Por que os aeroclubes estão perdendo espaço nos aeroportos? Nova regra ajuda a entender essa mudança

Jota

30 de junho de 2026

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Quando uma concessionária assume a administração de um aeroporto, uma das primeiras perguntas costuma surgir entre pilotos, empresários e frequentadores da aviação geral: por que os contratos de 75 anos em aeroportos passaram a ser tão importantes na disputa por determinadas áreas? Em alguns casos, aeroclubes enfrentam dificuldades para renovar contratos ou permanecem sob pressão para desocupar espaços que ocupam há décadas.

Embora cada situação tenha suas particularidades, uma mudança silenciosa nas regras pode ajudar a entender esse cenário. O Governo Federal passou a permitir, em determinadas condições, contratos de exploração comercial com prazo que pode chegar a 75 anos, mesmo quando a concessão do aeroporto é menor. A medida busca atrair novos investimentos, mas também reacendeu o debate sobre o futuro das áreas aeroportuárias.

 Por que os aeroclubes estão perdendo espaço nos aeroportos_Imagem Ilustrativa
Por que os aeroclubes estão perdendo espaço nos aeroportos_Imagem Ilustrativa

Durante muitos anos, a principal fonte de receita de um aeroporto vinha das operações aeronáuticas, como tarifas de embarque, pousos, permanência de aeronaves e movimentação de cargas.

Esse modelo, entretanto, mudou significativamente. Hoje, operadores aeroportuários em diversas partes do mundo buscam ampliar as chamadas receitas não aeronáuticas, reduzindo a dependência da movimentação de aviões.

Na prática, muitos aeroportos deixaram de ser apenas locais de embarque e desembarque para se transformar em verdadeiros centros de negócios. Hotéis, restaurantes, estacionamentos, centros logísticos, edifícios corporativos e grandes empreendimentos comerciais passaram a integrar o planejamento de diversos terminais. Um exemplo dessa tendência pode ser observado no Aeroporto Internacional de Brasília, onde está em desenvolvimento um complexo comercial voltado a ampliar as receitas além das atividades aeronáuticas.

Foi justamente para estimular investimentos desse porte que o Governo Federal publicou a Portaria MPor nº 548/2025, permitindo, em determinadas situações, contratos comerciais com prazo de até 75 anos, mesmo quando a concessão do aeroporto possui duração menor. O objetivo é oferecer segurança jurídica para empreendimentos que demandam grandes investimentos e longo prazo para retorno financeiro.

Essa transformação mudou a forma como operadores aeroportuários enxergam o sítio aeroportuário.

Um terreno usado por hangares, oficinas ou áreas de apoio pode virar alvo de outro tipo de projeto. Além disso, grandes empreendimentos exigem contratos longos, já que o investidor precisa de tempo para recuperar o dinheiro aplicado.

Foi nesse contexto que surgiu a Portaria MPor nº 548/2025. A norma permite que determinados contratos comerciais ultrapassem o prazo da própria concessão do aeroporto, desde que cumpram requisitos específicos e recebam autorização do Governo Federal.

Na prática, a regra procura dar segurança jurídica a projetos de longo prazo. Assim, hotéis, centros logísticos, shoppings, restaurantes e outros negócios podem encontrar mais espaço dentro dos aeroportos brasileiros.

O que significa um contrato de até 75 anos?

Esse talvez seja o ponto que mais desperta dúvidas.

Imagine que uma concessionária administre um aeroporto por 30 anos. Pela nova regra, ela poderá firmar alguns contratos comerciais com prazo superior ao da própria concessão. Em determinados casos, esse prazo pode chegar a 75 anos.

No entanto, isso não significa que a concessionária continuará recebendo aluguel depois que deixar o aeroporto.

A regulamentação prevê mecanismos para transferir esses contratos ao futuro operador aeroportuário. Portanto, se a concessão terminar ou mudar de mãos, o contrato comercial poderá seguir em vigor, mas sob responsabilidade de quem assumir a administração do terminal.

Desse modo, o investidor ganha previsibilidade. Ao mesmo tempo, o aeroporto evita a interrupção de uma atividade econômica já instalada.

E onde entram os aeroclubes nessa discussão?

A nova Portaria não determina a retirada de aeroclubes nem altera automaticamente contratos já existentes.

Em diversos aeroportos, a discussão vai além da ocupação de um terreno. Ela envolve instituições centenárias ou quase centenárias que contribuíram para a formação de milhares de pilotos brasileiros e para o desenvolvimento da aviação geral, muito antes do atual modelo de concessões aeroportuárias.

Mesmo assim, ela reacendeu um debate importante dentro da aviação geral.

Em muitos aeroportos brasileiros, os aeroclubes ocupam áreas amplas utilizadas para hangares, oficinas, escolas de formação e estacionamento de aeronaves. Essas instalações contribuíram para formar gerações de pilotos e fazem parte da história da aviação nacional.

Por outro lado, sob a ótica econômica de uma concessionária, o mesmo espaço pode representar uma oportunidade para ampliar receitas com outros empreendimentos.

Isso ajuda a explicar por que conflitos envolvendo uso de áreas aeroportuárias se tornaram mais frequentes nos últimos anos. No entanto, cada caso possui características próprias e depende dos contratos vigentes, das condições da concessão e das necessidades operacionais de cada aeroporto.

A nova regulamentação busca estimular investimentos privados e fortalecer a exploração comercial dos aeroportos brasileiros. Essa estratégia acompanha uma tendência internacional, na qual receitas obtidas fora da atividade aeronáutica passaram a desempenhar papel cada vez mais importante na sustentabilidade financeira dos terminais.

Ao mesmo tempo, a mudança desperta uma reflexão importante.

Como definir hoje a ocupação de determinadas áreas pelos próximos 50 ou 75 anos, se ninguém consegue prever exatamente como será a aviação brasileira nas próximas décadas?

Esse debate também envolve instituições que fazem parte da própria história da aviação nacional.

Em muitos aeroportos brasileiros, os aeroclubes chegaram muito antes das atuais concessionárias privadas. Em diversos casos, essas entidades já funcionavam antes mesmo da criação da Infraero, em 1973, e da própria ANAC, criada apenas em 2005. Durante décadas, mantiveram escolas de aviação, formaram pilotos civis e militares, preservaram a cultura aeronáutica e ajudaram a manter viva a atividade aérea em aeroportos regionais quando o movimento comercial era reduzido.

Por isso, muitos profissionais do setor defendem que os aeroclubes não sejam vistos apenas sob a ótica do valor comercial do terreno que ocupam. Embora o desenvolvimento econômico dos aeroportos seja necessário, essas instituições também representam um patrimônio histórico e estratégico para a aviação brasileira. Encontrar um equilíbrio entre a expansão comercial e a preservação dos aeroclubes poderá ser um dos grandes desafios da aviação nacional nos próximos anos.

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