Voos comerciais em Canela justificam o fim de um aeroclube com 76 anos? Representante questiona promessa

Jota

9 de junho de 2026

Voos comerciais em Canela justificam o fim de um aeroclube com 76 anos_Imagem Ilustrativa.

A discussão sobre o futuro do Aeroporto de Canela ganhou um novo capítulo após a manifestação de Marcelo Mallmann Sulzbach, representante do Aeroclube de Canela, durante a Tribuna do Povo da Câmara de Vereadores.

Com 26 anos de experiência na aviação, sendo 15 deles na aviação comercial, Sulzbach levou ao Legislativo uma pergunta que vem dividindo opiniões na Serra Gaúcha.

Se a promessa de voos comerciais continua sendo usada como justificativa pela Infraero para mudanças no aeroporto, por que a chegada dessas operações aparece como motivo para retirar o Aeroclube de Canela?

A dúvida central é outra: o Aeroclube de Canela realmente impede a implantação dos voos comerciais ou a discussão está sendo conduzida a partir de uma premissa equivocada?

Segundo o representante, a cidade pode discutir desenvolvimento aeroportuário. No entanto, esse debate precisa considerar requisitos técnicos, segurança operacional e a convivência possível entre aviação geral, formação de pilotos e operações comerciais.

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Segundo reportagem publicada pelo portal Leia Fácil, Sulzbach utilizou a Tribuna do Povo, espaço destinado à manifestação de cidadãos e entidades durante as sessões da Câmara de Vereadores, para apresentar questionamentos sobre o futuro do Aeroporto de Canela

Ele explicou que existe diferença entre vontade política e viabilidade operacional. Afinal, uma operação comercial regular exige mais do que interesse turístico ou anúncio público.

Além disso, o representante do aeroclube afirmou que a população precisa conhecer os desafios reais do projeto. Para ele, o debate não pode se limitar à permanência da escola de aviação no local.

Dessa forma, a discussão passou a envolver pista, estrutura, segurança, meteorologia e operação aérea.

Durante a fala, Sulzbach apontou que as melhorias realizadas até agora ficaram concentradas na pista. Segundo ele, houve alargamento e nova pintura.

Entretanto, voos comerciais regulares exigem outros elementos. O aeroporto precisaria contar com sistemas adequados de navegação aérea, meteorologia, iluminação, cercamento e combate a incêndio.

Além disso, uma operação desse tipo também depende de terminal compatível, estrutura de atendimento aos passageiros e planejamento operacional constante.

Por isso, a retirada do aeroclube não resolveria, sozinha, os principais desafios apontados para a aviação comercial.

O comprimento da pista também entrou na discussão. Segundo o relato de Sulzbach, citou cerca de 1.264 metros úteis no Aeroporto de Canela.

Esse número importa porque cada aeronave comercial precisa cumprir requisitos de desempenho. Peso, temperatura, altitude, vento e pista disponível influenciam diretamente a operação.

Além disso, Canela fica em uma região de relevo marcado e clima variável. A Serra Gaúcha registra neblina, chuva e mudanças rápidas nas condições meteorológicas.

Portanto, o debate não envolve apenas espaço físico dentro do aeroporto. Ele também envolve segurança, regularidade e capacidade real de operar durante o ano.

Durante a manifestação, Sulzbach também comparou Canela com outros aeroportos regionais.

A comparação ajuda o público a entender por que aeroportos parecidos no mapa podem ter realidades muito diferentes na prática.

Um terminal pode parecer simples visto de fora. Contudo, para receber voos comerciais, ele precisa atender critérios técnicos, operacionais e regulatórios.

Por isso, pilotos e profissionais da aviação questionam se Canela já reúne as condições necessárias para sustentar operações regulares.

Esse é o ponto que mais chama atenção na discussão.

A Infraero defende uma reorganização das áreas do aeroporto para ampliar o uso comercial do terminal. Dentro dessa lógica, os espaços ocupados pelo Aeroclube de Canela passaram a aparecer como obstáculo ao novo projeto.

No entanto, representantes da comunidade aeronáutica questionam essa relação direta.

Se os maiores desafios envolvem pista, iluminação, meteorologia, navegação, segurança e terminal, a saída do aeroclube realmente viabiliza os voos comerciais?

A pergunta ganhou força porque o aeroclube atua no aeroporto desde 1950. Além disso, a entidade formou gerações de pilotos e manteve atividade aérea constante na região.

A preocupação em Canela também ganhou força por causa de um exemplo no interior de São Paulo.

Em Guaratinguetá, o aeroclube foi despechado do aeroporto após uma disputa semelhante, com uma concessionaria. Na época, a justificativa apresentada era a necessidade de liberar a estrutura para voos comerciais ligados ao turismo religioso da região.

A promessa ficou conhecida na imprensa como “Rota da Fé”, já que Guaratinguetá fica próxima de Aparecida, um dos principais destinos religiosos do Brasil.

O projeto ganhou divulgação política e espaço na imprensa. No entanto, segundo integrantes da comunidade aeronáutica, a operação regular não se consolidou como havia sido prometida.

Com o passar do tempo, o aeroclube deixou de existir no aeroporto. Já os voos comerciais prometidos também não se tornaram uma realidade.

Por isso, pilotos da Serra Gaúcha passaram a enxergar o caso de Guaratinguetá como um alerta. A dúvida é simples: Canela pode repetir o mesmo caminho?

Antes de retirar uma escola de aviação com décadas de história, a comunidade aeronáutica cobra uma resposta mais clara. Afinal, a saída do aeroclube resolve os desafios técnicos do aeroporto ou apenas abre espaço para uma promessa que ainda depende de obras muito maiores?

A disputa entre Infraero e Aeroclube de Canela segue na Justiça. Ainda assim, a manifestação na Câmara trouxe uma pergunta mais ampla para a população.

O aeroporto precisa retirar uma escola de aviação com 76 anos de história ou precisa, antes disso, demonstrar viabilidade técnica para receber voos comerciais regulares?

Enquanto essa resposta não aparece com clareza, o caso segue mobilizando pilotos, moradores e defensores da aviação de formação.

No fim, a discussão não trata apenas de um hangar. Ela envolve planejamento público, segurança operacional e o futuro da aviação na Serra Gaúcha.

Fonte: informações publicadas pelo portal Leia Fácil e declarações apresentadas por Marcelo Mallmann Sulzbach durante a Tribuna do Povo da Câmara de Vereadores de Canela.