Governo anuncia mais caças Gripen, mas congela R$ 800 milhões do programa da FAB

Jota

14 de junho de 2026

F 39 Gripen agora faz parte da Defesa Aérea do Brasil_Imagem SAAB

Governo congela verba para caças Gripen da FAB em um momento que parecia indicar justamente o caminho contrário. Durante uma visita oficial à Suécia, uma declaração feita por uma autoridade brasileira chamou a atenção da indústria de defesa e sugeriu a ampliação de um programa estratégico ainda em andamento.

No entanto, poucos dias depois, outra decisão tomada em Brasília começou a gerar questionamentos no setor aeronáutico. Afinal, os dois movimentos parecem apontar para direções completamente diferentes.

A contradição envolve o programa Gripen F-39. O Governo Federal falou em comprar mais caças, mas também congelou recursos previstos para o mesmo projeto da FAB.

F-39-GRIPEN-FAB_Foto-SGT-Muller-Marin
F-39-GRIPEN-FAB_Foto-SGT-Muller-Marin

A declaração sobre a possível compra de mais 20 caças ocorreu durante visita oficial à Suécia. O anúncio coincidiu com a apresentação do primeiro Gripen F, versão biplace desenvolvida para atender requisitos da FAB.

O modelo de dois assentos ainda não foi entregue operacionalmente ao Brasil. Antes disso, a aeronave precisa passar por testes, homologações e etapas técnicas previstas no programa.

Mesmo assim, a apresentação marcou um avanço relevante. O Gripen F terá papel importante no treinamento avançado de pilotos e também poderá atuar em missões operacionais.

O contrato original do programa Gripen foi assinado em 2014. Ele prevê 36 aeronaves, sendo 28 caças F-39E monoplace e 8 caças F-39F biplace.

No entanto, 12 anos depois, apenas 11 aeronaves foram entregues à FAB. O cronograma já passou por ajustes, repactuações e atrasos ligados ao desenvolvimento, à produção e, principalmente, à instabilidade orçamentária.

Esse ponto preocupa porque programas de defesa dependem de previsibilidade. Quando o orçamento falha, o país não atrasa apenas uma entrega. Ele também encarece contratos, reduz prontidão e compromete o planejamento operacional.

Mais 20 caças levariam frota para 56 Gripen

A intenção anunciada pelo Ministério da Defesa prevê a aquisição de mais 20 caças Gripen. Caso avance, a frota contratada subiria de 36 para 56 aeronaves.

Porém, até agora, não há contrato assinado para esse segundo lote. Também não foram divulgados valores, cronograma, forma de financiamento ou impacto na linha de produção.

Por isso, a declaração tem peso político e diplomático, mas ainda não representa uma compra efetiva. Na prática, o Brasil sinalizou interesse enquanto ainda enfrenta dificuldade para pagar o lote original.

Corte de R$ 800 milhões atinge o mesmo programa

A contradição ficou mais evidente com o novo bloqueio orçamentário. Segundo informações publicadas pela imprensa, cerca de R$ 800 milhões destinados ao programa dos caças Gripen foram congelados pelo Governo Federal.

O bloqueio faz parte de uma contenção maior de despesas públicas. A medida pode ser revertida nos próximos meses, mas já expõe a fragilidade dos projetos estratégicos de defesa diante das disputas orçamentárias.

Além disso, o programa F-X2 tinha previsão de R$ 2,1 bilhões em 2026. Mesmo assim, os valores efetivamente pagos até o início de junho estavam muito abaixo da dotação total prevista para o ano.

O tempo também pesa contra o Gripen

A demora nas entregas traz outro efeito pouco discutido. Caças modernos dependem de atualização constante, sensores avançados, integração de armamentos e sistemas de guerra eletrônica cada vez mais sofisticados.

Portanto, quando um programa se arrasta por muitos anos, o tempo se torna um adversário. O Gripen F-39 ainda representa um salto tecnológico para a FAB, mas a lentidão reduz o ritmo da modernização.

Enquanto isso, aeronaves antigas deixam a linha de frente. O F-5 segue em fase final de vida operacional, enquanto os A-1 AMX caminham para a aposentadoria.

M-346 aparece como possível peça intermediária

Nesse cenário, também ganhou força a discussão sobre uma possível aquisição do caça italiano Leonardo M-346FA. A aeronave poderia substituir os A-1 AMX e criar uma etapa intermediária entre o A-29 Super Tucano e o F-39 Gripen, principalmente depois da aposentadoria de todos os F-5EM.

Hoje, a transição de pilotos envolve a saída de uma aeronave turboélice para um caça supersônico de alta complexidade. Com um jato intermediário, a FAB poderia formar pilotos em uma plataforma mais próxima da aviação de combate moderna.

No entanto, essa possibilidade ainda não tem confirmação oficial de compra. Por enquanto, o M-346FA aparece como alternativa em avaliação e como tema recorrente nos bastidores da defesa.

Defesa nacional perde espaço no orçamento

O caso do Gripen não está isolado. A Marinha também sofreu bloqueios em programas estratégicos, incluindo projetos ligados à área nuclear. O Exército, por sua vez, enfrenta limitações para manter presença em regiões sensíveis, como a Amazônia e a faixa de fronteira.

Com isso, o problema deixa de ser apenas a compra de caças. A questão envolve a continuidade de projetos que exigem planejamento de longo prazo, estabilidade financeira e compromisso institucional.

Programas militares não geram retorno eleitoral imediato. Ainda assim, sustentam soberania, vigilância, dissuasão e capacidade de resposta em situações de crise.

Anunciar é fácil, manter o programa é o desafio

A semana deixou uma mensagem clara. O Brasil quer ampliar sua frota de Gripen, mas ainda não conseguiu manter regularidade plena no pagamento e na execução do contrato original.

O anúncio de mais 20 caças pode indicar confiança no programa e interesse em fortalecer a parceria com a Suécia. Porém, o congelamento de R$ 800 milhões mostra que a realidade orçamentária segue impondo limites duros à FAB.

No fim, a pergunta central permanece sem resposta: como o país pretende comprar mais caças se ainda atrasa a chegada daqueles que já contratou?

Enquanto essa dúvida continuar aberta, o Gripen seguirá como símbolo de duas faces da defesa brasileira. De um lado, tecnologia, transferência de conhecimento e ambição estratégica. Do outro, cortes, atrasos e incerteza sobre a prioridade real dada à Força Aérea Brasileira.