Depois de quase 90 anos, Campo de Marte entra em uma nova era com operações por instrumentos
Durante quase 100 anos, havia um fator capaz de interromper parte da rotina do Aeroporto Campo de Marte, localizado zona norte da cidade de São Paulo, sem aviso prévio: o tempo. Bastava a formação de nevoeiro, teto baixo ou redução da visibilidade para que pilotos e operadores precisassem aguardar melhores condições para pousar ou decolar.
Agora, o Campo de Marte inicia operação por instrumentos em setembro e começa a superar essa limitação histórica. A partir do dia 15, o tradicional aeroporto da Zona Norte de São Paulo deverá adotar oficialmente os procedimentos IFR, um marco aguardado há décadas e considerado uma das mudanças mais importantes desde sua inauguração, em 1929.
Mais do que uma novidade técnica, a implantação dos novos procedimentos representa uma transformação na forma como um dos aeroportos mais movimentados da aviação geral brasileira poderá operar em condições meteorológicas adversas.

Uma limitação histórica
Quem frequenta o Campo de Marte sabe que dias de nevoeiro ou de baixa visibilidade sempre fizeram parte da rotina operacional.
Como o aeroporto operava predominantemente sob regras de voo visual (VFR), muitas operações dependiam diretamente das condições meteorológicas. Quando o tempo fechava, pilotos precisavam aguardar a melhora da visibilidade para seguir viagem ou concluir uma aproximação com segurança.
A implantação do IFR não elimina os limites impostos pelo clima, mas amplia significativamente as possibilidades de operação dentro dos parâmetros estabelecidos para cada procedimento, reduzindo atrasos, cancelamentos e períodos de espera.
O que é o IFR?
Para quem não é piloto, a sigla IFR significa “Regras de Voo por Instrumentos” e pode parecer apenas mais um termo técnico da aviação.
Na prática, ela significa que a aeronave poderá executar procedimentos de saída, chegada e aproximação utilizando instrumentos de navegação e procedimentos publicados, sem depender exclusivamente das referências visuais externas.
Isso proporciona maior regularidade operacional e aumenta a previsibilidade das atividades aeroportuárias, especialmente durante períodos de baixa visibilidade.

A mudança começou muito antes
A chegada do IFR não aconteceu de forma isolada.
Ela faz parte do amplo programa de modernização previsto no contrato de concessão do Campo de Marte, administrado pela PAX Aeroportos desde 2023.
Nos últimos meses, o aeroporto recebeu investimentos de aproximadamente R$ 120 milhões, incluindo nova taxiway, áreas de segurança de fim de pista (RESA), substituição dos sistemas PAPI, conjunto de luzes que auxilia os pilotos a manterem a trajetória correta durante a aproximação para pouso, recuperação do pavimento, melhorias na drenagem, sinalização e iluminação operacional. Essas intervenções prepararam a infraestrutura para receber os novos procedimentos por instrumentos.
Durante a inauguração das obras, o CEO da concessionária, Rogério Prado, resumiu a importância da mudança:
“Campo de Marte deixará de ser refém do tempo. Significa mais segurança, mais regularidade e mais previsibilidade para todos os operadores.”
Um aeroporto estratégico para a aviação brasileira
Fundado em 1929, o Campo de Marte é um dos aeroportos mais tradicionais do país.
Além da intensa movimentação da aviação executiva, abriga escolas de formação de pilotos, oficinas de manutenção, empresas de táxi aéreo e diversas atividades ligadas à aviação geral.
Ao longo de quase um século, milhares de pilotos iniciaram ali sua carreira antes de seguir para companhias aéreas, aviação agrícola, executiva, militar e operações especializadas.
Com a implantação do IFR, o aeroporto reforça sua posição como uma das principais bases da aviação geral brasileira e ganha condições para operar com maior regularidade ao longo do ano.
A mudança também chega ao solo
Os efeitos da implantação das operações por instrumentos não ficam restritos às aeronaves.
Novos procedimentos IFR exigem superfícies de proteção mais amplas para garantir a segurança das aproximações e decolagens. Isso influencia diretamente a análise de construções no entorno do aeroporto, especialmente empreendimentos de maior altura.
O tema já vem gerando debates entre autoridades aeronáuticas, órgãos públicos e o setor imobiliário, uma vez que futuras edificações poderão precisar atender às limitações impostas pela proteção do espaço aéreo.
O início de uma nova fase
A data prevista para o começo das operações por instrumentos é 15 de setembro. Entretanto, o verdadeiro significado dessa transformação vai muito além do calendário.
O avanço representa o fim de uma limitação que acompanhou o Campo de Marte durante praticamente toda a sua história.
Depois de quase cem anos convivendo com restrições provocadas pelas condições meteorológicas, o aeroporto entra em uma nova etapa. A expectativa, portanto, é oferecer mais segurança, regularidade e eficiência aos pilotos e operadores.
Ao mesmo tempo, a implantação do IFR fortalece a importância do Campo de Marte para a aviação brasileira. Afinal, mesmo cercado pelo crescimento de São Paulo, o aeroporto continua exercendo um papel difícil de substituir.
Agora, uma infraestrutura quase centenária começa a deixar para trás uma de suas limitações mais conhecidas. Dessa maneira, o Campo de Marte se prepara para escrever um novo capítulo de sua história.






