Uso de aviões da Força Aérea Brasileira por autoridades em 2025 reacende debate e incomoda até quem defende o sistema

Jota

20 de fevereiro de 2026

Uso de aviões da Força Aérea Brasileira por autoridades em 2025_Imagem ilustrativa

Voos da FAB para autoridades em 2025 somaram 1.145 missões, segundo levantamento já repercutido por veículos e perfis que acompanham o tema e analisado e publicado pelo site AeroJota. O dado chama atenção por um motivo simples: ele sugere uma demanda constante, praticamente diária, por transporte estatal aéreo, considerando que o ano tem 365 dias.

Ao mesmo tempo, ninguém precisa transformar esse debate em torcida organizada. O ponto central é outro: prioridade, transparência e custo de oportunidade. Se a frota vira agenda fixa de deslocamentos, sobra menos margem para treinamento, prontidão e missões que não podem esperar.

Uso de aviões da Força Aérea Brasileira por autoridades em 2025_Imagem ilustrativa 1
Uso de aviões da Força Aérea Brasileira por autoridades em 2025_Imagem ilustrativa 1

O número, por si só, não “condena” nada. Ainda assim, ele provoca uma pergunta objetiva: o que a FAB deixou de fazer enquanto fazia tanto transporte para políticos ?
Essa comparação, hoje, é difícil porque não existe uma planilha pública simples que consolide, lado a lado, as principais missões do ano.

Mesmo assim, dá para entender o incômodo. A FAB executa interceptações e ações de combate a ilícitos, mantém busca e salvamento, realiza evacuações aeromédicas e também atua no transporte de órgãos quando a logística exige rapidez.
Então, quando o transporte de autoridades ocupa o noticiário, o leitor naturalmente tenta comparar com “missão fim”.

Por isso, o debate pede menos grito e mais método: um painel público com categorias, custos estimados, horas de voo e justificativas padronizadas. A transparência melhorou, mas ainda deixa lacunas para interpretações e ruído.

O desconforto cresce quando aparecem padrões repetidos: ida e volta em fim de semana, agendas curtas, deslocamentos que poderiam usar aviação comercial e até viagens que, vistas de fora, parecem conveniência e lazer.
É aqui que a percepção pública degrada rápido, porque o cidadão enxerga “serviço de táxi aéreo estatal” pago pelo contribuinte e perde a confiança no propósito.

Esse efeito fica ainda mais forte quando o país discute orçamento, manutenção e disponibilidade de aeronaves. Em outras palavras: se falta dinheiro para voar e treinar, por que sobra avião para deslocamento político?
Essa pergunta pode ser injusta em casos específicos, mas ela nasce do contraste.

E contraste é o que não falta. Há relatos recentes de desfalques operacionais em aeronaves estratégicas, com impacto direto na capacidade de transporte e resposta rápida, como os caças.

Quando a conversa sai do “quem usou o avião” e entra no “como a FAB sustenta a operação”, surgem pontos que o público entende na hora.

O programa do Gripen F-39 já aparece em análises setoriais com cronograma alongado e atrasos, o que empurra decisões difíceis e prolonga a vida de aeronaves antigas.
Nesse cenário, a frota de F-5 ganha sobrevida operacional, não por vontade, mas por necessidade.

No transporte, o KC-390 também entra na conversa porque há matérias e relatos sobre aeronaves fora de serviço e manutenção pesada, o que limita a disponibilidade.
Na prática, o público leigo traduz isso assim: “tem missão demais e avião de menos”.

AFA, instrução e a sensação de que o futuro ficou no modo espera

A questão não se restringe à caça e transporte. A formação também vira tema quando falta uma solução clara de médio prazo.

discussões internas na FAB sobre reorganização e ajustes na instrução, com grupo de trabalho avaliando caminhos e até mudanças de localidade e modelo de treinamento.
Isso pode ser planejamento responsável. Ainda assim, para quem olha de fora, parece remendo sobre remendo.

Outro tema que alimenta esse espanto é a saída de oficiais, sobretudo aviadores, em volume que já virou notícia recorrente.

O site AeroJota publicou dados e recortes de desligamentos em 2025, apontando aceleração do movimento e impacto direto em quadros especializados.
Além disso, veículos do setor também noticiaram perda de pilotos para a aviação comercial, com turmas recebendo ex-militares.

Quando isso acontece, a conta não fica só na folha de pagamento. Ela bate em instrução, padronização, segurança operacional e capacidade de expansão.
E, sem pilotos experientes, nem avião pronto resolve tudo.

Aqui entra um ponto sensível. Existe cobertura pública de que a FAB voltou a avaliar um novo avião presidencial, a pedido do Planalto, com estudos e sondagens citadas por portais do setor e pela imprensa.
Isso não significa compra confirmada, e é essencial tratar como estudo e hipótese, não como fato consumado.

Mesmo assim, o tema vira faísca por uma razão óbvia: ele aparece justamente quando o debate sobre orçamento e prontidão está quente.
Aí nasce o choque narrativo: “falta para manter, mas pode ter para ampliar luxo”.

Além disso, apelidos e boatos em redes sociais inflamam o assunto e distorcem o que é técnico. O que dá para dizer, com segurança, é que o estudo existe como pauta pública e que o desgaste vem junto.

A pergunta que fica não é “a FAB serve ou não serve”. A pergunta é mais direta:

Qual é o limite saudável para o transporte de autoridades quando a prontidão militar está sob pressão?

Se a resposta for “segurança exige”, então o país precisa de critérios claros e auditáveis.
Se a resposta for “agenda exige”, então o país precisa discutir custo, alternativa comercial e regras de prioridade.

E se a resposta for “é assim mesmo”, aí o problema muda de nome: vira crise de confiança.

Dá para reduzir ruído sem proteger ninguém e sem atacar ninguém:

  1. Painel público anual com horas de voo por missão, por frota e por categoria.
  2. Justificativa padronizada, com critérios objetivos e revisão posterior.
  3. Indicadores de prontidão publicados em faixas, para o cidadão entender o impacto.
  4. Regra de exceção real, para casos de segurança e urgência, sem virar rotina.

Com isso, a discussão melhora. Sem isso, qualquer nova planilha de voos vira combustível para mais revolta e mais meme.

No fim, voos da FAB para autoridades em 2025 viraram símbolo de um dilema maior: a FAB precisa cumprir agendas de Estado, mas também precisa manter a capacidade de cumprir sua missão essencial.

Se o transporte de políticos cresce a ponto de dominar a percepção pública, algo já saiu do eixo, nem que seja a comunicação e a transparência.
E, enquanto atrasos, manutenção pesada e evasão de aviadores continuam no radar, o incômodo tende a aumentar.

A pergunta, portanto, não é “política ou nação”. A pergunta correta é: quem está definindo prioridade, com qual critério, e com qual prestação de contas?