Comandos travados após a decolagem / Aviador José Passarelli

Jota A
18 de novembro de 2023
O medo comanda a vida
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O medo comanda a vida.

Comandos travados após a decolagem.

Vou relatar agora, uma decolagem em Forte Coimbra-MS na último sábado às 6 horas da manhã, o dia ainda não estava totalmente claro: o avião era um Cessna 310-EUA bimotor, estava estacionado e com os calços na parte da frente e de trás da roda dianteira. Fiz a inspeção externa e tirei apenas o calço da frente. Dei partida nos motores e iniciei o táxi para a cabeceira do Rio Paraguai 024 no azimute magnético, checando os comandos. Todos os comandos estavam livres e correspondentes, ponteiros no verde, apliquei então um dente de flape. Checklist completo antes da decolagem, levei o comando de aceleração para o esbarro, todo a frente, o motor roncava alto e o eco era imenso devido aos morros, atingindo 90 nós trouxe para o peito o manche com parcimônia, e o avião abandonou o solo de Forte Coimbra tomando a proa de 17° rumo a Corumbá-MS.

A decolagem foi normal até o comando de trem de pouso ser acionado para seu recolhimento, quando de repente escutei um barulho estranho e o avião começou a cabrar (subir) contra todo meu esforço para baixar o nariz: manche à frente e compensador todo picado (descer)- sem resultado algum! O avião continuava subindo e aumentando a inclinação em relação ao horizonte. Naquele momento pensei em baixar o trem de pouso para tentar estabilizá-lo. Quando comandei trem em baixo, o avião começou a picar (descer) violentamente em direção às grandes árvores que existiam junto à pista e próximas aos morrotes, pois o compensador estava todo picado (p/ baixo). Pensei: – Será que estou fazendo meu último voo…?

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Consegui com muita dificuldade voar rente às árvores e após compensar o profundor, notei que os comandos estavam normais. Prossegui então para o pouso normal na mesma cabeceira, apenas efetuando o giro de 180°, com pouca inclinação e com atitude mínima no ângulo de ataque. No solo, verifiquei que o calço esquecido atrás da roda dianteira tinha descolado o pequeno pára-lama para o lado direito. Com o respectivo recolhimento do trem, o pára-lama forçou o contra-peso do manche existente no nariz, no sentido de cabrar (subir) ocasionando todo o incidente linhas acima. Retirei o pára-lama e prossegui viagem para Corumbá-MS sem problemas.

Se não coloco o trem em baixo, mesmo sem saber o que ocorria, certamente não estaria contando hoje esta minha experiência. Espero que sirva de aprendizado aos meus colegas, pilotos do fantástico Cessa 310-USA.

Como dizia o Brigadeiro Eduardo Gomes,’em aviação só o perfeito é correto’!

Eu estava com a cabeça boa naquela manhã…!

Tive medo; não pânico…!

Medo salva….! Pânico mata…!

Leia o avião; pilote o Manual!

Fique vivo; voe padrão cmte!

Avião não admite erro.

Nunca deixe que um avião leve você para um local onde sua mente não tenha chegado sete minutos antes.

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Aviador José Passarelli

Engenheiro Cívil
Professor Universitário
Instrutor de Navegação Aérea
Teoria de VooAerodinâmica em Voo em Escolas de Aviação Civil

Escreve voluntariamente para o site AeroJota.