Aviação naval de asas fixas da Marinha do Brasil está encolhendo? Dados públicos levantam alerta

Jota

22 de abril de 2026

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Um comentário de leitor do site AeroJota abriu uma pergunta incômoda, mas necessária. Afinal, a aviação naval de asas fixas da Marinha do Brasil está mesmo sendo esvaziada aos poucos? A resposta, à luz de dados públicos e registros oficiais recentes, indica que a capacidade ainda existe, porém opera de forma cada vez mais enxuta. Ao mesmo tempo, parte da frota já começa a deixar o circuito militar para entrar na preservação histórica.

Caca-A-4-da-Marinha-do-Brasil_Imagem-Marcelo-Lobo-site-Aviacao-em-Floripa
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A redução da ala de caça naval brasileira fica mais clara quando se observa a cronologia do programa. A Marinha do Brasil incorporou 23 jatos A-4 Skyhawk ex-Kuwait no fim da década de 1990, sendo 20 monopostos e 3 bipostos. Anos depois, já com a frota envelhecida, a Força lançou o programa de modernização dos AF-1 em parceria com a Embraer. O plano original trabalhava com 12 aeronaves, mas o projeto acabou sendo reduzido ao longo do tempo. Em 2015, a primeira aeronave modernizada foi entregue. Já em 2022, a Marinha recebeu o último AF-1B atualizado, encerrando um programa que terminou com sete aeronaves modernizadas: cinco monopostos AF-1B e dois bipostos AF-1C.

O cenário ficou ainda mais delicado em 2016, quando o AF-1B de matrícula N-1011 caiu no mar na região de Saquarema, no Rio de Janeiro, durante um treinamento, reduzindo ainda mais a já pequena frota modernizada. Desde então, a ala de caça da Marinha continuou ativa, mas em escala bastante limitada. A própria Marinha registrou, em 2022, que a primeira aeronave modernizada havia sido entregue em 26 de maio de 2015 e que o último caça atualizado chegou apenas em setembro de 2022. Quando se observa esse intervalo, percebe-se que o programa levou anos para entregar poucos aviões. Por isso, cada baixa, cada desativação e cada aeronave enviada para preservação aumentam o peso do debate sobre o futuro da aviação naval de asas fixas no Brasil.

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A aviação naval de asas fixas da Marinha do Brasil não desapareceu. Em 2025, a própria Força divulgou uma campanha de emprego ar-superfície do EsqdVF-1, com lançamentos de bombas de exercício, tiros com metralhadoras de 20 mm e missões de vigilância e reconhecimento. Já em abril de 2026, a Operação ADEREX I/2026 voltou a citar a presença de um AF-1C “Falcão” entre os meios aeronavais empregados. O problema é que, nas divulgações públicas mais recentes, os A-4 costumam aparecer em pacotes bastante reduzidos. Sozinho, esse padrão não prova se a limitação decorre de baixa disponibilidade, preservação de horas de voo ou planejamento operacional. Ainda assim, a repetição desse cenário reforça a percepção de que a ala de caça naval hoje é mantida em escala muito mais modesta do que se esperaria de um esquadrão de caça.

Em uma aviação de caça, a quantidade de meios colocados no ar também pesa na percepção de força operacional. No caso dos AF-1, os registros públicos recentes confirmam atividade, mas não mostram presença numerosa de aeronaves nas ações divulgadas. Como a Marinha não detalha publicamente a disponibilidade total da frota, seria precipitado apontar uma causa única para isso. Ainda assim, o padrão reforça uma dúvida legítima sobre a escala real da aviação naval de asas fixas do Brasil.

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O ponto que mais chama atenção está fora do voo e dentro do planejamento. Os registros públicos mostram manutenção e suporte logístico continuado para os AF-1B/1C em 2025 e 2026, o que prova que a Marinha ainda sustenta o esquadrão. Por outro lado, não aparece, nas fontes oficiais localizadas, qualquer anúncio recente de substituição direta dos AF-1 ou de recomposição ampla da ala de caça naval. Assim, o cenário público sugere continuidade operacional de curto prazo, mas sem clareza sobre renovação de frota.

Nesse contexto, a destinação do N-1012 para exposição permanente em Santa Catarina ganha um peso simbólico maior. O movimento não representa, sozinho, o fim da aviação naval de caça, mas reforça a percepção de que parte da frota já migra para preservação enquanto a ala ativa opera em escala reduzida. Quando esse quadro se soma à perda do N-1011 em 2016 e ao histórico do N-1013 após o incidente de pista de 2019, o alerta do leitor deixa de ser mera impressão e passa a dialogar com fatos públicos verificáveis.

Talvez a palavra “extinção” ainda seja forte demais para o estágio atual. Porém, os dados públicos indicam, sim, um encolhimento evidente da aviação naval de asas fixas da Marinha do Brasil. A força ainda voa, participa de exercícios e preserva doutrina. Ainda assim, o número de células disponíveis, a redução do programa de modernização e a ausência de reposição pública alimentam uma dúvida legítima: até quando essa capacidade conseguirá resistir sem uma decisão mais robusta de renovação?

Diferentemente do que já ocorre em outros programas militares, a Marinha do Brasil não divulga, nas fontes abertas localizadas até aqui, uma data oficial para a retirada definitiva dos AF-1. O que aparece publicamente é que a modernização prolongou a vida útil dessas aeronaves e que a Força ainda mantém processos de aquisição e manutenção para sustentar o esquadrão. Por isso, o cenário público atual indica continuidade operacional, embora sem um horizonte transparente de desativação total ou de substituição integral da frota.

A aviação naval de asas fixas da Marinha do Brasil ainda existe, mas os dados públicos indicam que sua escala já não é a mesma.

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