Os aeroclubes não estão fechando porque querem. E se todos desaparecerem?

Jota

26 de maio de 2026

Os aeroclubes não estão fechando porque querem_Imagem Ilustrativa

Os aeroclubes não estão fechando porque querem. E se todos desaparecerem? A pergunta pode parecer distante para quem nunca sonhou em ser piloto, nunca entrou em uma escola de aviação e só quer comprar uma passagem aérea, embarcar com segurança e chegar ao destino. Entretanto, existe uma engrenagem invisível por trás de cada voo comercial, agrícola, executivo, policial ou aeromédico. Antes de um comandante assumir uma aeronave maior, alguém precisou ensiná-lo a voar em uma aeronave menor.

O problema é que essa base está sendo enfraquecida diante dos olhos de todos. O Brasil não está apenas correndo o risco de ficar sem aeroclubes no futuro. O país já assiste, hoje, a um processo gradual de expulsão, fechamento e enfraquecimento dessas instituições. Em muitos casos, a pressão vem justamente de quem deveria proteger a infraestrutura aeronáutica: concessionárias, Infraero, prefeituras e gestores públicos.

Os aeroclubes não estão fechando porque querem_Imagem Ilustrativa
Os aeroclubes não estão fechando porque querem_Imagem Ilustrativa

Atualmente, o Brasil tem cerca de metade dos aeroclubes que existiam há 25 anos. Além disso, 37 aeroclubes foram fechados, despejados ou estão em vias de serem retirados de suas instalações por concessionárias, Infraero e prefeituras. O número, por si só, já deveria provocar uma pergunta incômoda: isso ainda pode ser tratado como coincidência ou o país está assistindo a um desmonte progressivo da aviação de base?

O Aeroclube de São Paulo, no Campo de Marte, já perdeu parte de sua estrutura histórica e segue ameaçado em uma disputa que pode afetar uma das formações aeronáuticas mais tradicionais do país.. Marília, no interior paulista, virou símbolo da disputa entre formação aeronáutica e novos interesses sobre áreas aeroportuárias. Canela, no Rio Grande do Sul, enfrenta pressão mesmo carregando décadas de tradição. Guaratinguetá, Taubaté, Pindamonhangaba e o Aeroclube do Amazonas, único da região Norte, também aparecem nesse cenário de instituições despejadas e fechadas

Quando um aeroclube fecha, o Brasil não perde somente uma sala de aula, um hangar antigo ou aviões de instrução. Perde documentos, fotografias, troféus, diários de bordo, histórias de famílias, eventos aéreos e uma memória que dificilmente volta depois que desaparece. Também perde a presença da aviação dentro das cidades, justamente onde muitas crianças descobriram o primeiro encantamento por aviões.

Esse apagamento atinge até quem não percebe. Sem aeroclubes, diminuem os eventos aéreos, desaparecem encontros aeronáuticos e enfraquece a cultura que aproxima o público da aviação. Aos poucos, o avião deixa de ser parte da vida da cidade e vira apenas algo distante, restrito aos aeroportos comerciais, às passagens caras e às operações que o cidadão comum só enxerga pela janela do terminal.

Talvez muita gente só perceba o problema quando ele chegar ao próprio bolso ou à própria viagem. Afinal, o passageiro que hoje compra uma passagem não pergunta onde aquele piloto começou sua formação. Ele apenas entra no avião, afivela o cinto e espera que exista uma tripulação preparada na cabine. Porém, se a base de formação for destruída, essa tranquilidade pode custar muito mais caro no futuro.

As Forças Armadas formam pilotos, mas não existem para abastecer sozinhas toda a aviação civil brasileira. A aviação comercial, executiva, agrícola, aeromédica, policial e regional precisa de uma cadeia permanente de novos profissionais. Quando os aeroclubes enfraquecem, essa cadeia perde força desde o primeiro degrau. Primeiro, diminuem os alunos. Depois, faltam instrutores. Em seguida, reduzem-se as horas de voo. Com menos experiência acumulada, faltam pilotos preparados. Por fim, toda a aviação sente o impacto.

O custo de destruir a base pode chegar ao passageiro

Se faltar piloto nacional no futuro, alguém precisará preencher essa lacuna. As companhias aéreas buscariam profissionais estrangeiros? Pagariam salários mais altos para atrair tripulações de fora? Esses custos seriam absorvidos pelas empresas ou repassados às passagens, ao frete aéreo e aos serviços que dependem da aviação? A pergunta incomoda, mas precisa ser feita antes que o problema vire conta.

O Brasil pode acabar criando uma contradição difícil de explicar. De um lado, moderniza aeroportos, amplia áreas comerciais e vende a ideia de eficiência. Do outro, permite que a estrutura responsável por formar pilotos desapareça aos poucos. Nesse cenário, aeroportos podem até ficar mais bonitos, mais rentáveis e mais atraentes para negócios imobiliários. Mas quem vai operar as aeronaves que deveriam justificar a existência desses aeroportos?

A discussão fica ainda mais séria quando o país fala em eVTOLs, aeronaves elétricas de pouso e decolagem vertical tratadas como uma das promessas da mobilidade urbana. O discurso do futuro parece bonito: viagens rápidas, menos trânsito, tecnologia nacional e novas rotas dentro das grandes cidades. Entretanto, existe uma pergunta que quase ninguém coloca no centro do debate: quem vai pilotar essas aeronaves?

Mesmo com novas tecnologias, a aviação continuará exigindo cultura aeronáutica, disciplina operacional, consciência de espaço aéreo, procedimentos de decolagem, voo, aproximação e pouso. Esses fundamentos não surgem em aplicativos, apresentações comerciais ou discursos sobre inovação. Eles nascem na formação básica. Se o Brasil desmontar os aeroclubes agora, talvez descubra depois que tentou construir o transporte aéreo do futuro enquanto destruía a escola que formaria seus futuros pilotos.

O mais preocupante é que esse movimento não parece atingir apenas uma instituição ou uma cidade. Ele aparece em diferentes regiões, com diferentes administradores e justificativas parecidas. Primeiro, aumenta-se o custo. Depois, restringe-se o espaço. Em seguida, questiona-se a permanência. Por fim, uma instituição histórica é fechada e o país trata tudo como simples reorganização administrativa.

Mas talvez não seja reorganização. Talvez seja desmonte. E, se for desmonte, a pergunta precisa ser feita com clareza: quem ganha com o enfraquecimento dos aeroclubes? Quem se beneficia quando áreas aeroportuárias deixam de servir à formação aeronáutica e passam a interessar mais como espaços comerciais, eventos, empreendimentos ou projetos imobiliários?

A pergunta final talvez seja a mais incômoda. Caso os aeroclubes desapareçam, para quem continuarão existindo tantos órgãos, regras, estruturas e discursos sobre desenvolvimento da aviação? Para quem existirão aeroportos regionais sem formação de base? E qual será o sentido de falar em crescimento se o país não preservar quem forma pilotos desde o primeiro voo?

O Brasil pode continuar tendo pistas, hangares e terminais. Além disso, pode continuar falando em inovação, concessões, mobilidade aérea urbana e crescimento do setor. Entretanto, se permitir que os aeroclubes desapareçam, talvez descubra tarde demais que estava preservando prédios enquanto destruía a nascente da aviação brasileira.

E quando o último aeroclube fechar, talvez o Brasil finalmente perceba o tamanho do problema.