Novo aeroporto terá capacidade para receber grandes aviões comerciais, enquanto Canela busca R$ 85 milhões para ampliar sua estrutura e enfrenta disputa envolvendo o Aeroclube.
Quem visita Gramado ou Canela de avião geralmente precisa enfrentar mais uma etapa da viagem depois do desembarque. Para muitos turistas, são horas de estrada até chegar aos hotéis e atrações da Serra Gaúcha. Agora, uma obra aguardada há mais de duas décadas promete mudar essa realidade, mas também levanta questionamentos sobre outros investimentos aeroportuários na região.
O novo Aeroporto da Serra Gaúcha, localizado em Vila Oliva, distrito de Caxias do Sul (RS), recebeu autorização para o início das obras em 21 de outubro de 2026. O empreendimento pretende atender passageiros, empresas e turistas que visitam diferentes municípios da região.

Novo Aeroporto da Serra Gaúcha poderá receber Boeing e Airbus
Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, a primeira etapa terá pista de 1.930 metros de comprimento por 45 metros de largura, além de taxiways, pátio com oito posições para aeronaves e equipamentos de segurança operacional.
O projeto foi dimensionado para receber modelos como Boeing 737 MAX 8, Airbus A320neo, A321neo e Embraer E195-E2.
O investimento global previsto é de R$ 200,6 milhões, com recursos do Fundo Nacional de Aviação Civil. O contrato de execução da primeira etapa foi firmado por R$ 143,08 milhões, com prazo previsto de 36 meses.
Entretanto, a conclusão dessa etapa não representa necessariamente o início imediato dos voos comerciais, pois outras estruturas e autorizações ainda serão necessárias.
Nova rodovia pretende facilitar acesso a Gramado e Canela
Outro investimento importante envolve a ligação rodoviária entre Vila Oliva e a Região das Hortênsias.
O Governo do Rio Grande do Sul definiu um traçado com 46 quilômetros de intervenções, incluindo cinco quilômetros de acesso ao aeroporto.
O custo estimado é de R$ 288 milhões, separado dos investimentos aeroportuários.
O estudo prevê deslocamento inferior a uma hora até um entroncamento rodoviário em Canela, mas a obra ainda depende de licenciamento, projetos e licitação.
Aeroporto de Canela também busca R$ 85 milhões para receber aviões comerciais
Enquanto Vila Oliva avança, outro projeto chama atenção.
O Aeroporto de Canela, administrado pela Infraero, pretende receber mais R$ 85 milhões para ampliar sua pista até 1.600 metros, construir um terminal de passageiros e adequar suas instalações.
Conforme reportagem da Exame, publicada em 3 de novembro, a proposta busca recursos federais para 2027 e pretende permitir operações com aeronaves como Boeing 737, Airbus A319 e Embraer 195.
Os responsáveis projetam até um milhão de passageiros anuais no terceiro ano de operação, embora os recursos ainda dependam de aprovação.
O AeroJota já havia abordado as promessas de voos comerciais em Canela, destacando dúvidas técnicas e a ausência de companhias aéreas com operações regulares confirmadas.

Dois aeroportos poderão disputar os mesmos passageiros?
O futuro Aeroporto da Serra Gaúcha, em Vila Oliva, ficará a aproximadamente 40 quilômetros do centro de Canela, em linha reta. Segundo estudo do DAER, o novo acesso rodoviário poderá permitir uma viagem de aproximadamente 48 minutos entre o futuro aeroporto e a região da Estrada do Caracol, em Canela, reforçando a possibilidade de ambos os aeroportos atenderem ao mesmo público turístico.
A proximidade levanta uma questão: se Vila Oliva está sendo construído para receber voos comerciais e atender turistas de Gramado e Canela, por que investir outros R$ 85 milhões na ampliação do aeroporto que já existe em Canela?
Embora os dois aeroportos possam ter operações complementares, também poderão disputar passageiros com os mesmos destinos turísticos. Até o momento, não foi identificado um estudo público conjunto que demonstre a demanda necessária para sustentar ambos os projetos.
E por que o Aeroclube de Canela precisa deixar suas instalações?
A discussão ganha outra dimensão quando envolve o futuro do Aeroclube de Canela, instituição com décadas de contribuição para a formação de pilotos.
Como o AeroJota mostrou em reportagem sobre o possível fim do Aeroclube, a entidade enfrenta uma disputa judicial com a Infraero pela permanência em suas instalações.
A Justiça Federal determinou a desocupação da área até 14 de novembro de 2026. O espaço foi objeto de licitação vencida por empresa privada, embora a contratação ainda não estivesse concluída nas informações consultadas.
A área licitada poderá ser utilizada para hangaragem, manutenção, táxi aéreo ou escola de aviação civil, conforme as condições estabelecidas pela Infraero.
Diante disso, surge uma pergunta: se outro aeroporto está sendo construído para atender aos voos comerciais da Serra Gaúcha, qual é a necessidade de retirar uma instituição tradicional de formação aeronáutica de suas instalações?
Investimentos milionários ainda dependem de respostas
A construção de Vila Oliva representa um avanço importante para a infraestrutura aérea gaúcha. Entretanto, a coexistência de dois projetos voltados também ao turismo exige planejamento e transparência.
Será necessário esclarecer se haverá demanda suficiente para sustentar ambos, quais companhias demonstram interesse real nas operações e como os investimentos públicos serão aproveitados.
Enquanto o novo aeroporto começa a sair do papel e Canela busca novos recursos, o Aeroclube enfrenta uma data concreta para deixar suas instalações.
A pergunta permanece: a Serra Gaúcha terá dois aeroportos comerciais bem-sucedidos ou poderá perder uma instituição histórica antes mesmo de conhecer o resultado dessas promessas?





