Tribunal de Contas da União arquiva investigação sobre viagem de Janja à Rússia com Avião A-330 da FAB
Um dos voos oficiais mais questionados pelo AeroJota em 2025 voltou ao noticiário. O TCU arquivou a investigação sobre a viagem de Janja à Rússia, realizada antecipadamente pela primeira-dama Rosângela Lula da Silva a bordo de um Airbus A330 da Força Aérea Brasileira.
A decisão encerra o questionamento no âmbito do Tribunal. No entanto, ela não apaga uma pergunta que permanece relevante para quem paga a conta: era realmente necessário mobilizar um Airbus A330 da FAB para transportar uma comitiva tão pequena?
Foi justamente essa questão que o AeroJota levantou quando a viagem aconteceu.
Em maio de 2025, Janja embarcou antecipadamente para Moscou em uma das maiores aeronaves da FAB. Segundo as informações disponíveis na época, apenas 16 passageiros estavam a bordo de um avião com capacidade para transportar mais de 230 pessoas. Não se tratava, portanto, de um pequeno jato executivo
O deslocamento ocorreu uma semana antes da chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Rússia.

TCU analisou economicidade da viagem de Janja
No processo TC 014.853/2025-6, o TCU analisou uma Solicitação do Congresso Nacional originada na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.
O pedido buscava apurar a legalidade, legitimidade e economicidade da antecipação da viagem oficial da primeira-dama à Federação Russa.
Também estavam entre os questionamentos a motivação institucional da viagem, as fontes e valores de custeio, a publicidade da agenda e o atendimento aos princípios aplicáveis à administração pública.
Em novembro de 2025, por meio do Acórdão 2671/2025 – Plenário, o Tribunal decidiu tratar o assunto em conjunto com uma investigação mais ampla sobre viagens e despesas da primeira-dama.
Posteriormente, o TCU concluiu que não havia elementos suficientes para caracterizar irregularidade na utilização dos recursos públicos e arquivou as apurações.
Na prática, portanto, Janja não recebeu punição e o Tribunal não considerou irregular a viagem.
Isso, porém, não significa necessariamente que a alternativa adotada tenha sido a mais econômica possível.

Um A330 da FAB para uma comitiva de 16 passageiros
O Airbus A330-200 utilizado pela FAB é uma aeronave de grande porte, desenvolvida para transportar centenas de passageiros por longas distâncias.
Na FAB, o modelo recebeu a designação C-30 e integra a frota do 2º Esquadrão do 2º Grupo de Transporte.
Assim, uma aeronave capaz de levar mais de 230 pessoas realizou aquele deslocamento com uma pequena parcela de sua capacidade ocupada.
A discussão, portanto, não precisa depender de preferência partidária. Trata-se da utilização de recursos públicos e da proporcionalidade da estrutura empregada para cumprir a missão.

AeroJota questionou a operação ainda em 2025
O assunto não apareceu agora no AeroJota.
Na ocasião, o site também fez uma estimativa do custo da operação. Como não havia divulgação oficial detalhada dos valores envolvidos, o cálculo foi apresentado como estimativa não oficial da viagem.
Por outro lado, o governo federal e a Força Aérea Brasileira não divulgaram publicamente uma planilha detalhando o custo específico daquela operação.
O custo total estimado de operação para um voo sem escalas de Brasília a Moscou (11.178km em linha reta) utilizando um Airbus A330-200 é de aproximadamente R$ 1.740,00, mais a volta, por avião.

