Europa abandona maior projeto de caça do continente e abre caminho para um “Super Rafale”

Jota

1 de julho de 2026

Europa abandona maior projeto de caça do continente_Imagem Ilustrativa.

O caça europeu FCAS deveria simbolizar a união da Europa na próxima geração da aviação militar. No entanto, o projeto acabou revelando justamente o contrário: a dificuldade de França, Alemanha e Espanha trabalharem juntas em um programa bilionário, estratégico e altamente sensível.

Após anos de disputas entre Dassault Aviation e Airbus, a França já admite seguir sozinha. Além disso, Paris pode buscar novos parceiros fora da Europa para desenvolver sua futura aeronave de combate.

A declaração partiu de Éric Trappier, presidente-executivo da Dassault Aviation, durante audiência no Senado francês. Segundo ele, as divergências com a Airbus se tornaram irreconciliáveis.

Com isso, a cooperação no principal componente do programa chegou ao fim. Esse componente era justamente o novo caça que poderia substituir o Rafale e o Eurofighter nas próximas décadas.

Europa abandona maior projeto de caça do continente_Imagem Ilustrativa.
Europa abandona maior projeto de caça do continente_Imagem Ilustrativa.

Lançado em 2017 pelos governos da França e da Alemanha, com a Espanha ingressando posteriormente, o FCAS pretendia ser muito mais do que um novo avião de combate.

O programa previa um sistema integrado formado por um caça tripulado de sexta geração, drones de combate, sensores distribuídos, inteligência artificial e uma rede digital conhecida como “combat cloud”. O objetivo era conectar aeronaves, satélites, drones e centros de comando em tempo real, criando um ambiente de combate altamente integrado.

Orçado em cerca de 100 bilhões de euros, o FCAS era considerado o maior programa aeronáutico militar já concebido na Europa.

Apesar do apoio político dos governos envolvidos, o projeto enfrentava dificuldades desde o início.

A Dassault defendia que apenas uma empresa deveria liderar o desenvolvimento do caça, seguindo o modelo utilizado durante a criação do Rafale. Já a Airbus defendia uma divisão equilibrada das responsabilidades entre os países participantes.

Segundo Éric Trappier, a cooperação internacional funciona apenas quando as regras são estabelecidas desde o início e respeitadas por todos. Para ele, o modelo adotado pelo FCAS gerou conflitos constantes, aumento dos custos e atrasos no cronograma.

A Airbus, por sua vez, atribuiu à Dassault parte da responsabilidade pelo fracasso das negociações e defendeu a continuidade de outros componentes tecnológicos do programa.

Surge a ideia de um “Super Rafale”

Durante o depoimento, Trappier afirmou que a França tem condições de desenvolver sozinha um novo caça.

Nesse caso, o país repetiria a estratégia adotada nos anos 1980. Naquela época, a França deixou o programa Eurofighter e avançou com o Rafale.

Ao falar sobre um plano alternativo ao FCAS, o executivo citou a possibilidade de um “Super Rafale”.

A ideia seria criar uma evolução profunda do caça francês atual. Portanto, a aeronave receberia novos sensores, aviônicos, sistemas de guerra eletrônica e armamentos.

Enquanto isso, a França poderia desenvolver, em paralelo, um verdadeiro caça de próxima geração.

Segundo Trappier, essa solução custaria bem menos do que um programa multinacional muito complexo.

Embora possa seguir sozinha, a França ainda não fechou a porta para parcerias.

Desta vez, porém, os aliados podem vir de fora do núcleo tradicional da União Europeia.

Entre os nomes citados por analistas aparecem a Suécia, por meio da Saab, e os Emirados Árabes Unidos. O país árabe é cliente importante do Rafale e mantém relação próxima com a indústria francesa.

Enquanto isso, outro programa europeu avança. O GCAP, desenvolvido por Reino Unido, Itália e Japão, ganha força e já atrai interesse de novos participantes.

Assim, a disputa pelos caças de sexta geração tende a ficar ainda mais acirrada.

O rompimento entre Dassault e Airbus não ficou limitado ao FCAS.

As duas empresas também divergem sobre o Eurodrone, projeto europeu de aeronave não tripulada de média altitude e longa permanência.

Segundo Trappier, a Airbus tentou reduzir a participação da Dassault no programa. Por causa disso, a fabricante francesa passou a buscar compensações financeiras.

A Airbus não comentou publicamente a nova disputa.

De qualquer forma, o episódio mostra que a relação entre as duas maiores empresas aeroespaciais da Europa vive um momento delicado.

O fim do FCAS vai além do encerramento de um projeto industrial.

A decisão pode mudar o equilíbrio da indústria aeronáutica militar europeia pelos próximos 30 anos.

Em vez de um único caça europeu de sexta geração, o continente pode ter programas diferentes. Como consequência, a concorrência entre fabricantes deve crescer.

Por outro lado, os custos também podem subir para os governos envolvidos.

Além disso, o fortalecimento do GCAP e a possibilidade de um “Super Rafale” mostram que a corrida tecnológica continua acelerada.

Para o Brasil, o tema também merece atenção. A possível entrada da Saab em uma nova parceria francesa aproximaria, ainda que indiretamente, o debate europeu do programa Gripen brasileiro.

Para a indústria de defesa, o desafio será enorme. Será preciso conciliar soberania nacional, cooperação internacional e custos cada vez mais altos.

No fim, o fracasso do FCAS deixa uma lição importante. Desenvolver um caça de sexta geração exige tecnologia de ponta. Porém, também exige consenso político e industrial.

Por enquanto, a Europa mostra que ainda domina a tecnologia. Porém, também mostra que transformar essa tecnologia em cooperação política continua sendo um desafio enorme.