Novo Aeroporto da Serra Gaúcha terá voos comerciais, mas projeto de Canela levanta dúvidas

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Jota A
4 de novembro de 2026

Quem visita Gramado ou Canela de avião geralmente precisa enfrentar mais uma etapa da viagem depois do desembarque. Para muitos turistas, são horas de estrada até chegar aos hotéis e atrações da Serra Gaúcha. Agora, uma obra aguardada há mais de duas décadas promete mudar essa realidade, mas também levanta questionamentos sobre outros investimentos aeroportuários na região.

O novo Aeroporto da Serra Gaúcha, localizado em Vila Oliva, distrito de Caxias do Sul (RS), recebeu autorização para o início das obras em 21 de outubro de 2026. O empreendimento pretende atender passageiros, empresas e turistas que visitam diferentes municípios da região.

Novo-Aeroporto-da-Serra-Gaucha-em-Vila-Oliva
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Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, a primeira etapa terá pista de 1.930 metros de comprimento por 45 metros de largura, além de taxiways, pátio com oito posições para aeronaves e equipamentos de segurança operacional.

O projeto foi dimensionado para receber modelos como Boeing 737 MAX 8, Airbus A320neo, A321neo e Embraer E195-E2.

O investimento global previsto é de R$ 200,6 milhões, com recursos do Fundo Nacional de Aviação Civil. O contrato de execução da primeira etapa foi firmado por R$ 143,08 milhões, com prazo previsto de 36 meses.

Entretanto, a conclusão dessa etapa não representa necessariamente o início imediato dos voos comerciais, pois outras estruturas e autorizações ainda serão necessárias.

Outro investimento importante envolve a ligação rodoviária entre Vila Oliva e a Região das Hortênsias.

O Governo do Rio Grande do Sul definiu um traçado com 46 quilômetros de intervenções, incluindo cinco quilômetros de acesso ao aeroporto.

O custo estimado é de R$ 288 milhões, separado dos investimentos aeroportuários.

O estudo prevê deslocamento inferior a uma hora até um entroncamento rodoviário em Canela, mas a obra ainda depende de licenciamento, projetos e licitação.

Enquanto Vila Oliva avança, outro projeto chama atenção.

O Aeroporto de Canela, administrado pela Infraero, pretende receber mais R$ 85 milhões para ampliar sua pista até 1.600 metros, construir um terminal de passageiros e adequar suas instalações.

Conforme reportagem da Exame, publicada em 3 de novembro, a proposta busca recursos federais para 2027 e pretende permitir operações com aeronaves como Boeing 737, Airbus A319 e Embraer 195.

Os responsáveis projetam até um milhão de passageiros anuais no terceiro ano de operação, embora os recursos ainda dependam de aprovação.

O AeroJota já havia abordado as promessas de voos comerciais em Canela, destacando dúvidas técnicas e a ausência de companhias aéreas com operações regulares confirmadas.

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Dois aeroportos poderão disputar os mesmos passageiros?

O futuro Aeroporto da Serra Gaúcha, em Vila Oliva, ficará a aproximadamente 40 quilômetros do centro de Canela, em linha reta. Segundo estudo do DAER, o novo acesso rodoviário poderá permitir uma viagem de aproximadamente 48 minutos entre o futuro aeroporto e a região da Estrada do Caracol, em Canela, reforçando a possibilidade de ambos os aeroportos atenderem ao mesmo público turístico.

A proximidade levanta uma questão: se Vila Oliva está sendo construído para receber voos comerciais e atender turistas de Gramado e Canela, por que investir outros R$ 85 milhões na ampliação do aeroporto que já existe em Canela?

Embora os dois aeroportos possam ter operações complementares, também poderão disputar passageiros com os mesmos destinos turísticos. Até o momento, não foi identificado um estudo público conjunto que demonstre a demanda necessária para sustentar ambos os projetos.

A discussão ganha outra dimensão quando envolve o futuro do Aeroclube de Canela, instituição com décadas de contribuição para a formação de pilotos.

Como o AeroJota mostrou em reportagem sobre o possível fim do Aeroclube, a entidade enfrenta uma disputa judicial com a Infraero pela permanência em suas instalações.

A Justiça Federal determinou a desocupação da área até 14 de novembro de 2026. O espaço foi objeto de licitação vencida por empresa privada, embora a contratação ainda não estivesse concluída nas informações consultadas.

A área licitada poderá ser utilizada para hangaragem, manutenção, táxi aéreo ou escola de aviação civil, conforme as condições estabelecidas pela Infraero.

Diante disso, surge uma pergunta: se outro aeroporto está sendo construído para atender aos voos comerciais da Serra Gaúcha, qual é a necessidade de retirar uma instituição tradicional de formação aeronáutica de suas instalações?

A construção de Vila Oliva representa um avanço importante para a infraestrutura aérea gaúcha. Entretanto, a coexistência de dois projetos voltados também ao turismo exige planejamento e transparência.

Será necessário esclarecer se haverá demanda suficiente para sustentar ambos, quais companhias demonstram interesse real nas operações e como os investimentos públicos serão aproveitados.

Enquanto o novo aeroporto começa a sair do papel e Canela busca novos recursos, o Aeroclube enfrenta uma data concreta para deixar suas instalações.

A pergunta permanece: a Serra Gaúcha terá dois aeroportos comerciais bem-sucedidos ou poderá perder uma instituição histórica antes mesmo de conhecer o resultado dessas promessas?