Um único doador em Santa Catarina, uma corrida contra o tempo e uma operação aérea que fez a diferença
Uma bolsa de sangue raro em avião comercial percorreu diferentes cidades brasileiras para atender um paciente que precisava urgentemente de uma transfusão.
A operação envolveu profissionais de saúde, logística terrestre e transporte aéreo, demonstrando como a aviação pode contribuir diretamente para salvar vidas.
O episódio ocorreu em 10 de outubro de 2026 e marcou um avanço na utilização de aeronaves comerciais em missões humanitárias no Brasil. Entretanto, o sucesso começou longe dos aeroportos, com a disponibilidade de uma pessoa que possuía uma característica sanguínea extremamente incomum.

Um único doador foi encontrado em Santa Catarina
O HEMOSC recebeu uma solicitação para atender um paciente de Juiz de Fora, em Minas Gerais, que precisava de sangue com fenótipo Js(b-), considerado extremamente raro.
Após consultar seus registros, o hemocentro identificou apenas um possível doador dessa tipagem em Santa Catarina.
O voluntário residia em Joinville e aceitou realizar a doação na manhã seguinte.
Profissionais do HEMOSC mobilizaram-se para coletar, analisar e liberar a bolsa no menor tempo possível.
O desafio seguinte seria fazer o sangue chegar ao paciente mineiro ainda naquele dia.
Sangue raro em avião comercial exigiu cuidados especiais na cabine
Após a coleta em Joinville, a bolsa seguiu por terra até Florianópolis, onde embarcou em um voo comercial com destino a Belo Horizonte.
Diferentemente do transporte convencional de cargas, o material viajou na cabine de passageiros, acondicionado em embalagem apropriada, com temperatura controlada entre 1°C e 10°C.
Depois de desembarcar em Belo Horizonte, o sangue seguiu até Juiz de Fora, chegando ao paciente em 10 de outubro.
Foi a primeira operação dessa modalidade realizada em Santa Catarina e a terceira registrada no Brasil.

Mudança nas regras ampliou o transporte aéreo humanitário
A operação tornou-se possível após a atualização de um acordo de cooperação técnica utilizado no transporte aéreo de órgãos e tecidos destinados a transplantes.
A iniciativa passou a contemplar também o transporte emergencial de sangue raro para pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Com a participação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e das companhias aéreas, o material pode seguir gratuitamente na cabine de aeronaves comerciais.
Anteriormente, o envio como carga poderia envolver procedimentos mais demorados e atrasos logísticos.
O primeiro transporte brasileiro nessa modalidade ocorreu em 12 de setembro, entre São Paulo e Piauí. O segundo aconteceu em 9 de outubro, entre Ceará e Minas Gerais.
O que é sangue raro e por que encontrá-lo é tão difícil?
Embora os tipos A, B, AB e O sejam conhecidos, a compatibilidade sanguínea envolve características muito mais complexas.
Segundo a Sociedade Internacional de Transfusão de Sangue (ISBT), um perfil sanguíneo é considerado raro quando ocorre em menos de uma a cada mil pessoas testadas.
A entidade reconhece atualmente 49 sistemas sanguíneos, 400 antígenos e 2.031 variantes genéticas catalogadas como alelos.
Os antígenos são estruturas presentes na superfície das hemácias. Suas combinações determinam características sanguíneas que podem dificultar a identificação de doadores compatíveis.
O Cadastro Nacional de Sangue Raro, criado em 2013, reúne 2.032 doadores e já contribuiu para atender mais de 300 pacientes.
No caso mineiro, existiam dez possíveis doadores cadastrados, mas apenas quatro tinham a tipagem confirmada.
Aviação comercial, FAB e pilotos voluntários ajudam a salvar vidas
Como o site AeroJota mostrou na reportagem sobre o transporte aéreo de órgãos, companhias comerciais e a FAB participam de uma importante rede humanitária.
Em 2025, a Central Nacional de Transplantes intermediou 2.016 transportes: 1.716 em voos comerciais e 300 em aeronaves militares.
A aviação geral também contribui por meio de iniciativas como o TransplantAR, que mobiliza pilotos voluntários para transportar órgãos e equipes médicas.
Outra organização é o ASES Brasil, que realiza missões humanitárias envolvendo pacientes, medicamentos e apoio aéreo.
Essas iniciativas complementam o trabalho das instituições públicas, mostrando que a aviação brasileira também cumpre uma missão silenciosa: ajudar a salvar vidas.





