Caças F-5 completa 50 anos no Chile após atravessar gerações de pilotos, modernizações e algumas das missões mais marcantes da FACh
Avião Caça F-5 completa 50 anos no Chile em 2026 carregando uma história que poucas aeronaves militares conseguem construir. Há caças cuja trajetória termina em um museu. Outros atravessam gerações, acumulam milhares de horas no ar e continuam cumprindo a missão para a qual foram incorporados décadas antes.
Na Força Aérea do Chile (FACh), o pequeno caça supersônico pertence ao segundo grupo. Meio século depois de sua chegada, o F-5 permanece em atividade e carrega números que ajudam a dimensionar sua importância: são mais de 67 mil horas de voo e várias gerações de pilotos e especialistas formados ao redor do sistema de armas.
Mas os números contam apenas uma parte dessa história.

Uma viagem de mais de 10 mil quilômetros para chegar ao Chile
A história começou antes mesmo de os primeiros F-5 pousarem em território chileno.
Buscando incorporar um caça supersônico capaz de ampliar sua capacidade operacional, a Força Aérea do Chile assinou o contrato para aquisição das aeronaves em 1974. Os primeiros F-5E e F-5F chegaram ao país em julho de 1976.
Para isso, os aviões percorreram mais de 10 mil quilômetros desde a Califórnia, nos Estados Unidos, até a Base Aérea Cerro Moreno, em Antofagasta. Começava ali uma relação que atravessaria cinco décadas.
Inicialmente operando no norte chileno, o F-5 assumiu missões relacionadas à defesa e ao controle do espaço aéreo. Com o passar dos anos, porém, aeronaves, tripulações e doutrina evoluíram.
A modernização para o padrão F-5 Tigre III permitiu prolongar sua vida operacional e ampliar suas capacidades. Entre as modificações realizadas ao longo dessa trajetória também esteve a incorporação da capacidade de reabastecimento em voo, elemento que abriria caminho para algumas das missões mais marcantes da história do caça no país.
Do Blue Sky II a uma travessia histórica sobre o Pacífico
Em 1988, os F-5 chilenos participaram do exercício Blue Sky II, realizado no norte do país com aeronaves da Marinha dos Estados Unidos que operavam a partir do porta-aviões USS Independence.
Segundo o relato histórico publicado pela própria FACh, os pilotos chilenos enfrentaram em combates simulados aeronaves como os F-14 Tomcat e F/A-18 Hornet. A experiência representou um importante passo no treinamento das tripulações e na construção da doutrina operacional do F-5 chileno.
Uma década depois viria uma missão ainda mais incomum.
No dia 12 de janeiro de 1998, quatro F-5 Tigre III decolaram de Antofagasta com destino a Rapa Nui, na histórica Operação Manu Tama’i, expressão traduzida pela FACh como “Pájaro de Guerra”.
Havia, entretanto, um enorme obstáculo entre os caças e seu destino: quase 4 mil quilômetros de oceano.

Quatro F-5 sobre o Pacífico
Para tornar a missão possível, os caças receberam combustível em voo de um Boeing 707 Águila, enquanto um C-130 Hércules transportava uma equipe de resgate e um Gulfstream III fornecia informações meteorológicas.
A complexidade da operação exigiu ainda a preparação de um esquema especial de salvamento para as tripulações caso ocorresse uma emergência sobre o Pacífico.
Depois de aproximadamente cinco horas e meia de voo, os quatro F-5 chegaram ao Aeroporto de Mataveri. Era a primeira vez que aeronaves de combate da Força Aérea do Chile realizavam aquela travessia até Rapa Nui.
A missão demonstrava, na prática, como a capacidade de reabastecimento aéreo havia transformado o alcance operacional dos Tigre III.
Posteriormente, os F-5 também viajaram aos Estados Unidos para participar do exercício Red Flag, novamente com apoio de reabastecimento em voo. Durante o exercício, as tripulações chilenas operaram em um ambiente envolvendo aeronaves como F-16 e F/A-18, além de plataformas AWACS, aviões-tanque e helicópteros.

Mais de 140 pilotos chilenos em cinco décadas
Em 15 de setembro de 2026, diferentes gerações de aviadores voltaram a se encontrar na Base Aérea El Bosque para uma cerimônia dedicada aos 50 anos de operação ininterrupta do F-5.
Os números apresentados pela Força Aérea do Chile ajudam a colocar essa trajetória em perspectiva.
Ao longo das cinco décadas, a frota ultrapassou 67 mil horas de voo e participou da formação de mais de 140 pilotos chilenos e seis pilotos estrangeiros. Por trás dessas marcas estão milhares de missões, treinamentos, deslocamentos e horas de trabalho das equipes responsáveis por manter as aeronaves disponíveis.
Atualmente, os F-5 Tigre III estão vinculados ao Grupo de Aviação Nº 12, da IV Brigada Aérea, operando a partir da Base Aérea Chabunco, em Punta Arenas, no extremo sul do Chile.
Aos 50 anos, o F-5 chileno ainda está voando
Talvez o aspecto mais interessante desse cinquentenário esteja justamente no presente.
O F-5 não chegou aos 50 anos na Força Aérea do Chile apenas como uma aeronave histórica preservada para cerimônias.
Em julho de 2026, os F-5 Tigre III do Grupo de Aviação Nº 12 participaram do exercício multidomínio Salitre 2026, uma das grandes atividades militares realizadas naquele ano no país. Os caças operaram em um cenário que reuniu diferentes aeronaves e forças estrangeiras.
Meses antes, durante a FIDAE 2026, os Tigre III também voltaram a aparecer diante do público em apresentações aéreas ao lado dos F-16 da própria Força Aérea do Chile.
Assim, as mais de 67 mil horas registradas até agora não representam apenas o encerramento de uma longa trajetória.
Cinquenta anos depois daquela viagem iniciada na Califórnia em 1976, o F-5 Tigre III no Chile continua voando — e acrescentando novas horas a uma história que ainda não terminou.






