Casarão da Aéropostale chega abandonado às vésperas do centenário em Florianópolis

Jota

5 de julho de 2026

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O Casarão Aéropostale, também conhecido como Casa de Pilotos ou “Popote”, no bairro Campeche, em Florianópolis (SC), atravessa um dos momentos mais preocupantes de sua história. Pichado, com sinais evidentes de deterioração e praticamente abandonado, o imóvel histórico chega às vésperas do centenário da presença da Aéropostale na capital catarinense cercado por incertezas sobre seu futuro.

A situação chama a atenção justamente porque o prédio representa um dos mais importantes patrimônios da aviação brasileira e internacional. Em 2027, serão completados 100 anos da implantação da escala da Aéropostale em Florianópolis. No entanto, em vez de celebrar a data com um espaço restaurado e aberto ao público, cresce o receio de que um dos últimos testemunhos físicos dessa epopeia da aviação continue se deteriorando.

Monumento-Historico-Casa-do-Piloto-abandonada-no-bairro-do-Campeche-em-Florianopolis_Imagem-Aviacao-em-Floripa
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A história do casarão começa muito antes de sua construção. Logo após o fim da Primeira Guerra Mundial, o empresário francês Pierre-Georges Latécoère idealizou uma ousada linha aérea para transportar correspondências entre a França e a África.

Em 1927, o empresário Marcel Bouilloux-Lafont assumiu o controle da empresa e criou a Aéropostale, expandindo a rota até a América do Sul. A nova linha passou a ligar a França ao Chile, com escalas em diversos países, incluindo o Brasil.

Cada ponto de apoio contava com infraestrutura para atender pilotos e mecânicos. Além dos hangares, havia oficinas, estações telegráficas e alojamentos destinados às tripulações. Em Florianópolis, essa estrutura ficou conhecida como Casa de Pilotos da Aéropostale.

Rota-da-Aeropostade-da-Franca-ate-o-Brasil-passando-por-Florianopolis_Imagem-Aviacao-em-Floripa
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O casarão recebeu alguns dos maiores nomes da aviação

Muito mais do que um simples alojamento, o imóvel tornou-se ponto de passagem de aviadores que ajudaram a escrever alguns dos capítulos mais importantes da história da aviação mundial.

Entre eles estavam Jean Mermoz, Henri Guillaumet e Antoine de Saint-Exupéry, piloto da Aéropostale que anos depois conquistaria reconhecimento internacional como autor de O Pequeno Príncipe.

A presença de Saint-Exupéry em Florianópolis permanece viva na memória dos moradores mais antigos do Campeche. Segundo a tradição local, os pescadores da região tinham dificuldade para pronunciar seu sobrenome francês e passaram a chamá-lo carinhosamente de “Zeperri”, apelido que atravessou gerações e tornou-se parte da identidade cultural do bairro.

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Durante muitos anos, pesquisadores dedicados à preservação da memória da aviação destacaram que a Casa de Pilotos do Campeche era considerada uma das edificações mais bem preservadas de toda a antiga rota da Aéropostale, que ligava a França ao Chile.

Ao longo desse percurso existiam dezenas de bases de apoio espalhadas pela Europa, África e América do Sul. Com o passar das décadas, grande parte dessas construções desapareceu.

A unidade de Florianópolis, entretanto, preservou boa parte de suas características arquitetônicas originais e transformou-se em uma importante referência histórica para pesquisadores brasileiros e estrangeiros interessados na trajetória da aviação postal.

Monumento-Historico-Casa-do-Piloto-abandonada-no-bairro-do-Campeche-em-Florianopolis_Imagem-Aviacao-em-Floripa-3.
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Reconhecendo sua importância histórica, a Prefeitura de Florianópolis tombou o imóvel como Patrimônio Histórico Municipal em 2014.

Na época, pesquisadores e moradores comemoraram a decisão. Afinal, muitos defendiam a transformação do local em um memorial ou museu dedicado à Aéropostale e à história da aviação no Sul do Brasil.

Entretanto, mais de uma década depois, a realidade encontrada no local preocupa. As pichações, a degradação da fachada e a ausência de um projeto efetivo de restauração contrastam com a relevância histórica do imóvel.

Além disso, a proximidade do centenário da presença da Aéropostale no Campeche reforça uma sensação incômoda. Um patrimônio único pode seguir perdendo espaço para o abandono.

Esta reportagem foi produzida a partir das informações enviadas ao site AeroJota, pelo nossos leitores. Além disso, teve como base o importante trabalho de pesquisa desenvolvido pelo portal Aviação em Floripa.

Há anos, o Aviação em Floripa documenta a presença da Aéropostale em Florianópolis, a história do Casarão dos Pilotos e a relação de Antoine de Saint-Exupéry com o bairro Campeche.

Suas reportagens reúnem documentos históricos, fotografias, depoimentos e registros que ajudam a compreender a importância desse patrimônio para a aviação brasileira e mundial.

Por isso, o site AeroJota reconhece e valoriza esse trabalho de pesquisa e divulgação. Ele serviu como importante referência histórica para a elaboração desta reportagem.

Para quem deseja conhecer esse capítulo da aviação em maior profundidade, recomendamos a leitura das reportagens especiais Das aulas de francês para o céu: um voo pela história da Aéropostale e Visitamos a exposição O Diário de Zeperri, publicadas pelo portal Aviação em Floripa.

Exposicao-em-homenagem-ao-Aviador-e-Escritor-Antoine-de-Saint-Exupery_Imagem-Aviacao-em-Floripa
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Em 2027, a antiga Casa de Pilotos da Aéropostale completará um século como parte da história da aviação em Florianópolis.

Mais do que celebrar a passagem de grandes aviadores franceses pelo bairro Campeche, o centenário representa uma oportunidade. Ele pode renovar o debate sobre a preservação desse patrimônio.

Afinal, monumentos históricos não preservam apenas paredes e telhados. Eles também mantêm viva a memória das pessoas, das tecnologias e das histórias que ajudaram a construir a aviação moderna.

Ainda há tempo para que o centenário da Aéropostale em Florianópolis seja lembrado de outra forma. Não pelo avanço do abandono, mas pelo início de um projeto de restauração capaz de preservar esse marco da aviação postal nas Américas.

Monumento-aos-Pioneiros-da-Aviacao-no-bairro-do-Campeche-em-Florianopolis_Imagem-Marcelo-Lobo
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