O militar deixa de ser militar ou apenas passa a servir de outra forma?

Jota

6 de maio de 2026

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Por Wagner FrattiVeterano da Força Aérea Brasileira.

O militar deixa de ser militar quando sai da ativa? A pergunta parece simples, mas carrega uma reflexão importante sobre identidade, formação e pertencimento. No Brasil, tornou-se comum usar o termo “ex-militar” para designar quem não está mais no serviço ativo.

No entanto, essa expressão pode reduzir uma trajetória inteira a uma ruptura formal. Embora o termo seja aceito em alguns contextos administrativos, ele não traduz, com precisão, aquilo que permanece após a passagem pela vida militar.

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Segundo o Veterano da FAB Wagner Tadeu Fratti, da Associação dos Veteranos da Força Aérea Brasileira AVFAB, o uso do termo “ex-militar” cria uma ideia limitada. Afinal, ele sugere que a pessoa deixou para trás tudo aquilo que construiu durante sua formação.

Essa leitura, porém, não corresponde à realidade. A formação militar não funciona como uma capacitação comum, voltada apenas ao exercício de uma profissão. Ela alcança comportamento, disciplina, valores e mentalidade.

Portanto, quando o militar deixa a ativa, ele muda sua condição funcional. Ainda assim, não apaga a formação que recebeu, nem abandona os valores que passou a carregar.

A formação militar envolve muito mais do que treinamento técnico. Ela desenvolve disciplina permanente, senso de dever, lealdade, respeito à hierarquia e capacidade de decisão sob pressão.

Além disso, a vida militar constrói uma mentalidade de missão. Esses elementos não se desligam com o fim do serviço ativo, porque passam a integrar a estrutura pessoal do indivíduo.

Diferente de muitas profissões, a formação militar não apenas capacita. Ela molda comportamentos, fortalece reflexos operacionais e cria uma forma própria de enxergar responsabilidades.

Existe uma diferença fundamental entre condição jurídica e identidade. O militar pode estar na ativa, na reserva ou reformado. Essas categorias definem sua situação formal dentro da estrutura militar.

No entanto, sua formação permanece. Ele não perde a disciplina, a mentalidade, a capacidade ou o compromisso com valores que marcaram sua trajetória.

Por isso, Fratti resume a ideia de forma direta: o militar deixa de exercer a função, mas não deixa de ser aquilo que se tornou ao longo da carreira.

Sob uma ótica institucional e cultural, o termo mais adequado é “veterano”. A palavra não representa apenas passado, nem afastamento da vida militar.

Ao contrário, veterano significa experiência consolidada. Marinha, Exército e Força Aérea Brasileira formam pessoas que carregam uma bagagem que não pode ser reduzida a um simples “ex”.

Assim, o termo preserva a dignidade, mantém o vínculo simbólico com a instituição e reconhece o valor daquele indivíduo mesmo fora da ativa.

A comparação com outras áreas ajuda a entender

Um médico aposentado deixa de ser médico? Um engenheiro fora do mercado deixa de ser engenheiro? Um professor! A resposta, naturalmente, é não.

Isso ocorre porque o conhecimento e a formação permanecem. No caso militar, essa permanência se torna ainda mais forte, pois envolve valores, comportamento e reflexos construídos durante anos.

Desse modo, chamar alguém apenas de “ex-militar” pode enfraquecer a percepção pública sobre a continuidade dessa identidade.

A terminologia usada pela sociedade influencia a forma como ela reconhece seus próprios veteranos. Chamar alguém de “ex-militar” pode reduzir seu valor, quebrar a continuidade da identidade e afastar esse indivíduo de um papel social que ainda pode exercer.

Por outro lado, o termo “veterano” reforça pertencimento, respeito e reconhecimento. Ele também preserva a ligação simbólica com a instituição militar.

Portanto, a escolha das palavras não é apenas detalhe. Ela também revela como o país enxerga aqueles que dedicaram parte importante de suas vidas ao serviço militar.

A conclusão apresentada por Wagner Tadeu Fratti é clara: o militar não deixa de ser militar. Ele apenas deixa a ativa.

O que permanece é a formação, a disciplina, a capacidade e o compromisso com valores. O que muda é a função formal dentro da estrutura militar.

Como resume o próprio veterano:

“A farda pode ser retirada do corpo, mas jamais da formação. Não existem ex-militares. Existem militares que continuam servindo de outra forma.”

Wagner Tadeu Fratti
Veterano da Associação dos Veteranos da Força Aérea Brasileira – AVFAB