Voos por instrumentos no Campo de Marte geram disputa com construtoras
Os voos por instrumentos no Campo de Marte abriram uma nova disputa envolvendo construtoras, espaço aéreo e o futuro operacional da aviação paulista: o mercado imobiliário. Enquanto a concessionária Aena tenta avançar com o projeto de internacionalização do aeroporto, uma disputa silenciosa envolvendo o Campo de Marte começa a chamar atenção de autoridades, construtoras e especialistas em espaço aéreo.
Nos últimos dias, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) deixou claro que a implantação de voos por instrumento no Campo de Marte deve acontecer antes de qualquer avanço sobre operações internacionais em Congonhas. A declaração acendeu um alerta dentro do setor imobiliário da capital paulista, especialmente na Zona Norte da cidade.
Isso porque a implantação do IFR (Instrument Flight Rules), conhecido como voo por instrumentos, exige a criação de áreas de proteção aeronáutica mais rígidas. Na prática, isso pode limitar a altura de novos empreendimentos imobiliários próximos às rotas de aproximação e saída das aeronaves.
Além disso, a discussão acontece justamente em uma região que vive forte expansão imobiliária. Por isso, o debate deixou de ser apenas aeronáutico e passou a envolver bilhões de reais em futuros empreendimentos urbanos.

IFR no Campo de Marte pode mudar o espaço aéreo paulista
O principal objetivo da implantação do IFR no Campo de Marte é permitir operações mais seguras em condições meteorológicas adversas. Atualmente, o aeroporto possui limitações importantes em dias de baixa visibilidade, chuva intensa ou teto reduzido.
Com operações por instrumento, aeronaves executivas e helicópteros poderão operar com maior regularidade. No entanto, a mudança também aumenta a complexidade operacional do Terminal São Paulo, um dos espaços aéreos mais movimentados do país.
Hoje, Congonhas, Guarulhos e Campo de Marte compartilham uma mesma estrutura aérea relativamente compacta. Qualquer alteração operacional exige estudos técnicos detalhados sobre separação entre aeronaves, procedimentos de aproximação e fluxo de tráfego aéreo.
Segundo a própria Anac, a implantação do IFR no Campo de Marte pode influenciar diretamente futuras discussões sobre slots em Congonhas e até mesmo sobre a internacionalização do aeroporto paulista.
Enquanto isso, a Aena continua defendendo a ideia de criar operações internacionais de curta distância em Congonhas, com foco inicial em destinos do Cone Sul, como Buenos Aires, Montevidéu e Santiago.
Construtoras tentam barrar avanço das restrições aeronáuticas
A preocupação do mercado imobiliário está ligada às possíveis restrições de altura provocadas pelas novas superfícies de proteção aeronáutica. Essas áreas funcionam como corredores de segurança utilizados durante aproximações e decolagens por instrumentos.
Segundo reportagem do Estadão, construtoras já começaram a se mobilizar contra o avanço das novas limitações urbanísticas na região do Campo de Marte. O temor é que futuros prédios precisem reduzir altura ou até tenham projetos inviabilizados.
Além disso, incorporadoras argumentam que mudanças abruptas poderiam gerar impacto econômico significativo em áreas valorizadas da capital paulista.
Do outro lado, especialistas ligados à aviação defendem que a prioridade deve ser a segurança operacional. Afinal, procedimentos IFR exigem proteção rigorosa contra obstáculos urbanos, principalmente em uma cidade verticalizada como São Paulo.
A discussão também expõe um conflito antigo entre crescimento urbano e infraestrutura aeronáutica. Em várias cidades do mundo, aeroportos cercados por áreas urbanas acabam enfrentando disputas semelhantes envolvendo ruído, expansão imobiliária e limitações operacionais.
Congonhas internacional ainda depende de vários obstáculos
Embora a ideia de voos internacionais em Congonhas gere expectativa dentro do setor aéreo, o projeto ainda enfrenta diversos desafios técnicos e regulatórios.
Além da questão envolvendo o Campo de Marte, a operação internacional dependeria da atuação de órgãos como Polícia Federal, Receita Federal, Anvisa e Vigiagro dentro do aeroporto.
Outro ponto delicado envolve a capacidade operacional de Congonhas. O aeroporto já opera próximo do limite em diversos horários do dia. Por isso, parte do setor teme que a criação de rotas internacionais reduza slots domésticos e pressione ainda mais o valor das passagens aéreas.
Enquanto isso, a implantação do IFR no Campo de Marte começa a mostrar que o futuro da aviação paulista não depende apenas de pistas e terminais. Em São Paulo, a disputa também acontece no céu e no mercado imobiliário.





