Voos internacionais em Congonhas podem reduzir slots domésticos e elevar preço das passagens

Jota

15 de maio de 2026

Voo internacional em Congonhas volta ao debate_Imagem divulgação
Aeroporto de Congonhas volta ao debate no setor aéreo brasileiro com possíveis voos internacionais.

Os voos internacionais em Congonhas voltaram ao centro das discussões da aviação brasileira após a concessionária espanhola Aena reforçar o desejo de transformar o aeroporto paulistano em uma nova porta de entrada para destinos do Cone Sul. No entanto, enquanto a ideia anima parte do mercado, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) já demonstra preocupação com os impactos operacionais que isso pode causar no espaço aéreo de São Paulo.

Quem acompanha a rotina de Congonhas sabe que o aeroporto já opera próximo do limite em diversos horários do dia. Além disso, o terminal enfrenta restrições históricas de slots, regras operacionais rígidas e limitações físicas conhecidas pelo setor aéreo. Agora, a possibilidade de receber voos internacionais começa a abrir uma nova discussão: afinal, São Paulo possui espaço aéreo suficiente para suportar mais operações sem afetar os voos domésticos?

A preocupação ganhou força após declarações recentes do presidente da Anac, Tiago Faierstein, que classificou a discussão sobre a internacionalização de Congonhas como “prematura”. Segundo ele, antes de qualquer avanço, será necessário entender os impactos provocados pela futura implantação do IFR (Instrument Flight Rules) no Campo de Marte.

Voo internacional em Congonhas volta ao debate_Imagem divulgação
Voo internacional em Congonhas volta ao debate_Imagem divulgação

A Aena pretende iniciar operações internacionais em Congonhas a partir de 2028, quando as obras do novo terminal estiverem concluídas. A estratégia da concessionária não envolve voos de longa distância para Europa ou Estados Unidos. Pelo menos inicialmente, o foco está em rotas de curta e média distância dentro da América do Sul.

Entre os destinos estudados aparecem Buenos Aires, Montevidéu, Assunção e Santiago. Um dos cenários mencionados pelo CEO da empresa no Brasil, Santiago Yus, seria uma espécie de “ponte aérea internacional” entre Congonhas e o Aeroparque Jorge Newbery, em Buenos Aires.

A proposta chama atenção porque Congonhas possui localização extremamente privilegiada dentro da capital paulista. Diferentemente de Guarulhos, o aeroporto fica próximo ao centro financeiro da cidade e possui forte apelo para passageiros corporativos.

Ao mesmo tempo, especialistas do setor enxergam uma questão delicada. Para que voos internacionais aconteçam em Congonhas, parte dos slots atuais precisaria ser destinada às novas operações internacionais. Isso poderia reduzir a oferta de voos domésticos em um aeroporto que já opera no limite de sua capacidade.

O principal ponto de atenção da Anac envolve a implantação do IFR no Campo de Marte. A tecnologia permitirá operações por instrumentos em condições meteorológicas adversas, aumentando a capacidade operacional daquele aeroporto.

Na prática, isso significa mais aproximações e decolagens utilizando o mesmo espaço aéreo compartilhado atualmente entre Campo de Marte, Congonhas e Guarulhos. O receio é que o Terminal São Paulo passe a enfrentar ainda mais pressão operacional.

Segundo a própria Anac, existe a possibilidade de perda de slots em Congonhas e até em Guarulhos caso o redesenho das aerovias não consiga absorver a nova demanda operacional.

Além disso, o tema também pode gerar impactos jurídicos e financeiros. Uma eventual redução da capacidade operacional poderia obrigar o governo federal a discutir reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos da Aena e da GRU Airport.

Outro detalhe importante envolve o próprio perfil operacional de Congonhas. O aeroporto atualmente trabalha com limite operacional bastante elevado para sua infraestrutura disponível.

O alerta mais importante feito pela Anac envolve diretamente o passageiro brasileiro. Segundo Tiago Faierstein, dedicar parte dos slots de Congonhas para voos internacionais pode reduzir a oferta de voos domésticos. Consequentemente, isso poderia elevar o preço das passagens aéreas em diversas rotas nacionais.

Hoje, Congonhas concentra algumas das rotas corporativas mais importantes do país, especialmente a ponte aérea Rio-São Paulo. Qualquer redução na oferta de slots pode gerar impacto imediato no mercado doméstico.

Além disso, a internacionalização ainda depende da aprovação de diversos órgãos federais. Polícia Federal, Receita Federal, Anvisa e Vigiagro precisariam validar a operação internacional no aeroporto paulista. Segundo relatos, algumas dessas autarquias também demonstram preocupação com falta de efetivo para atuar em Congonhas.

Por enquanto, a internacionalização do aeroporto segue apenas como um projeto da concessionária espanhola. Apesar do interesse da Aena, a Anac deixa claro que o tema ainda está distante de qualquer decisão definitiva.