Privatização dos aeroportos e aeroclubes brasileiros: o alerta de quem vive a aviação há décadas

Jota

2 de junho de 2026

Privatizacao-dos-aeroportos-e-aeroclubes-brasileiros_Imagem-Ilustrativa

Por Leila Dalfovo Rezende

Privatização dos aeroportos e aeroclubes brasileiros é o tema central do artigo de opinião enviado ao AeroJota por Leila Dalfovo Rezende. A autora acompanha a aviação geral há décadas e alerta para os impactos das concessões, do aumento de custos e da falta de preservação dos aeroclubes históricos.

Com o tempo, esse mesmo “vírus da aviação” também me contaminou. Embora eu não tenha me tornado piloto, desenvolvi uma profunda admiração por esse universo e pelas causas que envolvem a aviação brasileira.

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Dito isso, convido o leitor a refletir sobre uma questão fundamental para o futuro da aviação nacional. O que está acontecendo com os aeroportos públicos e com os preciosos aeroclubes espalhados pelo Brasil?

Certamente, o papel do Poder Público no sistema de transporte aéreo deveria ser o de proporcionar infraestrutura logística adequada ao interior do país. Assim, a aviação poderia ser mais presente, mais acessível e menos custosa.

Falo no passado porque, diante das privatizações dos principais aeroportos brasileiros, tanto nas capitais quanto no interior, observamos uma profunda mudança estrutural e operacional.

A pergunta que precisa ser feita é simples: como essas privatizações estão afetando a aviação de pequeno porte, os aeroclubes e a própria vida dos aeroportos?

Em muitos casos, as concessionárias passaram a enxergar os sítios aeroportuários apenas como ativos econômicos. Dessa forma, a principal finalidade desses espaços passou a ser a geração de receita.

Ao mesmo tempo, durante os processos de concessão, nem o Governo Federal nem diversos governos estaduais trataram adequadamente dos espaços ocupados pelos aeroclubes.

Essas áreas representam muito mais do que simples edificações. Em muitos aeroportos, os aeroclubes fazem parte da própria identidade do aeródromo.

Algumas dessas instituições possuem 70, 80 anos ou mais de história. Além disso, ajudaram a formar gerações de pilotos civis e militares.

Ao contrário do que muitos imaginavam, diversas privatizações não produziram os resultados prometidos. Em vários casos, não houve melhorias significativas na infraestrutura local.

Além disso, os custos operacionais aumentaram e a acessibilidade para entusiastas e futuros aviadores diminuiu.

Exemplos não faltam pelo país. Aeroportos como Bacacheri, em Curitiba, Sorocaba e Marília aparecem frequentemente nos debates sobre custos operacionais e dificuldades enfrentadas pela aviação geral.

Diante desse cenário, surge uma reflexão importante. Qual deve ser o papel do Poder Público quando transfere à iniciativa privada a administração de aeroportos sem planejamento adequado para preservar instituições históricas?

Como equilibrar a necessidade de rentabilidade das concessionárias, inclusive da própria Infraero, com a preservação de entidades que constituem o coração da aviação brasileira?

Os aeroclubes fazem parte da história da aviação nacional. Eles ajudaram a formar profissionais para toda a cadeia aeronáutica e contribuíram para a integração do território brasileiro ao longo de décadas.

Um país não constrói prosperidade desmontando seus próprios legados. A aviação geral continua sendo uma das principais ferramentas de integração nacional e desenvolvimento regional.

Além disso, ela permanece como uma das principais portas de entrada para a formação de novos aviadores.

Entretanto, o setor enfrenta dificuldades crescentes para absorver custos cada vez mais elevados. Taxas de pouso, permanência, movimentação e utilização da infraestrutura aeroportuária tornaram-se um desafio para muitos operadores.

O Brasil é um país continental. Por isso, deveria enxergar a aviação como uma plataforma estratégica para o desenvolvimento econômico e para a integração de regiões distantes.

Nesse contexto, os aeroclubes merecem respeito e reconhecimento pelo papel que desempenham na educação aeronáutica, no incentivo ao desporto aéreo e na democratização do acesso à aviação.

A privatização dos aeroportos e aeroclubes brasileiros precisa, portanto, entrar no debate público com mais responsabilidade. Preservar essas instituições não significa olhar apenas para o passado. Pelo contrário, significa investir no futuro da aviação brasileira.

Leila Dalfovo Rezende é enfermeira aposentada, entusiasta da aviação e membro ativo do Aeroclube de Guarapuava, no Paraná.

“Artigo de opinião enviado ao AeroJota, com ajustes gramaticais e editoriais, preservando o conteúdo original da autora.”