Helicóptero lança santinhos sobre manifestação na Paulista: onde está a autorização da ANAC?

Helicóptero lança santinhos na Paulista
Jota A
10 de setembro de 2026

Um helicóptero lança santinhos na Paulista durante a manifestação de 7 de Setembro, em São Paulo, e as imagens rapidamente ganham as redes sociais. Uma grande quantidade de material de campanha eleitoral é despejada sobre os participantes.

As imagens ganharam as redes sociais e provocaram forte reação. Além da evidente provocação política — os panfletos promoviam candidatos ligados à esquerda durante um ato convocado pela direita —, o episódio levanta uma questão mais grave:

onde está a autorização da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) para esse lançamento?

Helicóptero lançou santinhos na Paulista durante manifestação 2
Helicóptero lançou santinhos na Paulista durante manifestação 2

As imagens mostram como o helicóptero lança santinhos na Paulista, com o material sendo espalhado durante o voo.

Apesar da repercussão, até o momento não foram divulgados publicamente a matrícula e o modelo do helicóptero, nem a identidade do piloto em comando.

O AeroJota também pesquisou essas informações, mas não encontrou dados oficiais que permitam identificar com segurança a aeronave e seu comandante.

RBAC 91 exige autorização prévia

O Regulamento Brasileiro da Aviação Civil possui uma regra específica sobre o assunto.

O RBAC 91.15, que trata de lançamento de objetos, estabelece que o piloto em comando de uma aeronave civil somente pode permitir esse tipo de operação quando ela estiver previamente autorizada pela ANAC.

A exceção prevista é para situações de comprovada emergência.

No caso registrado na Avenida Paulista, tratava-se de uma ação planejada de distribuição de material eleitoral.

Por isso, a pergunta é objetiva:

qual foi a autorização prévia concedida pela ANAC para essa operação?

Até a publicação desta reportagem, o AeroJota não encontrou documento público da Agência autorizando especificamente esse lançamento.

Isso não significa afirmar que a autorização não exista. Significa que ela ainda não foi apresentada publicamente.

Outro ponto chama atenção.

O próprio RBAC 91 contempla operações envolvendo lançamento de objetos de aeronaves sobre pessoas, remetendo aos requisitos estabelecidos na seção 91.15.

Ou seja, não se trata de uma situação irrelevante para a regulamentação aeronáutica.

Naquele momento, havia uma grande concentração de pessoas na Avenida Paulista.

A fiscalização das operações com helicópteros também ganhou destaque recentemente no Rio de Janeiro, onde o AeroJota mostrou o reforço da fiscalização dos voos panorâmicos após questionamentos envolvendo o cumprimento das regras.

O RBAC 91.15 coloca expressamente o piloto em comando no centro da regra.

Não importa apenas quem contratou o helicóptero, quem estava com os panfletos ou qual candidato seria beneficiado.

É o piloto em comando quem somente pode permitir o lançamento quando existir autorização prévia da ANAC.

Por isso, a identidade do comandante passou a ser informação relevante para a apuração.

Até agora, porém, seu nome não foi divulgado oficialmente.

Também não foi localizada informação pública sobre eventual procedimento de fiscalização aberto pela ANAC após a divulgação das imagens.

Helicóptero lança santinhos na Paulista
Helicóptero lança santinhos na Paulista

O episódio ainda pode gerar questionamentos na Justiça Eleitoral.

O caso da Avenida Paulista, entretanto, ocorreu em 7 de Setembro e possui circunstâncias diferentes dos precedentes mais conhecidos.

Por isso, eventual enquadramento como propaganda eleitoral irregular dependerá da análise da Justiça Eleitoral.

No aspecto aeronáutico, porém, a exigência prevista no RBAC 91.15 é objetiva: o lançamento depende de autorização prévia da ANAC.

Diante das imagens, algumas perguntas precisam ser respondidas.

Qual aeronave realizou a operação?

Quem era o piloto em comando?

Quem solicitou o lançamento dos panfletos?

Qual foi o número do processo ou documento que autorizou a operação?

Quais condições foram estabelecidas para o lançamento sobre uma área com grande concentração de pessoas?

E, caso a autorização prévia não existisse, quais providências serão adotadas pela ANAC?

A repercussão ganhou ainda um componente político.

Publicações nas redes passaram a questionar se a ANAC investigará e eventualmente punirá o piloto, mencionando que o atual diretor-presidente da Agência, Tiago Chagas Faierstein, chegou ao cargo após indicação realizada durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A origem da indicação é pública, mas isso não permite concluir antecipadamente que haverá interferência ou tratamento diferenciado.

A resposta deverá vir da atuação da própria Agência.

Se havia autorização para o lançamento, a ANAC pode apresentar o documento e esclarecer as condições da operação.

Se não havia, cabe informar quais medidas serão adotadas diante de um episódio registrado em vídeo e de uma regra expressa do RBAC 91.

A provocação política explica parte da repercussão, mas não pode esconder a questão principal.

Material de candidatos ligados à esquerda foi lançado sobre participantes de uma manifestação da direita.

Isso gerou indignação e debate político.

Mas aeronaves utilizadas em ações políticas continuam submetidas às mesmas normas aplicáveis a qualquer operação aérea no Brasil.

Direita, esquerda ou qualquer outro grupo político precisa cumprir os regulamentos da aviação civil.

O AeroJota continuará acompanhando o caso e atualizará esta reportagem caso sejam divulgados a matrícula e o modelo do helicóptero, a identidade do piloto em comando ou a autorização da ANAC para o lançamento realizado sobre a Avenida Paulista.

Jota A, é Veterano da Força Aérea Brasileira, Aviador, Motociclista e Empresário. Escreve sobre aviação há 10 anos.