Concessões fizeram a Infraero perder os grandes aeroportos, manteve uma estrutura pesada, continua com resultado operacional negativo e busca receitas enquanto entra em conflito com aeroclubes.
Durante décadas, milhões de brasileiros embarcaram em aeroportos administrados pela estatal. Entretanto, a Infraero perdeu os grandes aeroportos que já fizeram sua marca aparecer em terminais como Guarulhos, Brasília, Galeão, Confins, Recife, Salvador, Fortaleza e Porto Alegre.
Esse cenário mudou profundamente.
Hoje, a empresa administra o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e pouco mais de 20 terminais regionais. Mesmo assim, ainda possui milhares de empregados, enfrenta dificuldades operacionais e procura novas atividades para sustentar sua estrutura.
Ao mesmo tempo, a política de regularização e exploração comercial de áreas aeroportuárias adotada pela Infraero passou a gerar conflitos com aeroclubes em diferentes regiões do país. Canela tornou-se o caso de maior repercussão, mas a discussão sobre a permanência dessas instituições já alcança dezenas de entidades representadas pela FEBRAERO.
Diante disso, surge uma pergunta: o que aconteceu com a empresa que já controlou quase toda a infraestrutura aeroportuária brasileira?

Concessões reduziram a presença da Infraero
A Infraero viveu seu auge entre 2011 e 2012. Naquele período, administrava 66 aeroportos, movimentava cerca de 193 milhões de passageiros por ano e empregava aproximadamente 13 mil pessoas.
Entretanto, o governo federal iniciou uma ampla política de concessões aeroportuárias.
A primeira rodada transferiu para a iniciativa privada os aeroportos de Guarulhos, Brasília e Viracopos. Depois, novas concessões incluíram Galeão, Confins e dezenas de terminais em todas as regiões do país.
Governos de diferentes orientações políticas mantiveram e ampliaram esse modelo.
Como consequência, a Infraero perdeu as receitas geradas pelos aeroportos mais movimentados do Brasil. Isso inclui ganhos com passageiros, cargas, lojas, estacionamentos e diferentes serviços aeroportuários.
Atualmente, a estatal administra 23 aeroportos regionais, além do Santos Dumont. Juntos, esses terminais movimentam cerca de 7 milhões de passageiros por ano.
Portanto, o movimento da estatal caiu aproximadamente 96% em relação a 2012.
A Infraero ainda manteve participações minoritárias em algumas concessionárias. Contudo, também começou a deixar essas sociedades, reduzindo ainda mais sua presença nos grandes aeroportos brasileiros.
Três em cada quatro empregados trabalham fora da estatal
A redução da rede provocou uma queda expressiva no número de funcionários. Mesmo assim, a estrutura atual chama atenção quando comparada ao tamanho da operação.
Segundo o Relatório Anual Integrado de 2025, a Infraero possui 3.586 empregados.
Desse total, cerca de 890 trabalham diretamente nas atividades da empresa. Outros 2.700 estão cedidos para órgãos públicos.
Assim, aproximadamente três em cada quatro funcionários vinculados à Infraero trabalham fora da própria estatal.
Em 2025, um programa de desligamento alcançou 738 empregados. O custo chegou a aproximadamente R$ 517 milhões.
Como resultado, as despesas gerais e administrativas da Infraero subiram para R$ 916,7 milhões no ano.
Os números mostram uma empresa que perdeu a maior parte de sua operação, mas ainda precisa administrar as consequências trabalhistas e financeiras das concessões.

Lucro não veio principalmente da operação dos aeroportos
A Infraero encerrou 2025 com lucro líquido de aproximadamente R$ 316 milhões. Portanto, não seria correto afirmar simplesmente que a empresa terminou o ano no prejuízo.
No entanto, esse resultado não veio principalmente da operação dos aeroportos.
As receitas obtidas com aplicações financeiras tiveram peso decisivo. Enquanto isso, o Ebitda (Lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização), da estatal permaneceu negativo em R$ 35,9 milhões.
Esse indicador ajuda a medir o desempenho das atividades da empresa antes de juros, impostos, depreciação e amortização.
Ao mesmo tempo, o caixa caiu de aproximadamente R$ 2,48 bilhões em 2024 para R$ 986 milhões em 2025. A redução chegou a cerca de R$ 1,5 bilhão em apenas um ano.
Parte dessa queda está relacionada aos custos do programa de desligamento. Além disso, muitos aeroportos regionais possuem baixo movimento e pouca capacidade de gerar receitas.
Esses terminais cumprem uma função pública importante, sobretudo em regiões onde uma operação exclusivamente privada talvez não fosse viável. Por outro lado, essa realidade dificulta o equilíbrio financeiro da estatal.
Governo procura uma nova função para a Infraero
O Ministério de Portos e Aeroportos defende que a Infraero concentre sua atuação nos aeroportos regionais. Além disso, o governo pretende aproveitar a experiência da empresa para ampliar serviços de engenharia, consultoria e elaboração de projetos para estados e municípios.
No entanto, permanece a dúvida sobre o tamanho da estrutura necessária para cumprir essa nova missão.
Afinal, a Infraero administra uma rede muito menor, mas ainda possui milhares de empregados e despesas administrativas elevadas.
Até agora, o governo não apresentou uma solução definitiva para esse desequilíbrio.

Busca por receitas aumenta conflitos com aeroclubes
A necessidade de aumentar a arrecadação também aparece na gestão das áreas aeroportuárias.
A Infraero afirma que precisa regularizar ocupações, atualizar contratos e cobrar valores compatíveis com a utilização dos imóveis públicos.
Entretanto, essa política passou a gerar conflitos com instituições aeronáuticas históricas.
O principal exemplo ocorre no Aeroporto de Canela.
O Aeroclube de Canela atua há 76 anos no local e construiu hangares com recursos próprios. Mesmo assim, a Infraero exigiu a desocupação das áreas e passou a defender a realização de novos contratos comerciais.
A estatal sustenta que o contrato anterior perdeu a validade e afirma que precisa administrar corretamente o patrimônio da União.
Por outro lado, o aeroclube questiona a cobrança de aluguel pelos hangares que construiu. A instituição também destaca seu caráter sem fins lucrativos e sua atuação na formação de pilotos.
A disputa ganhou ainda mais importância porque a Infraero pretende concentrar seu futuro justamente nos aeroportos regionais.
Infraero precisa provar que sua nova estrutura faz sentido
A Infraero ainda reúne profissionais experientes e conhecimento técnico acumulado durante décadas.
Entretanto, a estatal se tornou muito menor do que aquela que administrava os principais aeroportos brasileiros. Sua rede perdeu aproximadamente 96% do movimento de passageiros, enquanto a operação continua enfrentando dificuldades para gerar resultados próprios.
Depois de perder os grandes aeroportos, a empresa precisa provar que sua nova estrutura ainda faz sentido.
O desafio será equilibrar as contas, reduzir os custos, demitir milhares de funcionários e fortalecer a aviação regional sem inviabilizar aeroclubes que formam profissionais e mantêm a atividade aeronáutica em dezenas de cidades.
A forma como a Infraero enfrentará esse conflito também ajudará a definir qual será seu verdadeiro papel na aviação brasileira. Do tamanho que ela esta hoje, isso é inviável financeiramente.






