciou projetos relacionados à indústria aeronáutica. Dessa forma, a companhia aérea aparece como mais uma etapa de uma estratégia econômica ampla.

Esse histórico mostra que a cidade possui interesse real no setor. No entanto, ele não elimina a necessidade de detalhar custos, responsabilidades e riscos do novo projeto.

Santa Catarina adotou outro modelo

Santa Catarina também decidiu apoiar a aviação regional, mas escolheu um caminho diferente.

Como o site AeroJota já mostrou, o governo catarinense criou mecanismos para incentivar companhias privadas a operar determinadas rotas. Nesse modelo, o poder público estimula a conectividade sem administrar diretamente uma empresa aérea.

Apesar das diferenças, as duas iniciativas possuem um objetivo semelhante: ampliar a oferta de voos e buscar passagens mais acessíveis para a população. Em Santa Catarina, o governo aposta em incentivos destinados às companhias já existentes.

A criação da companhia aérea Maricá Air, por outro lado, prevê a participação direta da prefeitura no empreendimento. Dessa forma, o município pretende atuar como sócio de uma empresa voltada à operação de voos regionais.

Assim, Santa Catarina e Maricá buscam fortalecer a conectividade aérea, mas adotam estratégias diferentes. Enquanto o governo catarinense estimula operadores privados, Maricá pretende ingressar diretamente no negócio.

Difícil, caro e demorado, mas não impossível

Criar uma companhia aérea exige muito mais do que uma decisão política ou disponibilidade de recursos. Os responsáveis terão que estruturar a empresa, contratar profissionais, obter certificações e construir uma operação capaz de funcionar com segurança.

Além disso, será necessário manter seguros, sistemas tecnológicos, equipes de solo, contratos aeroportuários e serviços de manutenção. Tudo isso exige capital, planejamento e conhecimento especializado.

Essas dificuldades, entretanto, não tornam o projeto impossível. Caso Maricá consiga cumprir as exigências da ANAC, estruturar uma gestão profissional e sustentar financeiramente a operação, a companhia poderá sair do papel.

Por enquanto, a Maricá Air representa uma proposta ambiciosa. O anúncio abriu o debate, mas apenas as próximas etapas mostrarão se o município conseguirá transformar a ideia em uma empresa aérea segura, regular e sustentável.

Na aviação, anunciar um projeto costuma ser a etapa mais simples.

Caso avance, a Maricá Air poderá representar uma experiência pouco comum no Brasil. Antes disso, porém, o município terá que responder a várias questões técnicas, jurídicas, operacionais e financeiras.

Por enquanto, o anúncio apresenta uma intenção política e econômica. A transformação dessa proposta em uma companhia aérea segura e sustentável ainda exigirá um caminho muito mais longo.

Jota A, é Veterano da Força Aérea Brasileira, Aviador, Motociclista e Empresário. Escreve sobre aviação há 10 anos.