Por que a Prefeitura quer reduzir a área do Aeroclube de Tatuí antes da concessão?

Redução da área do Aeroclube de Tatuí antes da concessão
Jota A
4 de setembro de 2026

A redução da área do Aeroclube de Tatuí (SP), acontece em um momento decisivo para o futuro do Aeródromo Municipal Dr. Octávio Guedes de Moraes. Enquanto a Prefeitura prepara a concessão do local à iniciativa privada, a entidade poderá ter sua estrutura limitada a aproximadamente 10 mil metros quadrados.

Na quinta-feira, dia 3 de Setembro 2026, o site AeroJota mostrou que o Aeroclube recebeu prazo de 30 dias para desocupar hangares e outras instalações situadas fora do novo perímetro estabelecido pelo Município.

Segundo informações obtidas pelo AeroJota junto a fontes ligadas à instituição, dos nove hangares utilizados atualmente, apenas três permaneceriam dentro da área delimitada. Os outros seis, além de outras instalações, teriam de ser desocupados.

A questão, porém, vai além da perda imediata de espaço. Uma lei sancionada em 2025 assegurou ao Aeroclube, durante a futura concessão, o uso das “instalações e hangares atualmente utilizados”.

É justamente a redução da área antes da chegada de uma concessionária que coloca essa garantia no centro da discussão.

Aeroclube-de-Tatui-pode-perder-seis-hangares-antes-da-concessao
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Fundado formalmente em 18 de dezembro de 1943, o Aeroclube de Tatuí completa 83 anos em 2026.

Segundo fontes ligadas ao aeroclube ouvidas pelo AeroJota, os nove hangares e outras instalações hoje utilizados foram construídos ao longo dessas décadas com recursos do próprio Aeroclube.

Portanto, a determinação não representa apenas deixar de utilizar uma determinada porção de terreno. Para a entidade, significa abrir mão de parte de uma infraestrutura na qual afirma ter investido recursos próprios durante sua história.

A Notificação nº 004/2026 – GAM/AeroTatui não apresenta numericamente a divisão entre nove e três hangares. O documento, entretanto, delimita aproximadamente 10 mil metros quadrados para o Aeroclube, abrangendo as instalações entre a sala de briefing e o Hangar 03, e determina a desocupação das estruturas situadas fora desse perímetro.

Em 11 de junho de 2025, foi sancionada a Lei Municipal nº 6.055, que autorizou a concessão do aeródromo à iniciativa privada.

A legislação permite que a futura concessionária assuma a administração, operação, manutenção e exploração comercial do aeroporto.

Mas o próprio texto criou uma garantia específica para o Aeroclube.

O §2º do artigo 1º determina que, durante a vigência da concessão, deverá ser assegurado à entidade o uso das “instalações e hangares atualmente utilizados” para o desenvolvimento de suas atividades, sem contraprestação financeira à concessionária.

Quando a lei foi sancionada, segundo as informações reunidas pelo AeroJota, o Aeroclube utilizava os nove hangares e outras estruturas que havia construído ao longo de sua presença no aeródromo.

Agora, antes de a futura concessão começar, a Prefeitura determinou uma nova delimitação para a área da entidade.

Aeroclube-de-Tatui-pode-perder-seis-hangares-antes-da-concessao-2
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Esse pode se tornar um dos pontos mais importantes da discussão.

Caso a atual ordem de desocupação seja cumprida antes da concessão, o Aeroclube poderá chegar à entrada da nova gestão utilizando apenas três dos nove hangares que ocupava quando a Lei nº 6.055/2025 foi sancionada.

Surge então uma questão: qual momento deverá ser considerado para definir as “instalações e hangares atualmente utilizados” protegidos pela lei?

Se a referência for junho de 2025, quando a legislação foi sancionada, a estrutura ocupada pelo Aeroclube era uma. Se futuramente forem consideradas apenas as instalações que permanecerem com a entidade depois da atual desocupação, será outra.

A lei estabelece a garantia, mas não esclarece expressamente essa questão temporal.

Na prática, portanto, a redução determinada antes da concessão pode ter consequências que ultrapassam a perda imediata dos seis hangares. Ela poderá influenciar também a dimensão da estrutura que permanecerá protegida quando a iniciativa privada assumir o aeródromo.

A preocupação com o futuro da infraestrutura do Aeroclube não surgiu depois da notificação.

Em 2026, o vereador Kelvin Joelmir de Morais apresentou o Requerimento nº 1521/2026 questionando a Prefeitura justamente sobre a aplicação da garantia prevista na Lei nº 6.055/2025.

Entre os pontos apresentados estava a forma como o Executivo garantiria, no futuro edital e no contrato de concessão, a permanência e utilização das instalações e hangares ocupados pelo Aeroclube.

O questionamento ocorreu meses antes da atual determinação de desocupação.

O AeroJota não localizou, nas fontes públicas consultadas, a resposta formal da Prefeitura ao Requerimento nº 1521/2026.

Paralelamente, a Prefeitura avançou na preparação do novo modelo de gestão.

Em 5 de maio de 2026, o Município publicou o Procedimento de Manifestação de Interesse — PMI nº 004/2026, destinado à elaboração de estudos para estruturar a futura manutenção, operação e expansão do Aeródromo de Tatuí.

O procedimento aparece no portal municipal como concluído em 22 de julho de 2026.

Isso não significa, entretanto, que o aeródromo já tenha sido entregue à iniciativa privada. O PMI integra uma etapa preparatória para a futura concessão.

A própria notificação entregue ao Aeroclube relaciona a reorganização das áreas à preparação da infraestrutura para esse novo modelo de gestão.

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Na Notificação nº 004/2026, a Prefeitura afirma que a reorganização não pretende “extinguir, impedir ou inviabilizar” as atividades institucionais do Aeroclube.

Segundo o Município, a área de aproximadamente 10 mil metros quadrados seria suficiente para permitir a continuidade das atividades da entidade.

O efeito concreto da medida, porém, é a redução da infraestrutura atualmente disponível.

Além da possível perda de seis hangares e de outras instalações, a definição de um perímetro menor também pode limitar a capacidade futura de expansão de uma entidade que atua na formação aeronáutica e no voo a vela.

E existe uma diferença importante: o Aeroclube não está chegando agora ao aeródromo. Está presente há mais de oito décadas e afirma ter investido recursos próprios na construção da infraestrutura que poderá deixar de utilizar.

A sequência dos acontecimentos ajuda a entender por que a redução da área merece atenção.

Em 2025, a lei que autorizou a concessão protegeu as instalações e hangares “atualmente utilizados” pelo Aeroclube. Em 2026, a Câmara questionou como essa garantia seria preservada. Enquanto isso, a Prefeitura avançou nos estudos para a exploração privada do aeródromo.

Agora, antes mesmo da entrada de uma concessionária, o Aeroclube enfrenta a possibilidade de deixar seis hangares e outras instalações construídas ao longo de sua história.

Por isso, a discussão vai além dos 30 dias estabelecidos pela notificação.

O ponto central será definir quanto da estrutura hoje utilizada pelo Aeroclube de Tatuí continuará efetivamente protegida quando a concessão do aeródromo finalmente começar.

Jota A, é Veterano da Força Aérea Brasileira, Aviador, Motociclista e Empresário. Escreve sobre aviação há 10 anos.