Prefeitura tenta desapropriar por R$ 560 mil área do Aeroclube da Paraíba avaliada em R$ 44,8 milhões

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Jota A
24 de agosto de 2026

Uma disputa envolvendo o Aeroclube da Paraíba e a Prefeitura de São Miguel de Taipu ganhou um novo capítulo e pode afetar diretamente o futuro da infraestrutura aeronáutica instalada no município.

No centro da discussão está uma área onde funciona parte importante do aeródromo utilizado pelo Aeroclube. O município pretende assumir aproximadamente 16 hectares da propriedade para um projeto de desenvolvimento econômico. Entretanto, documentos relacionados ao próprio local ajudam a mostrar que a questão vai além de uma simples negociação imobiliária.

Prefeitur quer desapropriar aéra de Aeroclube da Paraíba_Imagem Ilustrativa 1
Prefeitur quer desapropriar aéra de Aeroclube da Paraíba_Imagem Ilustrativa 1

A Prefeitura de São Miguel de Taipu publicou, em janeiro de 2026, o Decreto Municipal nº 004/2026. O documento declarou de interesse público uma área destinada à futura e eventual implantação de um Porto Seco ou Distrito Industrial.

O próprio decreto, porém, estabeleceu que aquela declaração funcionava como um ato preparatório. Além disso, condicionou a implantação do projeto à realização posterior de estudos técnicos, econômicos, ambientais e urbanísticos.

Meses depois, o município avançou.

Em 3 de julho de 2026, a Prefeitura ajuizou uma ação de desapropriação envolvendo aproximadamente 16 hectares pertencentes ao Aeroclube da Paraíba. O pedido também busca a imissão provisória na posse da área.

É justamente nesse ponto que começa uma das principais divergências do processo.

A Prefeitura atribuiu à área que pretende desapropriar o valor de aproximadamente R$ 560 mil.

A defesa do Aeroclube contesta diretamente essa avaliação.

Segundo informações divulgadas pelo Jornal da Paraíba, a entidade sustenta que o imóvel completo, com cerca de 50 hectares, foi adquirido em 2022 por aproximadamente R$ 15 milhões.

Além disso, o Aeroclube afirma que a administração anterior realizou mais de R$ 40 milhões em benfeitorias.

Na contestação apresentada à Justiça, a avaliação da parcela atingida pela desapropriação chega a aproximadamente R$ 44,8 milhões. Desse total, cerca de R$ 4,8 milhões corresponderiam ao terreno, enquanto mais de R$ 40 milhões estariam relacionados às estruturas existentes.

A diferença entre os valores, portanto, ultrapassa R$ 44 milhões.

Mas existe outro elemento nessa história.

 Prefeitur quer desapropriar aéra de Aeroclube da Paraíba_Imagem Ilustrativa 2
Prefeitur quer desapropriar aéra de Aeroclube da Paraíba_Imagem Ilustrativa 2

A região pretendida pelo município não aparece apenas como um terreno sem utilização definida.

Documentos apresentados à Federação Aeronáutica Internacional (FAI) descrevem no local uma pista asfaltada de aproximadamente 1.000 metros, além de balizamento para operações noturnas e outras estruturas destinadas às atividades aeronáuticas.

A documentação também identifica o Aeroclube da Paraíba como proprietário e operador do aeródromo.

Essas informações ganham importância diante de um dos argumentos apresentados pela defesa: o Aeroclube questiona a avaliação utilizada pelo município e sustenta que ela não considera adequadamente a infraestrutura existente na propriedade.

A discussão sobre o valor, no entanto, pode produzir consequências que ultrapassam o processo de desapropriação.

Além do valor da desapropriação, a defesa questiona qual seria, de fato, o destino pretendido pelo município para a área.

O Decreto nº 004/2026 fala na futura e eventual implantação de um Porto Seco ou Distrito Industrial. Entretanto, segundo o Jornal da Paraíba, na ação encaminhada à Justiça a Prefeitura argumenta que o local reúne condições estratégicas para receber empresas ligadas ao comércio eletrônico e ao transporte de cargas.

Para o Aeroclube, essa mudança de justificativa reforçaria a falta de clareza sobre o projeto.

A entidade sustenta ainda que estudos relacionados ao próprio empreendimento municipal reconheceriam a importância de manter a atividade aeroportuária e apontariam a pista homologada como um ativo capaz de reduzir custos de implantação.

A atual direção do Aeroclube apresenta também uma acusação mais grave.

O presidente da entidade, Venâncio Alencar, afirmou ao Jornal da Paraíba que os problemas com o município teriam se intensificado depois que a nova administração do Aeroclube começou a questionar obras realizadas pela gestão anterior.

A acusação de perseguição, porém, não surgiu apenas depois da ação de desapropriação. Em maio de 2026, antes do processo judicial, o Aeroclube já havia denunciado publicamente uma sequência de medidas da Prefeitura contra suas atividades.

O conflito vinha de antes. No fim de 2025, o Aeroclube foi alvo de embargo municipal e permaneceu fechado no início de 2026, em meio também a discussões sobre licenciamento ambiental.

Entre os casos citados pela atual direção está um muro de aproximadamente 8.400 metros quadrados, ao custo informado de R$ 1,85 milhão.

Segundo Alencar, levantamento técnico e topográfico teria mostrado que a estrutura não cercava apenas os 50 hectares adquiridos pelo Aeroclube, mas também incorporava aproximadamente 11 hectares ainda pertencentes ao antigo vendedor da propriedade.

A direção relaciona o agravamento do conflito aos questionamentos apresentados sobre essas situações. Até o momento, porém, não há decisão judicial que reconheça a desapropriação como forma de retaliação.

Enquanto a discussão avança na Justiça, existe outro problema no horizonte.

O Aeródromo Professora Francisca Cardoso está previsto para receber, entre 9 e 19 de agosto de 2027, competições internacionais de paraquedismo incluídas no calendário oficial da Federação Aeronáutica Internacional (FAI).

A candidatura apresentada à entidade internacional contou inclusive com carta de apoio do prefeito de São Miguel de Taipu.

Agora, na própria contestação judicial, o Aeroclube pede que entidades esportivas e a FAI sejam consultadas sobre as consequências de uma eventual indisponibilidade da estrutura.

A defesa também solicita manifestação da ANAC e sustenta que uma retirada antecipada da entidade da área poderia comprometer a preparação da competição.

Assim, a Justiça terá de analisar não apenas a diferença entre as avaliações apresentadas pelas partes, mas também a validade do ato municipal, a destinação pretendida para a área e os efeitos de uma eventual imissão da Prefeitura na posse.

Com informações do Jornal da Paraíba e documentos públicos da Prefeitura de São Miguel de Taipu e da Federação Aeronáutica Internacional (FAI).

Veja a reportagem em vídeo

A situação envolvendo a desapropriação do Aeroclube da Paraíba também foi destaque na televisão. A reportagem mostra o local e ajuda a entender o impacto da medida sobre a área atualmente utilizada pela entidade.

[ASSISTA À REPORTAGEM NO GLOBOPLAY]

Jota A, é Veterano da Força Aérea Brasileira, Aviador, Motociclista e Empresário. Escreve sobre aviação há 10 anos.