Onde estavam os compromissos oficiais?
Outro questionamento levantado pelo AeroJota na época envolveu a agenda da primeira-dama.
Nos primeiros dias da viagem, enquanto eram escassos os registros públicos de compromissos institucionais, imagens de Janja em atividades culturais e turísticas começaram a circular.
Entre elas estavam registros de passeios por Moscou e visita ao tradicional Teatro Bolshoi.
O AeroJota chamou atenção justamente para esse contraste: uma aeronave militar brasileira de grande porte havia transportado antecipadamente uma pequena comitiva, enquanto boa parte das imagens que chegavam ao público naquele momento mostrava atividades distantes daquilo que normalmente se imagina como uma missão oficial.
Posteriormente, o governo informou que a primeira-dama possuía agenda institucional e defendeu a regularidade do deslocamento.
A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República chegou, inclusive, a procurar o AeroJota e encaminhou uma manifestação sobre a reportagem. O posicionamento foi publicado pelo site.

TCU entendeu que atuação da primeira-dama tem interesse público
Ao analisar os questionamentos relacionados às viagens internacionais de Janja, o Tribunal considerou que sua atuação pode assumir natureza representativa e de interesse público quando vinculada às atividades institucionais da Presidência da República.
O TCU também considerou agendas públicas, justificativas apresentadas pelo governo e a participação da primeira-dama em compromissos institucionais.
Com esse entendimento, não encontrou elementos suficientes para responsabilização.
Portanto, é importante deixar claro: o TCU não condenou Janja pelo uso de recursos públicos naquela viagem.
Por outro lado, o arquivamento não impede questionamentos sobre as escolhas feitas para realizar essas missões.

E onde ficou o primeiro A330 da FAB?
Existe ainda uma questão sobre aquela operação que permanece pouco transparente.
Janja deixou Brasília em 2 de maio de 2025 a bordo de um dos Airbus A330-200 da Força Aérea Brasileira. Dias depois, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também seguiu para a Rússia com sua comitiva presidencial.
A FAB possui duas aeronaves desse modelo, identificadas como FAB 2901 e FAB 2902.
Isso levanta uma pergunta simples: o que aconteceu com o primeiro A330 depois de deixar Janja e sua comitiva na Rússia?
Ele permaneceu no exterior? Realizou viagens para outras cidades russas? Ou retornou ao Brasil?
O AeroJota não encontrou divulgação pública suficientemente clara da FAB que permita reconstruir toda essa movimentação. Por isso, não é possível afirmar qual dessas hipóteses ocorreu.
A resposta, porém, importa.
Se as duas aeronaves A330-200 da FAB foram mobilizadas em deslocamentos relacionados à viagem à Rússia, a discussão sobre dinheiro público não se limita ao avião que levou antecipadamente a primeira-dama.
Entretanto, é legítimo perguntar quanto custou ao contribuinte toda a operação aérea, e não apenas o voo que levou Janja a Moscou.
Mais de um ano depois, permanece uma informação básica que deveria ser simples de esclarecer: onde estavam o FAB 2901 e o FAB 2902 durante aquela missão e quais voos cada aeronave realizou?
Transparência sobre dinheiro público também significa permitir que o contribuinte saiba como foram utilizadas aeronaves pertencentes ao Estado brasileiro.

Legalidade encerra a discussão sobre o dinheiro gasto?
Uma despesa pública pode encontrar respaldo administrativo e, ainda assim, provocar questionamentos sobre sua necessidade, dimensão ou oportunidade.
O arquivamento pelo TCU encerra a discussão sobre eventual responsabilização dentro daqueles processos. Entretanto, não elimina o debate sobre economicidade.
O C-30 é uma aeronave estratégica para o Brasil. Pode transportar grande quantidade de passageiros e cargas por longas distâncias, além de cumprir missões importantes para o país.
Justamente por isso, a escolha de uma aeronave desse porte para transportar uma comitiva extremamente reduzida naturalmente provoca questionamentos.
Mais de um ano depois, o TCU decidiu que os fatos analisados não configuraram irregularidades que justificassem responsabilização. A decisão precisa ser respeitada e informada ao leitor.
Mas existe outra conclusão que também não deve desaparecer com o arquivamento do processo: dinheiro público não deixa de ser dinheiro público apenas porque determinada despesa foi considerada regular.
E a conta para colocar duas grandes aeronaves da FAB no ar é paga pelo contribuinte brasileiro.






