Voo de planador no Aeroclube de Marília contrasta com Brasília
O voo de planador no Aeroclube de Marília enfrenta um cenário bem diferente daquele observado neste fim de semana em Brasília. Um detalhe na programação de um dos maiores eventos aeronáuticos realizados no país chamou a atenção do AeroJota.
Enquanto em Marília a continuidade do voo a vela enfrenta um impasse envolvendo a administração do aeroporto, em Brasília um planador não apenas esteve presente em um grande evento aberto ao público. Sua operação fez parte da programação aérea planejada para o dia.
A comparação entre as duas situações precisa ser feita com responsabilidade. Brasília e Marília possuem características operacionais diferentes e ninguém está sugerindo que aquilo que funciona em um aeroporto possa simplesmente ser reproduzido em outro.
Mas o contraste deixa uma pergunta que merece resposta:
por que, em determinados aeroportos, procura-se uma maneira de compatibilizar o voo de planador com outras operações, enquanto em Marília essa atividade enfrenta dificuldades para continuar?

O planador estava na programação oficial em Brasília
O Brasília Air Show, realizado no sábado, 6 de setembro, na Base Aérea de Brasília, reuniu aeronaves militares, civis e demonstrações aéreas.
A programação previa decolagens e pousos do KC-390 Millennium e do caça F-39 Gripen, apresentações da Esquadrilha Fox, lançamentos de paraquedistas, passagens dos T-25 e T-27 e, no encerramento das atividades aéreas, apresentação da Esquadrilha da Fumaça.
No meio dessa movimentação havia também uma aeronave muito diferente.
Um planador.
Na programação divulgada ao público, sua chegada estava prevista entre 9h45 e 10h15. Documentação operacional encaminhada ao site AeroJota também mostra uma janela para sua saída durante a tarde.
Não parece, portanto, ter sido uma presença improvisada.
O material ao qual o AeroJota teve acesso indica inclusive a definição de uma área específica para o cabo de reboque, além de horários previamente estabelecidos para a movimentação da aeronave.
A fotografia registrada durante o evento confirma a presença do planador PP-CVA na área destinada às aeronaves.
Segundo a Força Aérea Brasileira, cerca de 140 mil pessoas participaram do Brasília Air Show, realizado na Base Aérea de Brasília.

Brasília mostra que operação exige planejamento
É justamente aqui que a comparação começa a ficar interessante.
A presença de um planador em Brasília não demonstra, por si só, que a mesma operação possa ser realizada em Marília sob condições idênticas.
Não são aeroportos iguais. Não possuem necessariamente os mesmos procedimentos, volume de tráfego ou características operacionais.
O que Brasília demonstra é outra coisa: uma operação envolvendo planador pode exigir planejamento, coordenação, horários determinados e procedimentos próprios.
E isso aparentemente foi feito.
Em vez de excluir a aeronave da programação, foram estabelecidos horários para sua chegada e saída e uma área relacionada ao sistema de reboque.
Essa experiência leva a discussão diretamente para o interior de São Paulo.
Voo de planador no Aeroclube de Marília enfrenta impasse
No Aeroporto Estadual Frank Miloye Milenkovich, em Marília, administrado pela Rede VOA, a relação entre o desenvolvimento das operações comerciais e a permanência das atividades tradicionais do Aeroclube de Marília vem produzindo um cenário bastante diferente. A própria concessionária classifica a unidade como aeroporto executivo e comercial.
O AeroJota já acompanha esse conflito há meses. Em março, mostramos que o Aeroclube de Marília acusou a Rede VOA de interromper uma atividade regular de instrução e voo de planadores. Posteriormente, o caso chegou à Justiça e o Aeroclube de Marília conseguiu uma liminar no processo envolvendo a concessionária e os voos de planador.
O Aeroclube de Marília faz parte da história aeronáutica da cidade e suas atividades não se resumem à presença de algumas aeronaves estacionadas no aeroporto. Aeroclubes participam da formação de pilotos e da manutenção da cultura aeronáutica brasileira.
Entre essas atividades está justamente o voo a vela.
O problema surge quando a operação dos planadores passa a ser tratada como incompatível com o modelo pretendido para o aeroporto.
E Brasília acaba oferecendo um contraponto difícil de ignorar.

Não se trata de liberar planadores sem regras
Defender a permanência do voo a vela em Marília não significa defender operações sem critérios.
Muito menos ignorar questões de segurança operacional.
Planadores possuem características próprias. O lançamento por reboque, a movimentação do cabo, o tempo de ocupação da pista e a coordenação com outras aeronaves precisam ser considerados pela administração aeroportuária e pelos responsáveis pelo tráfego aéreo.
A própria experiência de Brasília ajuda a demonstrar isso.
Havia horário.
Havia planejamento.
Havia local previsto para o cabo.
E havia outras aeronaves operando durante o evento.
Entre elas estavam alguns dos equipamentos mais modernos da Força Aérea Brasileira.
A discussão em Marília, portanto, poderia avançar justamente para esse ponto:
quais procedimentos seriam necessários para permitir a convivência segura entre o voo a vela e as demais operações do aeroporto?
Crescer não precisa significar expulsar
O AeroJota não questiona a necessidade de modernização do Aeroporto de Marília.
Muito pelo contrário.
A ampliação da infraestrutura, a chegada de novos voos e a possibilidade de aeronaves maiores atenderem a cidade são avanços importantes para Marília e toda a região.
Inclusive, o AeroJota mostrou recentemente a discussão sobre o futuro do Aeroporto de Marília e as propostas de expansão apresentadas pela Rede VOA.
Mas desenvolvimento aeroportuário e preservação da atividade aerodesportiva não deveriam ser objetivos automaticamente incompatíveis.
A questão é ainda mais relevante porque o aeroclube não nasceu depois do aeroporto comercial nem apareceu recentemente naquele espaço.
Ele faz parte da história da aviação local.
Por isso, antes de concluir que determinada atividade não pode permanecer, é razoável perguntar se todas as possibilidades de convivência operacional foram efetivamente estudadas.

Se Brasília encontrou uma maneira, Marília pode procurar a sua?
O planador que participou do Brasília Air Show não resolve a discussão de Marília.
Mas ajuda a formular uma pergunta.
Se foi possível estabelecer horários, procedimentos e uma área específica para que um planador participasse de uma programação envolvendo Gripen, KC-390, T-25, T-27, paraquedistas e outras aeronaves, por que uma solução operacional não poderia ao menos ser estudada em Marília?
Talvez as condições técnicas levem a procedimentos diferentes.
Talvez imponham limitações de horários.
Talvez seja necessária uma coordenação específica entre aeroclube, administração aeroportuária e órgãos responsáveis pela segurança das operações.
Tudo isso pode ser discutido.
O que parece difícil de aceitar é que a primeira resposta seja simplesmente eliminar uma atividade aeronáutica histórica sem demonstrar que alternativas de convivência foram esgotadas.
O exemplo de Brasília não deve servir para proibir nada.
Deve servir para perguntar por que, quando existe disposição para encontrar uma solução, diferentes tipos de aviação conseguem dividir o mesmo espaço.
E é justamente essa oportunidade que o Aeroclube de Marília merece ter.






