Piloto que salvou 155 vidas no Rio Hudson revela diagnóstico de Alzheimer e volta a inspirar a aviação
O comandante Chesley “Sully” Sullenberger, conhecido mundialmente como o piloto do “Milagre do Hudson”, voltou aos noticiários nesta semana após revelar um diagnóstico de Alzheimer em estágio inicial. Aos 75 anos, o norte-americano enfrenta agora um desafio muito diferente daquele que o transformou em um dos nomes mais admirados da história da aviação.
Mesmo diante da notícia, Sully afirmou que pretende continuar cumprindo a missão assumida após o histórico pouso de emergência no Rio Hudson: contribuir para a segurança da aviação e ajudar outras pessoas.
A declaração repercutiu rapidamente em diversos países. Afinal, Sully não é lembrado apenas pelo episódio de janeiro de 2009. Para profissionais da aviação, seu nome se tornou referência mundial em gerenciamento de recursos de cabine, conhecido como CRM. Além disso, sua trajetória representa um dos maiores exemplos de tomada de decisão sob pressão e treinamento de pilotos.

O piloto que entrou para a história da aviação
Em 15 de janeiro de 2009, o Airbus A320 que operava o voo US Airways 1549 decolou do Aeroporto LaGuardia, em Nova York, com destino a Charlotte.
Pouco mais de um minuto após a decolagem, a aeronave colidiu com um grande bando de gansos-canadenses. O impacto provocou a perda de potência dos dois motores, deixando o avião praticamente sem capacidade de propulsão.
Em poucos segundos, Sully e o primeiro-oficial Jeff Skiles precisaram decidir entre tentar retornar ao aeroporto ou realizar um pouso forçado em outro local.
Após avaliar rapidamente a altitude disponível, o desempenho da aeronave e o tempo restante, Sully concluiu que retornar à pista seria inviável. A alternativa escolhida foi pousar nas águas do Rio Hudson, em Manhattan.
A manobra foi executada com precisão e permitiu que as 155 pessoas a bordo sobrevivessem. O episódio passou a ser conhecido mundialmente como o “Milagre do Rio Hudson” e permanece até hoje como um dos maiores exemplos de pilotagem em situação extrema.
A investigação confirmou que a decisão foi correta
Logo após o acidente, surgiram questionamentos sobre a possibilidade de o comandante ter retornado ao Aeroporto LaGuardia.
Entretanto, a investigação conduzida pelas autoridades norte-americanas demonstrou que as simulações que conseguiam voltar ao aeroporto consideravam pilotos preparados previamente para a emergência.
Quando os testes passaram a incluir o tempo real necessário para reconhecer a pane, analisar as opções e iniciar as manobras, praticamente todas as tentativas terminaram em acidente antes da pista.
As conclusões reforçaram que a decisão tomada por Sully foi a mais segura diante das circunstâncias enfrentadas naquela tarde, consolidando o episódio como um caso de estudo em cursos de formação de pilotos em todo o mundo.
A experiência adquirida nos planadores também pode ter contribuído para o desfecho do voo 1549.
Ainda como cadete da Academia da Força Aérea dos Estados Unidos, Sully foi selecionado para o programa de voo em planadores e, posteriormente, tornou-se instrutor dessa modalidade. Sem potência nos dois motores, o Airbus A320 passou a se comportar, na prática, como um enorme planador de aproximadamente 75 toneladas. Embora o próprio comandante atribua o sucesso à combinação de treinamento, experiência e trabalho em equipe, especialistas em voo a vela observam que a formação em planadores desenvolve habilidades fundamentais para administrar energia, altitude e velocidade durante um voo sem propulsão.
Muito além daquele pouso
Depois de se aposentar da aviação comercial, Sully continuou participando ativamente dos debates sobre segurança operacional.
Ao longo dos últimos anos, tornou-se defensor de treinamentos mais rigorosos para pilotos, maior utilização de simuladores e preservação dos elevados padrões de formação profissional.
Em 2019, por exemplo, prestou depoimento ao Congresso dos Estados Unidos durante as discussões sobre os acidentes envolvendo o Boeing 737 MAX. Na ocasião, defendeu que todos os pilotos recebessem treinamento obrigatório em simulador antes de operar a aeronave, posição que acabou influenciando mudanças regulatórias posteriormente adotadas pelas autoridades norte-americanas.
Posteriormente, também exerceu a função de embaixador dos Estados Unidos junto à Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO), mantendo sua atuação em temas ligados à segurança da aviação.

O diagnóstico de Alzheimer
Em comunicado divulgado nesta semana, Sully informou que recebeu o diagnóstico de Alzheimer em estágio inicial.
Segundo o comandante, ele percebeu alterações na memória ao longo do último ano. Alguns nomes, por exemplo, passaram a surgir com menos facilidade. Além disso, Sully notou que poderia repetir histórias sem perceber.
O piloto também relatou mudanças na qualidade do sono.
Atualmente, o neurologista Gil Rabinovici acompanha seu tratamento no UCSF Medical Center. A instituição está entre os principais centros de pesquisa sobre Alzheimer nos Estados Unidos.
Sully afirmou ainda que já iniciou um tratamento especializado.
Continuar servindo às pessoas
Talvez a parte mais marcante do comunicado não seja o diagnóstico. Na verdade, o principal destaque está na razão que levou Sully a tornar a informação pública.
Durante a vida, o comandante atuou como piloto da Força Aérea dos Estados Unidos e comandante de companhia aérea. Além disso, trabalhou com investigação de acidentes, diplomacia e defesa da segurança operacional.
Agora, Sully acredita que poderá continuar ajudando outras pessoas. Para isso, pretende falar abertamente sobre a doença e contribuir com a conscientização sobre o Alzheimer.
Ao recordar o voo 1549, o comandante mencionou uma mensagem que costuma repetir. Segundo ele, a coragem pode se espalhar entre as pessoas.
Por fim, Sully afirmou que precisará dessa mesma coragem para enfrentar a nova fase de sua vida.
A declaração representa mais um capítulo na trajetória de um piloto que salvou 155 pessoas no Rio Hudson. Mesmo tantos anos depois daquele pouso, Sully continua entre as vozes mais respeitadas da aviação mundial.






